
Entre cânticos, promessas e orações, Fátima apareceu finalmente aos peregrinos da região
Partiram do Santuário de Nossa Senhora da Lapa, em Sernancelhe, para o Santuário de Nossa Senhora de Fátima. De um lugar de fé para outro. Pelo meio ficaram mais de 200 quilómetros, bolhas nos pés, noites curtas, pernas gastas pelo esforço e um cansaço acumulado que, há muito, deixara de ser apenas físico.
Ficaram também promessas repetidas em silêncio, pedidos difíceis de explicar e vários dias de chuva que tornaram o caminho mais duro e exigente.
Mas há qualquer coisa que muda quando Fátima deixa de ser horizonte e passa finalmente a ser chegada. Junto à Rotunda dos Peregrinos, o corpo já não mandava tanto. Empurravam-se passos e, por instantes, o caminhar ganhava nova vida como se as pernas encontrassem uma energia guardada apenas para aquele momento. Já ameaçava chover, mas ninguém se atrevia a abrandar.
Pelo contrário: olhos em frente, vozes a ganhar força e os últimos metros faziam-se em total devoção. “Guiado pela mão, com Jesus eu vou, e sigo como ovelha que encontrou pastor; guiado pela mão, com Jesus eu vou aonde Ele vai.” O cântico começou tímido, ainda misturado com a respiração ofegante do grupo.
Depois ganhou corpo. Uma voz juntou-se a outra e, em poucos segundos, os peregrinos vindos da região de Viseu seguiram firmes até à entrada do santuário. E chegaram.
A chuva não deu tréguas. Continuava a cair persistente, a escorrer pelos rostos, a fintar guarda-chuvas e a colar aos corpos os coletes fluorescentes usados ao longo de dias de caminhada. Alguns sorriam em silêncio enquanto encaravam o santuário. Outros limpavam discretamente os olhos, sem se perceber bem onde acabava a chuva e começava a emoção.
Depois de centenas de quilómetros, Fátima deixava finalmente de ser promessa, horizonte ou destino desejado. Estava ali, diante deles. E havia lágrimas, muitas delas impossíveis de esconder. Mas a chegada não terminou na entrada. O grupo seguiu até à Capelinha das Aparições. Uns de braço dado, outros mais recolhidos. Havia quem caminhasse cabisbaixo, como se carregasse ainda o peso dos dias anteriores. Havia quem olhasse em frente sem conseguir esconder a emoção. Contornaram a capelinha. E foi ali, naquele gesto quase ritual, que muitos pareceram finalmente pousar aquilo que carregaram durante quilómetros.
Houve quem fechasse os olhos. Quem chorasse. Mas todos ofereceram a Nossa Senhora o esforço da caminhada, o cansaço, as dores acumuladas, os pedidos repetidos durante dias e os agradecimentos guardados até ali.
Havia promessas cumpridas em silêncio. Pedidos por filhos, pais doentes, trabalho, paz ou simplesmente força para continuar.
Acima de tudo, aqueles cerca de 100 peregrinos abraçaram-se diante de Fátima por tudo o que viveram e por tudo o que continuam a guardar no coração.
Foi ali que conhecemos Nicole Pereira, uma das muitas peregrinas que partiu para cumprir uma promessa que lhe diz muito. Tentava encontrar palavras para explicar dias inteiros de esforço. Nem sempre conseguia. A emoção interrompia-lhe a voz.
“O trajeto foi duro, não posso dizer que não”, admitiu, emocionada. “Foram etapas muito difíceis, já doía tudo e mais alguma coisa. Mas, ao mesmo tempo, havia uma sensação de superação.”
A chuva, o cansaço acumulado e as dores nos pés tornaram o caminho mais exigente do que imaginava. Ainda assim, garante que nunca pensou desistir. “A vontade de vir era tão grande, a vontade de chegar era maior, que eu acho que valeu muito a pena”, contou, olhando para a Capelinha das Aparições.
E agora, chegada finalmente ao Santuário de Fátima, as palavras pareciam insuficientes para descrever o momento. “É indescritível…”, respondeu, antes das lágrimas nos mostrarem o resto.
Em redor, outros peregrinos repetiam gestos semelhantes. Abraços mais demorados. Mãos repousadas no peito. Olhos fechados por alguns segundos. Silêncios difíceis de traduzir.
Ninguém parecia querer sair porque hoje, depois de mais de 200 quilómetros, Fátima deixara finalmente de ser apenas um lugar de devoção. Tornara-se resposta, alívio ou agradecimento, por vezes, tudo ao mesmo tempo.
“Somos todos irmãos depois desta peregrinação”
A chegada de mais de uma centena de peregrinos ao Santuário de Fátima ficou marcada pela emoção de quem venceu o cansaço, a chuva e mais de 230 quilómetros de caminhada desde Sernancelhe. Depois de dias de intempérie e frio, o sentimento à chegada era de superação, mas também de união entre todos os que partilharam o caminho.
Paulo Ferreira, presidente da direção da associação Eu Peregrino, confessou que esta foi uma das peregrinações mais difíceis dos últimos anos, recordando que, em quase duas décadas de apoio aos peregrinos, poucas vezes enfrentaram condições tão adversas. Ainda assim, destaca a forma como o grupo reagiu às dificuldades, dando “graças a Nossa Senhora e aos peregrinos, porque souberam sofrer”.

Ao longo do percurso, houve noites complicadas, roupa encharcada e momentos em que o conforto deu lugar ao espírito de partilha. “Um colchão que dava para um cabiam três”, contou, emocionado, sublinhando que foi precisamente nesses momentos que mais se sentiu a força do grupo. “Isto é qualquer coisa, este espírito de sacrifício, de grupo. Somos todos irmãos, agora mais depois desta peregrinação”, revela.
Mais do que a dureza física da caminhada, Paulo Ferreira acredita que esta edição ficará na memória pela forma como os peregrinos estiveram uns para os outros. Entre o desgaste e o cansaço, houve espaço para a humildade “de coração”, para a escuta e para o respeito mútuo. Acrescentou ainda que os peregrinos “souberam guardar respeito uns pelos outros” até ao fim da jornada.








