
Músicas do Mundo mantem-se em Porto Covo
A retirada de Porto Covo do arranque do Festival Músicas do Mundo (FMM) chegou a ser equacionada este ano, mas a organização acabou por decidir manter o formato, concluindo que tem mais vantagens do que constrangimentos.
Ao final da tarde de sexta-feira ninguém arriscaria prever a enchente que dali a umas horas lotaria o Largo Marquês de Pombal, para ver arrancar mais uma edição do FMM, com um concerto de Bruno Pernadas, feliz com a “multidão” que o aguardava.
“Senti que as pessoas estavam muito recetivas e que estavam à espera do início do festival”, descreveu, no final do concerto, a que assistiram pessoas que já conheciam a sua música, mas também um público que não conhecia.
Não foi a sua estreia no FMM, mas, uma década depois, Bruno Pernadas tocou pela primeira vez em Porto Covo e não hesita em dizer que “devia haver mais” festivais como este.
"Lembro-me que quando comecei a tocar em festivais, tinha 17 anos, havia muitos festivais de músicas do mundo, que se foram dissipando, que foram acabando alguns, por falta de apoio das autarquias, mas felizmente o Festival Músicas do Mundo continua a existir”, destaca, reclamando “palcos maiores” e “outros horários” para os músicos nacionais, “porque ajuda à internacionalização e à expansão dos grupos portugueses”.
E não é que ele se possa queixar: vai atuar no festival Kalorama, em Lisboa, “num dia bom, antes da Lauryn Hill”, e depois seguirá para Estocolmo e Londres, antes de voltar a tocar em Portugal.
Já Bruno Pernadas e o coletivo que o acompanhava tocavam quando a Lusa conversou com Álvaro Beijinha, espectador assíduo do festival, mas estreante enquanto presidente da câmara que o financia, a de Sines.
Assumindo que um “evento com esta grandeza” acarreta sempre “constrangimentos” e “algum incómodo” para os residentes, o presidente eleito pela CDU nas últimas eleições assinalou que “as vantagens são imensamente maiores”.
Os territórios – realçou – “podem ser promovidos de diversas formas”, uma das quais através da cultura.
Ora, o FMM traz “algo absolutamente fundamental” a Porto Covo, de que se despede no domingo, e a Sines, para onde se desloca a partir de segunda-feira e até ao próximo fim de semana: música de todos os continentes.
Ainda assim, o executivo liderado por Álvaro Beijinha quis ouvir os empresários locais sobre o impacto do FMM na aldeia “pequena” e “muito turística” de Porto Covo, para perceber “se fazia ou não sentido a Câmara continuar a investir” nos três dias de festival que ali se realizam há várias edições.
“Estamos em pleno julho, temos os hotéis todos cheios, a restauração toda cheia e isso naturalmente cria algum constrangimento”, justificou, logo acrescentando: “Depois de ouvirmos as pessoas, tomámos a decisão de manter o formato nas duas freguesias.”
Isso não quer dizer manter tudo como está, porque agora tem responsabilidades de autarca e vê "o festival de uma forma diferente”.
Beijinha promete “ouvir” todas as partes envolvidas, mas está apostado em reduzir custos e, para tal, “fazer algumas mudanças”.
No ano passado, o FMM teve um investimento superior a 2,1 milhões de euros, com uma receita de 800 mil. Esse “défice” de 1,3 milhões é um investimento “significativo” para “um município que tem para investimento por ano na ordem dos 12 milhões”, ressalva.
O esforço nesta 26.ª edição “é reduzir 400 mil euros [e] tentar manter a mesma receita”, baliza, afastando mexidas na programação: “A redução não tem a ver com a qualidade do festival, bem pelo contrário, (…) o festival em termos de qualidade está intocável."
“Não temos que mudar muito, mas podemos sempre aperfeiçoar e sentir aquilo que porventura não está tão bom”, antecipa.
Natural do concelho vizinho de Santiago do Cacém (onde foi presidente da câmara até esgotar o limite legal de mandatos), Álvaro Beijinha guarda “naturalmente” muitas memórias do FMM.
Esteve na primeira edição, “na altura um jovem”, e lembra-se “perfeitamente” das atuações dos Gipsy Kins e dos Gogol Bordello, que teve de ver através dos ecrãs gigantes que dão para o exterior, dado que o castelo de Sines estava lotado.
“É uma música muito diversificada, é um festival de facto com características muito ‘sui generis’, muito próprias”, reconhece.
“Muito consumidor” de música, está expectante para ouvir Legendary Tigerman, que atua pela primeira vez no FMM domingo à noite (22:30), fechando o cartaz de Porto Covo, e também o “icónico Vitorino”, que já teve “o privilégio” de ver várias vezes.
Desde sempre que o Festival Músicas do Mundo não se faz só de música, oferecendo uma variada lista de atividades paralelas, entre as quais a proteção do ambiente tem sido uma constante.
“Nestas alturas é sempre um pouco mais problemático. Deixamos as pessoas usufruir e, após o festival, fazemos uma recolha geral [do lixo] para ajudar a nossa junta de freguesia”, indica Eurico Nunes, professor que criou uma empresa de turismo e natureza.
Hoje de manhã, Eurico Nunes guiou um grupo pelas arribas do Planalto de Porto Covo, com um objetivo: catar lixo.
Esta atividade chama-se “plogging” e junta à defesa do ambiente o exercício físico, com comprovados benefícios mentais, assevera o guia, autor de uma tese sobre o tema.
Ao longo dos quase oito quilómetros de percurso, os participantes vão enchendo sacos do lixo com os resíduos que vão encontrando pelo caminho e que coletam com a ajuda de pinças.
“Já se vê alguma consciencialização ambiental, embora seja preciso muito mais”, constata Eurico Nunes, observando: “Há casos em que penso que estamos a retroceder, com tanta informação (…), propaganda, sensibilização.”
A estratégia deve passar por confrontar as pessoas com a quantidade de lixo.
“Temos que batalhar e incidir muito na sensibilização e a melhor sensibilização é este tipo de atividades, é levá-las para o terreno, que é para perceberem que, efetivamente, há muito lixo e que podemos fazer mais e melhor”, considera.
Pelo caminho, desvenda uma praia escondida, para gáudio do grupo, e deixa o seu lema: “Tu podes ser e fazer a diferença, portanto, por mais pequeno que seja esse contributo, já é uma grande ajuda.”








