
Com a carrinha cheia, Ricardo e Rúben lançaram-se à estrada para ajudar a telhar casas
Não esperaram por ordens, nem por orientações. Também não tinham propriamente um plano. Apenas a certeza de que queriam ajudar quem na madrugada da depressão Kristin viu a própria casa ficar a céu aberto e a chuva entrar porta dentro, empurrada pela força do vento.
Sem eletricidade e impossibilitados de trabalhar - ambos por conta própria -, Ricardo Quaresma, de 30 anos, e Rúben Mendes, de 28, não conseguiram ficar indiferentes ao cenário que encontraram quando saíram à rua.
Ricardo Quaresma é eletricista, canalizador e trabalha na área da construção civil. Rúben trabalha com estruturas metálicas e pladur. Dois homens habituados às obras, aos improvisos e a encontrar soluções práticas. E foi isso que fizeram, sem receber nada em troca.
Não fossem eles homens dos sete ofícios, encheram uma carrinha com o que conseguiram arranjar – lonas, plásticos, ripas de madeira, telhas “velhas”, berbequim, motosserras, serrotes, parafusadores a bateria – e fizeram-se à estrada sem pensar demasiado e sem olhar para os próprios prejuízos.
Ao longo de cerca de várias semanas, taparam e repararam telhados e ajudaram ainda a ligar geradores.
A tempestade também não foi branda com Ricardo Quaresma e a sua família, que enfrenta agora um prejuízo de “60 ou 70 mil euros”. O telheiro “embateu na casa”, “partiu uma janela”, “duas salas foram à vida”, a casa de banho também sofreu danos, tal como o hall de entrada e o telhado. “Tapámos aquilo conforme se pôde só com lonas e plásticos para não chover”, contou Ricardo Quaresma.
Depois de “remediar” provisoriamente a sua habitação em Outeiro da Ranha, na freguesia de Vermoil (Pombal), onde vive com a companheira, a filha e a avó, Ricardo e Rúben equiparam a carrinha e, durante três semanas, incluindo sábados e domingos, percorrerem várias zonas da região: São Simão de Litém, Santiago de Litém, Leiria, Pombal, Bidoeira e Milagres.
As pessoas aperceberam-se de que andavam no terreno a ajudar, o contacto foi passando de boca em boca e, a certa altura, o telemóvel “não parava”. “Recebia por dia mais de 30 ou 40 chamadas”, recordou.
Dupla ajudou mais de 50 famílias
Calculam ter ajudado mais de meia centena de famílias e depararam-se com situações que lhes ficaram cravadas na memória.
Recordam-se de ter ajudado uma senhora de 90 anos a quem chovia “em cima da cama”. Também não esquecem o dia em que ajudaram famílias cujas habitações sofreram muitos danos. Mas há uma história que lhes ficou particularmente marcada.
“Fui aos Milagres telhar a casa de um senhor. Tinha caído um poste da REN em cima da casa e o senhor não tinha reação. Chovia em todo o lado e no fim de telharmos a casa, já falava e a cara mudou. Estava completamente abalado e triste, nem falava, e depois de consertarmos parecia que tinha renascido”, relatou Ricardo Quaresma.
O trabalho que realizavam em cada habitação era provisório, apenas para evitar que a chuva continuasse a entrar. Ainda assim, houve quem pedisse a Ricardo Quaresma que voltasse para realizar a obra em definitivo.
A meio deste processo, Ricardo apercebeu-se de que tinha deixado a família para trás para “acudir o próximo”. Questionou-se se valeria a pena, mas o “espírito de ajuda” falou mais alto. E também a vontade de mostrar que “as novas gerações não estão assim tão perdidas como dizem”. “Há alegria. E as pessoas retribuem”, sublinhou.
Ricardo garantiu não precisar de louvores. Deseja apenas que, um dia, se a filha precisar, alguém faça por ela o que “o pai fez pelos outros”.
Por agora, terá de reconstruir parte da sua casa. A avó, para quem aquela habitação representa “um sonho de vida”, acabou por ir temporariamente para o Algarve. “O sonho de vida dela está destruído”, lamentou.
Questionado sobre se já procurou apoios para requalificar a habitação, Ricardo Quaresma afirmou que todo o investimento ficará por conta da família, pois “há pessoas que precisam bem mais”.







