
Governo cubano acusa EUA de aplicar bloqueio que "asfixia e mata silenciosamente"
O ministro dos Negócios Estrangeiros de Cuba, Bruno Rodríguez, acusou hoje os Estados Unidos de aplicarem um bloqueio que "asfixia e mata silenciosamente" a população cubana, pedindo a intervenção da Assembleia-geral da ONU.
A Assembleia-geral da ONU reuniu-se, a pedido do Governo cubano, para debater a "necessidade de pôr fim ao embargo económico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos contra Cuba", num evento contestado por Washington.
De acordo com o ministro cubano, a taxa de mortalidade infantil do país aumentou, assim como cresceu significativamente o número de pessoas que morrem de cancro, uma "tendência que coincide com os momentos mais difíceis do bloqueio imposto pelos EUA".
"O bloqueio asfixia e mata silenciosamente. Prestar atenção a este crime cruel é também da responsabilidade das Nações Unidas. O Governo dos EUA, e em particular o Departamento de Estado, está a espalhar a mentira de que o bloqueio não visa o povo cubano, mas apenas o Governo. Bem, perguntem ao povo de Cuba se estão a sofrer por causa do bloqueio", afirmou Rodríguez, aplaudido por vários diplomatas no final da intervenção.
Os Estados Unidos opuseram-se, sem sucesso, à realização do debate sobre o bloqueio que Washington impõe à ilha.
Com 136 votos a favor, incluindo o de Portugal, nove contra, como dos EUA, da Ucrânia, da Argentina e de Israel, e 30 abstenções, a Assembleia-geral realizou o debate proposto por Havana.
"Perguntem-se: o que fazemos exatamente aqui? Esta reunião libertará os presos políticos de Cuba? Restituirá os salários roubados dos médicos cubanos enviados para o exterior?", questionou o representante norte-americano para Gestão e Reforma da ONU, Jeff Bartos, antes do debate.
"Não estamos a falar dos mais de 800 presos políticos detidos pelo regime cubano. Eles têm eletricidade hoje? Têm luz para ler, escrever, rezar e sobreviver, ou estão no escuro enquanto os funcionários do regime preparam argumentos aqui em Nova Iorque", questionou.
O Sistema Elétrico Nacional de Cuba está hoje a recuperar gradualmente quase 24 horas depois de um apagão geral, o terceiro deste ano, estando ainda sem energia algumas zonas da ilha.
Bartos acusou Havana de querer tornar a Assembleia-geral da ONU "cúmplice da sua máquina de repressão" e aproveitar o momento para fabricar conteúdo propagandístico.
Por sua vez, Bruno Rodríguez acusou Washington de forçar Estados soberanos a abandonar as relações com Cuba e criticou o representante norte-americano por não abordar as consequências que o bloqueio está a causar ao povo cubano.
"Tal não surpreende, pois [Jeff Bartos] representa um Governo responsável pelos ataques nucleares a Hiroshima e Nagasaki, um Governo responsável por dezenas de intervenções militares e pelo apoio às ditaduras militares mais brutais da América Latina e de outras regiões", disse.
"É um Governo cúmplice do genocídio que ocorre em Gaza, da repressão nas universidades contra os professores e estudantes que protestam contra a situação. É o Governo da militarização das cidades por razões políticas, da brutal repressão dos imigrantes, da perseguição policial a esses imigrantes, da separação de crianças pequenas dos pais", acrescentou.
Cuba atravessa uma profunda crise energética desde meados de 2024, agravada desde janeiro pelo bloqueio petrolífero dos EUA, uma medida descrita pela ONU como contrária ao direito internacional e que praticamente paralisou a economia cubana.
Além do embargo de petróleo imposto pelos EUA, sanções foram adicionadas em maio contra qualquer pessoa ou entidade que apoie o Governo cubano ou opere em setores-chave como energia, defesa, finanças e mineração.
A Assembleia-geral da ONU debate essa questão anualmente a pedido de Cuba e geralmente aprova uma resolução que pede o levantamento do embargo norte-americano, embora essas resoluções não sejam juridicamente vinculativas.
O ministro cubano confirmou conversações diplomáticas entre os EUA e Cuba, mas negou qualquer progresso.
"E é difícil que haja algum se a expectativa entre aqueles que conduzem as negociações em Washington for a de tratar Cuba como um adversário vencido ou conquistado, como uma possessão colonial ou um domínio sobre o qual os EUA têm jurisdição e autoridade", acrescentou, durante o debate.







