
"A vitória é sempre um objetivo"
Diário de Viseu: A que sabe a conquista deste título de campeã do Circuito Nacional de Águas Abertas?
Beatriz Cardeal: O título de campeã do Circuito Nacional de Águas Abertas é a cereja no topo do bolo de uma época espetacular e diferente, a vários níveis, mas sem dúvida a melhor até agora e aquela que mais me fez crescer enquanto atleta e, principalmente, enquanto pessoa.
Quando é que a vitória nesta competição passou a ser um objetivo?
A vitória para mim é sempre um objetivo. Entrei neste circuito mais para treinar, numa altura da época que não estava a ter competições em piscina e a primeira prova correu tão bem que comecei logo com uma vitória e a partir daí foi tentar sempre disputar o 1.º lugar prova após prova.
Disputar o título até final com uma colega de equipa, a Helena Rodrigues, foi especial?
Obviamente, tenho muito respeito pela Helena, sendo ela a campeã do circuito de 2024. Sabia que ia ser difícil, ela já tem alguns anos de experiência nesta modalidade que eu não tinha e já tinha estado em diversos locais onde decorreram as provas este ano e por isso, nesse aspeto, eu partia em desvantagem. É muito gratificante ter disputado e ter conseguido ganhar à campeã em título.

Quando foram para Sesimbra, disseram alguma coisa uma à outra antes da competição?
Não acho que fosse o momento ideal para se dizer alguma coisa fosse antes da prova que ia decidir o desfecho final. Estávamos a lutar pelo mesmo, um título é um título e qualquer que fosse o resultado final alguém iria ficar triste pois ia sair derrotado, penso que quem é atleta não gosta de perder. Apesar de sermos rivais dentro de água, fora dela as coisas são diferentes.
Não podemos esquecer nesta conversa a Camila Marcelo que é mais jovem e brilha entre os absolutos. Vê para ela um futuro promissor?
Já conheço a Camila há alguns anos porque ela compete com a minha irmã mais nova, a Leonor, e sei do potencial dela e desde que entrei para o Condeixa conheci-a melhor, notei na capacidade de trabalho e de esforço dela e acho que, se continuar no bom caminho, tem tudo para que corra bem e terá um futuro bastante risonho.
O Condeixa Aqua Clube é uma referência nacional nas águas abertas e é mesmo tetracampeão. Juntar o título individual ao coletivo torna ainda mais saborosa a conquista?
O ano passado pude assistir de longe à conquista do tricampeonato e festejei como se tivesse feito parte. Este ano, poder contribuir para o resultado e juntar a isso a vitória individual, foi indescritível.
Foi uma época de sucesso nas águas abertas, mas também na natação pura tem conseguido belíssimos resultados. O que mais a orgulhou até agora e que metas tem definidas?
O que mais me orgulhou, até agora, não foi nenhum resultado individual, mas sim o 5.º lugar no Nacional de Clubes. Poder competir na 1.ª Divisão num Nacional de Clubes sempre foi um dos meus objetivos desde muito nova, talvez o meu primeiro objetivo, e só há menos de um ano é que consegui cumpri-lo. Foi um resultado brilhante, o melhor de sempre do Condeixa e de uma equipa de Coimbra e foi uma prova em que senti uma união que nunca tinha sentido. Foi muito especial. As metas continuam a ser as mesmas: ir melhorando pouco a pouco os meus recordes pessoais e conseguir ser internacional.
“A conquista de uma é a conquista de todas”
Como começa a sua ligação à natação?
A minha ligação à natação começou há 20 anos, quando os meus pais decidiram começar a levar-me a algumas aulas de natação para bebés para eu aprender a nadar, com medo de que um dia eu estivesse numa situação de perigo e não me soubesse desenrascar. A partir daí, como se costuma dizer, eles tomaram o gosto, eu própria tomei-lhe o gosto e o resto é história.
As suas irmãs, a Leonor e a Joana, também são nadadoras do Condeixa Aqua Clube. Há uma cumplicidade grande entre vocês três?
Como em todas as famílias há arrufos e desavenças, mas faz parte. Somos todas diferentes e cada uma de nós tem uma maneira única e especial de pensamento, mas, apesar disso, tentamo-nos sempre apoiar umas às outras porque, como gosto de dizer, dois é mais que um e três são mais que dois, portanto estamos sempre unidas no bem e no mal.

Aconselham-se mutuamente e “refilam” muito umas com as outras?
Eu e a Joana, sendo mais velhas e tendo uns aninhos de diferença para a Leonor, sabemos de alguns erros e falhas que foram cometidos ao longo de vários anos e, na minha opinião, o nosso dever e obrigação é alertá-la e ajudá-la de maneira a que isso não venha a acontecer com ela, e vice-versa porque, apesar de ela ser mais nova, já teve experiências diferentes das que nós tivemos e também nos pode ajudar, portanto vamos sempre debatendo e ouvindo opiniões distintas.
Quão especial é ter as irmãs ao seu lado a cada conquista?
Eu tenho uma opinião muito clara em relação a esse assunto: lutamos todas pelo mesmo, remamos todas para o mesmo lado e somos todas uma só, por isso a conquista de uma é a conquista de todas, no bem e no mal, sempre. Mesmo que esteja num dia difícil e as coisas não estejam a correr bem, ou esteja num dia bastante bom e sinta que vá correr tudo no seu melhor, saber que as tenho sempre lá ao pé de mim, a apoiar-me, é um sentimento único que não se explica.
Quando as vê triunfar é uma “medalha” que celebra como se fosse sua também?
Somos sangue do mesmo sangue, crescemos juntas e estivemos sempre umas ao lado das outras. Só nós sabemos por aquilo que já passámos e aquilo que já enfrentámos e acredito que, se estivéssemos sozinhas, não tínhamos conseguido aguentar tudo o que sucedeu até ao momento. Posso dizer que “sinto na pele” tudo o que elas conquistam.

Quem é a Beatriz fora da natação?
A Beatriz, fora da natação, é uma mulher de 21 anos que estuda Engenharia Zootécnica na Escola Superior Agrária de Viseu. Apesar de a minha principal paixão e o principal foco ser a natação, nunca quis deixar para trás os estudos e hipotecar a minha vida académica. Tento ao máximo conciliar as duas coisas e começar a construir o meu futuro pós-natação. Sempre adorei animais e o meu sonho sempre teve os animais como base, então um dia espero abrir a minha própria quinta, construir o meu negócio de reprodução e criação de animais.
Conciliar treinos e estudos é complicado?
Conciliar estudos e treinos não é nada fácil. Desde que integrei a equipa do Condeixa, o ano passado, passei a treinar mais vezes e mais tempo, o cansaço acumulou-se cada vez mais e ter disponibilidade para ir para a faculdade foi cada vez mais difícil. Como era uma realidade nova e diferente daquela a que estava habituada, foi bastante difícil e, diria, impossível. Este ano quero voltar a integrar e a unir essas duas vertentes da minha vida que são tão importantes para mim e acredito que vai correr da melhor maneira possível.
O que mais me orgulhou, até agora, não foi nenhum resultado individual, mas sim o 5.º lugar no Nacional de Clubes
Se não fosse na natação em que outra modalidade gostaria de triunfar?
Acho que nunca fiz essa pergunta a mim mesma, sempre conheci a Beatriz na natação e nunca me revi noutro desporto. Aprecio todas as modalidades, cada uma tem o seu propósito e todas elas são incríveis à sua maneira. Há umas que me agradam mais, talvez a ginástica artística é a que me chama mais a atenção, pela beleza e harmonia que demonstra e porque lembra-me um bocado daquilo que é a natação: é um desporto extremamente complicado e em que são precisas muitas horas de treino e muito cansaço para se chegar ao patamar que se pretende.
Há outra paixão na sua vida?
Como já referi, desde pequenina que o meu sonho “quando for grande” era trabalhar com animais. Sempre tive o privilégio de crescer rodeada de animais, o que alimentou mais essa paixão. Houve um dia que os meus pais compraram uma ave de estimação, era um passarinho muito mansinho e brincava connosco e, desde esse dia que decidimos começar a criação de aves para poder proporcionar às pessoas aquilo que nos foi proporcionado a nós. A partir do momento que comecei a ter idade para adquirir algumas responsabilidades, fiquei encarregue de tratar deles e, atualmente, eu e a minha irmã cuidamos das nossas aves juntas e tentamos partilhar para que chegue às pessoas, de maneira a que possam viver aquilo que eu pude viver em pequenina e felizmente tem sido um enorme sucesso.







