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Dois suicídios e três novas tentativas deixam comunidade escolar em choque

O Agrupamento de Escolas de Castro Daire perdeu dois jovens nos últimos quatro meses e, na semana passada, mais três jovens tentaram replicar o acto dos colegas. População, em consternação profunda, procura respostas para estas situações

É enorme a consternação que se vive atualmente em Castro Daire, em todos os segmentos sociais, mas principalmente na comunidade educativa. Tudo começou em maio, quando um aluno da Escola Secundária de Castro Daire, de 17 anos, residente em Lamas, colocou um fim à sua própria vida, praticamente no final do ano letivo.
Mais recentemente, na abertura do ano letivo 2025/2026, um colega seu, de 16 anos, residente em Mões, replicou o seu gesto. Duas vidas perdidas em quatro meses, o que levou o Agrupamento de Escolas de Castro Daire a publicar, na rede social Facebook, que tinha sofrido “mais um profundo sentimento de perda”, na medida em que “os nossos alunos são e serão sempre a energia a alma e o sentido desta casa de educação. Eles são, sem dúvida, o nosso maior valor e por isso não há palavras que possam traduzir qualquer sentimento ou servir de qualquer consolo”.
A perplexidade já atingia proporções gigantes em Castro Daire quando, no início da semana, passada surgiram novos dados. Três colegas da mesma turma, praticamente da mesma idade, tentaram, também eles, provocar a sua própria morte. Os casos aconteceram em Mões, nas Termas do Carvalhal e em Ribolhos. Dois rapazes e uma rapariga. Três adolescentes, três alunos da escola secundária, três filhos... Em comum também tinham o facto de serem colegas e amigos dos dois jovens que partiram em maio e em setembro.
O sentimento que se respira na vila é também de revolta, porque enquanto uns culpam a educação ministrada pelos pais dos jovens, outros questionam o que se estará a fazer de errado na comunidade escolar e se os jovens estarão realmente integrados e emocionalmente saudáveis naquele ambiente.

 

Casos já deveriam estar a ser investigados pelas autoridades

Diário de Viseu falou com Paulo Matos, comandante dos Bombeiros Voluntários de Castro Daire e professor na Escola Secundária de Castro Daire, que começou por considerar “muito estranho” o que se está a passar, acrescentando não saber exatamente “quais são os fatores que possam estar a contribuir ou a confluir para que algo deste género possa estar a acontecer”.
Como professor daquele estabelecimento escolar, acredita que a situação “nada terá a ver com a escola”, alertando para a eventualidade de poderem existir mais casos.
“Não sei se os adolescentes envolvidos pertencem à mesma turma, a maior parte sim, mas penso que não serão apenas alunos daquela turma. Não pos­so garantir que tenham sido três casos, porque porventura, co­mo é algo que vem de trás, até poderão haver mais e nem todos foram assistidos pelos Bombeiros Voluntários de Castro Daire”, referiu.
Paulo Matos admite desconhecer a motivação que levará os jovens a terem este tipo de comportamento.
“Limito-me a registar a minha estranheza relativamente ao que está a acontecer, porque é uma realidade, mas tem de haver alguma justificação, embora não faça ideia do que possa ter motivado isto, não sei se é algum movimento de jovens, se está ligado à dark web ou não, se são outro tipo de questões, sinceramente não faço ideia”.
O comandante dos bombeiros entende que estes casos já deveriam estar a ser devidamente investigados por quem de direito, admitindo que “deve estar a haver acompanhamento por parte da autoridade de saúde, como lhe compete”.
Questionado sobre o estado de espírito reinante na vila e no concelho, perante estes episódios, admitiu que “paira uma enorme perplexidade em toda a comunidade escolar que é transversal a toda a população.
“Trata-se de um elemento que causa perturbação e consternação, porque toda a gente gostaria de ter respostas, incluindo os professores. Mas pode não haver nenhuma ligação concreta à escola, pode ser só pelo facto de nesta idade os miúdos sentirem necessidade de pertencer a um grupo, a figura do grupo é muito importante na vida dos jovens, mas ainda não entendi qual é o mecanismo, se é um efeito espelho, porque há coisas que estão mais ou menos estudadas mas não conseguimos ainda perceber quais foram as motivações. Se é apenas uma coincidência ou não, não tenho dados que me permitam fazer essa avaliação”, enfatizou.

Paulo Matos lamentou, no final, que “jovens de tão tenra idade apresentem este descontrolo”, reconhecendo que a abertura do ano letivo ficou ensombrada por estes casos.

O Diário de Viseu tentou hoje, por várias vezes, falar com o diretor do Agrupamento de Escolas de Castro Daire, António Luís Ferreira, mas todas as tentativas foram infrutíferas.

Por norma, o nosso jornal não noticia suicídios, mas esta matéria serve essencialmente co­mo forma de alerta e sensibilização para um comportamento social cada vez mais preocupante e que nos deve unir a todos.

 

LINHA NACIONAL DE PREVENÇÃO DO SUICÍDIO: 1411

 

 

Programa escolar conclui que sintomatologia depressiva afeta 41% dos adolescentes

O programa Mais Contigo, de prevenção do suicídio nas escolas, detetou que 41% dos mais de 16 mil alunos avaliados no último ano letivo em todo o país, apresentam sintomatologia depressiva ligeira e 26,5% sintomas moderados ou graves. De acordo com os dados da equipa coordenadora nacional, 2.069 adolescentes encontravam-se em risco de adotar um comportamento suicidário, sendo 70,6% raparigas.

O coordenador do programa, José Carlos Santos, docente da Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Coimbra, sali­entou que se mantêm “maiores vulnerabilidades nas jovens, quando comparadas com os rapazes”. O especialista em saúde mental referiu que, à semelhança de anos anteriores, no final da intervenção foi possível diminuir a sintomatologia depressiva e aumentar o autoconceito em ambos os grupos, tendo sido encaminhados 93 adolescentes para os cuidados de saúde primários e 69 para cuidados diferenciados.
“Fizemos, de facto, a diferença. Houve 162 adolescentes que, se não fosse o empenho dos dinamizadores do Mais Contigo, possivelmente estariam em sofrimento mental, sem qualquer acompanhamento ou ajuda mais especializada”, sustentou.

Setembro 26, 2025 . 18:15

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