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Há uma mesquita no centro de Viseu e é muito mais do que um lugar de oração

Há 20 anos que este espaço de culto é ponto de acolhimento para quem chega à cidade em busca de melhores condições de vida. A missão é sempre a de ajudar o próximo

À entrada do Centro Comercial Académico, o silêncio avisa-nos de que é tempo de refletir. Talvez porque algumas das lojas, já fechadas, nos traçam um único caminho até ao piso superior. Distribuem-se montras baças que nos apresentam a Mesquita de Viseu, a única na região. Atrás daquela porta, alinham-se sapatos, endireitam-se tapetes e iniciam-se momentos de devoção. E é neste espaço que se reza a Alá, mas não só. É também um lugar de solidariedade e acolhimento onde começam novas vidas.

“Já há 20 anos que começámos, na altura, com uma comunidade pequena”, começa por contar o imã Erfan Abazid, um dos fundadores da mesquita, ao Diário de Viseu, como quem fala de algo que sempre existiu. Hoje em dia, há cerca de 100 pessoas que por ali passa, ora diariamente, ora às sexta-feiras, dia de oração.

Ainda assim, “temos notado que tem aumentado nos últimos anos até porque há sempre alguém novo a chegar”, confessa, acrescentando que o número de muçulmanos tem vindo a crescer na região.

E vêm de várias partes do mundo: Índia, Brasil, países africanos e árabes. Nem todos ficam por terras viseenses. “Muitos acabam por seguir para outros países da Europa”, explica. Mas há quem fique e quem escolha ficar. Erfan também escolheu. Viveu na Alemanha, em França e também na Ucrânia.

Mesquita Viseu 9
Espaço situa-se no piso 3 do Centro Comercial Académico, na avenida Emídio Navarro

Acabou em Viseu quase por acaso. “Portugal é, para mim, o melhor lugar para tudo, é mais calmo e a vida mais estável. O povo aqui é muito mais amigável do que em outros países ”, reconhece.

E, pela conversa, já adivinhávamos que esta mesquita não seria apenas um lugar de oração. É também um ponto de chegada. Às vezes, o primeiro. “Ajudamos com documentos, a arranjar trabalho, casa ou com cursos de português”, enumera. Faz uma breve pausa como quem procura mais “ajudas” nesta lista interminável e sorri: “costumo dizer que já arranjei mais de 100 trabalhos”.

E quando não resta mais nada, há abrigo para todos aqueles que o procurem.

“Temos mais cinco lojas aqui no centro comercial, não é só esta. Houve uma altura em que estava muita gente a chegar e algumas ficaram aqui a dormir. Claro que não é para viver, é para não ficarem na rua ou à chuva até arranjarem casa”, explicou o responsável.

Lembra-se até de tempos em que dormiram ali mais de vinte pessoas.  “Não eram todos muçulmanos, alguns ucranianos, brasileiros e portugueses. Quem pede ajuda, tentamos sempre ajudar”, recorda.

No dia a dia, a rotina é simples. Há orações todos os dias, com maior afluência à sexta-feira, o principal momento de encontro semanal. Em datas festivas, como o final do Ramadão, “o corredor fica cheio porque também é um momento de celebração”.

 

“Para quem quer sair e quer ficar a viver mesmo noutro país, Portugal é, para mim, o melhor lugar para tudo”

A ligação ao território

Ao longo dos últimos anos, a presença da comunidade viseense foi-se consolidando. Há cerca de uma década, foi criado um espaço próprio para muçulmanos no cemitério de Santiago, com o apoio do Município de Viseu.

Uma ligação que se estende ao interior da mesquita, onde permanecem sinais discretos de ligação ao território. O púlpito, o minbar, de onde o imã conduz a oração de sexta-feira, foge ao modelo mais tradicional. Em vez da habitual madeira trabalhada, foi construído em granito, numa escolha que, segundo Erfan, procura refletir uma ligação a Portugal e aos materiais característicos da região.

É nesse mesmo espaço, longe dos olhares mais atentos da cidade, que se cruzam histórias de partida e de chegada. Há quem vá rezar. Há quem vá pedir auxílio. Há quem encontre ali um primeiro ponto de apoio.

Uma porta simples, num lugar algo improvável, que permanece aberta há 20 anos e que, para muitos, é o início de um novo caminho.

Mesquita Viseu 7
Minbar (púlpito) feito em granito em honra à região
Maio 4, 2026 . 19:00

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