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Retirados de aldeias da serra do Caramulo vivem “espera dolorosa”

No centro paroquial da freguesia almoçaram com “a tranquilidade possível”, tendo à sua disposição camas para descansar no quartel dos Bombeiros Voluntários de Vale de Besteiros, a poucos metros de distância

Os habitantes retirados de duas aldeias da encosta da serra do Caramulo, em São João do Monte, Tondela, vivem horas “angustiantes” sem saber como está a casa, local onde querem regressar quanto antes, numa “espera dolorosa”.

“Estas horas são de uma espera angustiante. É uma espera dolorosa”, disse à agência Lusa Elisete Silva, uma das 10 pessoas retiradas das aldeias de Matadagas e Mansores, na freguesia de São João do Monte, na encosta da serra do Caramulo, em Tondela, distrito de Viseu.

No centro paroquial da freguesia almoçaram com “a tranquilidade possível”, tendo à sua disposição camas para descansar no quartel dos Bombeiros Voluntários de Vale de Besteiros, a poucos metros de distância.

“Eu não queria sair de casa, mas fui obrigada. Eu percebo que tivesse de sair, mas não queria”, acrescentou Elisete Silva que, ao lado do marido, os sogros e os dois filhos menores totalizam as seis pessoas retiradas de Matadagas para esse centro.

“A senhora mais velha da povoação, com 88 anos, foi retirada pela filha na noite de ontem”, quinta-feira, disse Elisete Silva.

 

“Sei que desmaiei e quando acordei, não sei quanto tempo depois, percebi que ninguém tinha dado conta disso e então decidi logo sair"

O marido, Carlos Silva, contou à agência Lusa que a família foi retirada, mas ele ficou, “para tentar salvar o que pudesse, juntamente com outros habitantes, mas, um “desmaio, provocado pelo fumo, obrigou” à decisão de retirada.

“Sei que desmaiei e quando acordei, não sei quanto tempo depois, percebi que ninguém tinha dado conta disso e então decidi logo sair. A minha vida é mais importante que a casa e os bens materiais”, reconheceu.

De Matadagas, aldeia evacuada durante a noite de hoje, conseguiu tirar os seus camiões para os “levar para uma zona mais segura, pelo menos, aparentemente, mais segura, porque estão na freguesia” de São João do Monte.

Na mesma mesa, partilharam refeição quatro habitantes de Mansores, de um total de 16 que lá habitam, disse Fernando Oliveira, de 77 anos, notando ser “um cidadão com mais dificuldade, porque as pernas não [o] deixam andar como queria”.

“Mas o meu filho e outros habitantes andam lá a ajudar no que podem. Vamos ver se o negócio se aguenta e se não me ardem os troncos que estavam prontos para entregar”, disse Fernando Oliveira, madeireiro de profissão.

Na sala que ocupam há uma televisão, mas está desligada, “mandaram-na desligar, não é bom estar a ver as notícias” e, “se calhar, é melhor assim”, admitiram.

No exterior está um outro habitante, este a “ajudar no que é possível” e que relatou à agência Lusa que em Matadagas “já ardeu uma casa, menos mal que estava devoluta, seria pior se fosse habitada ou em bom estado”.

Este incêndio deflagrou no concelho vizinho de Vouzela, igualmente no distrito de Viseu, e já provocou duas vítimas ligeiras, dois bombeiros voluntários, devido ao fumo nos olhos, de um da corporação de São Pedro do Sul e outra da de Vouzela.

O incêndio teve início às 03:04 de quinta-feira em Tourelhe, freguesia de Cambra. Pelas 15:00, a página da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) indicava que estavam 988 operacionais no terreno, apoiados por 321 veículos e oito meios aéreos.

Julho 3, 2026 . 16:00

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