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Leão XIV desafia UE a fazer mais para proteger os migrantes

O Papa Leão XIV, de visita à ilha italiana de Lampedusa, desafiou hoje a Europa a fazer mais para proteger os migrantes, isto numa altura em que a União Europeia (UE) anunciou a adoção de novas medidas migratórias.

“A Europa é capaz (...) de enfrentar a crise de forma orgânica, integrando a ajuda inicial num plano estratégico de longo prazo, capaz de acolher, proteger, promover e integrar os migrantes, trabalhando simultaneamente para o desenvolvimento, de modo a que ninguém seja forçado a emigrar”, declarou o papa norte-americano na sua homilia.

Leão XIV visita hoje a pequena ilha do sul de Itália, situada no Mediterrâneo Central, que é há vários anos um dos principais pontos de chegada de milhares de pessoas que tentam alcançar a Europa a partir da costa do Norte de África.

Numa visita de meio dia que ocorre 13 anos depois da visita do Papa Francisco - e ocorre poucas semanas depois da UE ter adotado novas medidas migratórias, incluindo o aumento da utilização de centros de detenção e a criação de centros de acolhimento fora das fronteiras da UE, bem como no dia do 250.º aniversário da independência dos Estados Unidos, país natal de Leão XIV, - o papa desafiou a Europa a fazer mais para proteger os migrantes.

Leão XIV denunciou, ainda, “o desrespeito pelo bem comum e a corrupção nos países de origem, um sistema económico global que gera pobreza e exclusão, o medo que alimenta o preconceito e o desprezo” e falou em “cálculos criminosos daqueles que lucram com o sofrimento alheio”.

Leão XIV depositou hoje uma coroa de flores no cemitério com as sepulturas numeradas de migrantes não identificados e visitou a “Porta da Europa”, um monumento dedicado às vítimas, onde permaneceu sozinho em oração sobre uma rocha virada para o mar.

Tal como na sua visita às Canárias espanholas, no mês passado, o Papa fez da defesa dos migrantes um tema recorrente do seu pontificado, agradecendo àqueles que ajudam os mais vulneráveis e condenando as deportações em massa nos Estados Unidos.

“A presença do Papa Leão XIV envia uma mensagem clara numa altura em que o debate político global sobre a migração se centra mais nas fronteiras e na dissuasão do que na proteção e responsabilidade partilhada”, disse o porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), Filippo Ungaro, à agência de notícias AFP.

Antes, acrescenta a AFP, Leão XIV afirmou que as milhares de mortes registadas no Mar Mediterrâneo são vítimas tanto de “decisões tomadas” como de “decisões omitidas”, e denunciou a indiferença pela crise migratória.

Durante a sua homilia na missa celebrada na ilha italiana, o pontífice traçou um paralelo entre a parábola do Bom Samaritano e a atual crise humanitária no Mediterrâneo, denunciando que a indiferença, os interesses económicos e a ausência de políticas eficazes perpetuam o sofrimento daqueles que tentam chegar à Europa.

“A falta de preocupação com o bem comum e a corrupção nos locais de origem, um sistema económico global que gera pobreza e exclusão, o medo que fomenta o preconceito e o desprezo”, elencou.

Situada a apenas 145 quilómetros da costa da Tunísia, Lampedusa tem cerca de 6.000 habitantes.

A travessia do Mediterrâneo central a partir do Norte de África é considerada a rota migratória mais mortífera do mundo, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM).

Em 2025, cerca de 1.330 pessoas terão morrido ou desaparecido ao tentar esta travessia, segundo dados da mesma organização.

Esta rota é monitorizada por um pequeno número de navios de ajuda humanitária, que acusam a UE de não agir para prevenir naufrágios.

Mais de 360 pessoas morreram num naufrágio em outubro de 2013, o pior desastre da história da ilha.

Prevê-se que Leão XIV visite, ainda, o cais onde desembarcam pessoas resgatadas no mar pela guarda costeira, embarcações humanitárias ou pescadores locais, e abençoará uma placa comemorativa dedicada ao Papa Francisco, regressando ao Vaticano ao início da tarde.

As intervenções de hoje de Leão XIV ficam ainda marcadas por uma mensagem enviada por ocasião do 250.º aniversário da Declaração de Independência dos Estados Unidos, seu país de origem.

“Apresento as minhas mais sinceras felicitações a todos os americanos por ocasião do 250º aniversário da assinatura da Declaração de Independência”, expressou o pontífice na carta publicada pela Sala de Imprensa da Santa Sé.

Para o primeiro papa americano da história, este aniversário representa um convite não só para celebrar “a notável trajetória da nação”, mas também para refletir “sobre as responsabilidades que os filhos e filhas deste país têm uns para com os outros e para com as gerações que herdarão a nação que se está a formar hoje”.

“Defender a vida humana inclui também acolher, proteger e apoiar os imigrantes, cujas esperanças, sacrifícios e contributos fazem parte da história deste país desde o seu início”, recordou o pontífice, acrescentando que recebê-los com compaixão e generosidade “não é apenas um ato de caridade, mas também um reconhecimento da dignidade inerente a cada pessoa humana”.

Julho 4, 2026 . 22:30

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