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“É um orgulho ir ao Fantasporto com um filme feito em Viseu”

“Paramnésia”, da produtora audiovisual viseense A Toca do Lobo e realizado por Tiago Santos, estreia hoje no Fantasporto, onde poderá vencer o Prémio de Cinema Português - Melhor Filme 2026

Sediada em Viseu, a produtora audiovisual Toca do Lobo Produções cria curtas e longas metragens desde 2023, num percurso que já a levou aos mais reputados festivais de cinema nacionais e internacionais.
Fundado por Tiago Santos, diretor artístico e realizador, o projeto tem como fio condutor a paixão pelo cinema e sua articulação com o design, música e artes visuais. No seu percurso constam já as curtas metragens “Alpha”, “Camaleão”, “BeNice” e “Mayka” e as longas metragens “Pérfido”, "S.Ó.S." “Hylario” e “Pa­ramnésia”. Foi em virtude deste último trabalho, que terá estreia absoluta hoje no Fantasporto, onde está em competição para o Prémio de Cinema Português - Melhor Filme 2026, que falámos com Tiago Santos, escritor e realizador do mesmo.
O filme foi feito porque existiu uma vontade de o fazer, existiu uma oportunidade de o pensar e de o desenvolver e reunir todos os meios e peças que eram necessárias para o fazer e foi isso que fez com que ele acontecesse. Agora, não vou mentir, foi feito também com a certeza de que o queríamos ver selecionado para o Fantasporto. E assim aconteceu”, referiu.
“Paramnésia”, que foi rodado em Viseu e arredores, narra a história de um casal, ele polícia e ela professora de música desempregada, que compra uma casa moderna e espaçosa num sítio ermo. A mudança dá início a uma sequência de acontecimentos que transforma a promessa de recomeço numa experiência inquietante. Trata-se de uma obra de ficção que mergulha em temas de memória e distorção da realidade.
Tiago Santos reconhece que a presença no Fantasporto, que não é inédita, já tinha estado com o filme “S.Ó.S.”, é um corolário do trabalho que tem sido feito, porque “é um marco do cinema em Portugal, com 46 edições, e é um palco que dá atenção não só a nível nacional, mas também internacional. Estamos a falar de um festival internacional com filmes de vários pontos do mundo”. O facto de o filme ser oriundo de Viseu duplica o orgulho.

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É muito bom estar no Fantasporto, ainda para mais com um filme feito em Viseu, onde supostamente muita gente não acredita sequer que se consegue fazer cinema, mas nós fazemos e estamos lá”, enfatizou.
Tiago Santos salienta que “a Toca do Lobo não sou só eu, obviamente, já não sou só eu há algum tempo, mas eu foco-me muito em fazer os filmes, em produzi-los, em criá-los, em trabalhá-los. Depois de eles estarem feitos, já estou a fazer outro. Já estou à volta do “Rigorinerte”, uma curta metragem, e outros projetos que estão aí pela frente, até um bocado mais megalómanos”, acrescentou.
Questionado sobre apoios para a produção do filme, Tiago Santos foi direto: não houve.
“Nós identificamo-nos como produtora mesmo nesse aspeto, apoiamo-nos a nós próprios. Temos um produto feito em casa, gerado e criado, e acabamos por ter meios que poupam muito esse tipo de despesas. Temos muita prata da casa, malta com boa vontade que quer fazer parte da Toca, ainda por cima gente de dentro do setor, tanto da parte técnica como da parte artística, e até agora tem corrido bem”, asseverou.
A inspiração para “Paramnésia” surgiu da curta metragem “A Gota de Água”, feita por Tiago Santos durante a pandemia. Admite que pegou na ideia e a desenvolveu.
“Era sobre alguém que estava no seu limite psicológico e eu gostei muito da atmosfera do filme e sempre pensei em fazer uma sequela. Retirei tudo o que tinha a ver com a gota de água e construí uma história nova a partir de um casal num apartamento recém adquirido. O “Paramnésia” sur­ge um bocado com essa questão toda de dualidade psicológica”, revelou.
Em termos de orçamento, o realizador reconheceu que a rede de contactos é muito importante, porque a casa onde o filme foi rodado, em Sampaio, Figueiró, foi cedida de forma gratuita. Mas citou outras fontes de despesa, como material técnico, transporte, alojamento e refeições. De resto, e falando em cenários, salientou que a região de Viseu é ímpar, porque “num raio de 100 kms, para qualquer lado, tem mar, serra, urbe e floresta, encontramos sempre cenários brutais para gravar”.

 

Produtora promove workshops de cinematografia

A Toca do Lobo também promove work­shops de cinematografia no sentido de enriquecer a sua equipa, algo que Tiago Santos diz ser uma situação “win win”.
“É uma estratégia que funcio­na bem, porque toda a gente fica a ganhar com isso. Nós conseguimos conhecer mais pessoas, e essas pessoas acabam por aprender alguma coisa connosco, que depois podem colocar em prática. Acaba por ser uma espécie de um estágio, e as pessoas adoram, porque fazer cinema é sempre uma atividade espetacular”, explicou.
Nesta altura, a pergunta exigia-se: até onde quer chegar esta Toca do Lobo?
Nós temos ambições de fazer coproduções no estrangeiro, já estivemos num festival no Brasil e estivemos duas ou três vezes em categorias nacionais, mas dentro do internacional. Estivemos dois anos consecutivos no Motel X e sempre na categoria para melhor curta metragem europeia, na categoria Méliès d’Argent, em que, se as coisas correrem bem, aquilo vai direcionado a Cannes, por exemplo. Acabamos, de uma maneira mais ou menos simples, por ser sempre selecionados para festivais internacionais”, sublinhou.

“O filme tem de ter uma boa história e tem de prender”

Como realizador, Tiago Santos admite a sua preferência por trabalhar em poucos cenários.
Os filmes da Toca são todos escritos por mim e são filmes que não precisam de muitos cenários diferentes, o que, no meu ponto de vista criativo, acaba por obrigar o filme a ser bom. Se nós tivermos a capacidade de contar uma história só num espaço, a história tem que ser obrigatoriamente boa, tem que prender, tem que haver curiosidade, um gancho, um clímax. Foi isso que aconteceu com o “Camaleão”, que foi feito num prédio devoluto na rua Direita em apenas um mês. Mandámo-lo para o Motel X e o diretor do júri não acreditava que era uma produção nacional e muito menos viseense. Colocou-nos então na corrida a melhor curta europeia. Um ano depois, aconteceu o mesmo com o “BeNice”. Gostava muito que o mes­mo acontecesse com o “Rigoriner­te”, que estamos a ultimar e que fecha uma espécie de trilogia”, destacou Tiago Santos.
Reconhecendo que o seu estilo cinematográfico de eleição é o thriller, o realizador revela que gosta de “filmes interativos que mantenham o espetador sobressaltado”.

Conciliar realização e escrita com a guitarra portuguesa

Assumindo-se como realizador metódico e escritor compulsivo, ao ponto de escrever um guião de 92 páginas em dois dias, Tiago Santos tem ain­da uma outra atividade, toca guitarra portuguesa e acompanha fadistas em concertos. Uma delas é a sua esposa, Sílvia Mitev, a protagonista de “Paramnésia”. Impunha-se a questão sobre como concilia estes dois mundos. Respondeu que tem 20 anos de carreira como músico e que está “numa fase em que não me dedico tanto à música e não estudo, se calhar, tanto, e sou mais estimulado pela criatividade no cinema e na escrita”.
Olhando para o futuro imedi­ato, que passa pela forte hipóte­se de vencer o prémio de Melhor Filme nacional no Fantasporto, Tiago Santos refere que, acima de tudo, quer “passar um bom bocado” no Porto, recordando que no filme está plasma­do “muito trabalho, sacrifícios, investimento pessoal, chatices em ca­sa, gravações a altas horas da noite e horas sem dormir”.
O “Paramnésia” é um bom filme, obviamente se houvesse mais tempo, e quem diz tempo diz dinheiro, ainda seria melhor, mas digamos que se fez uma omelete não com uma dúzia de ovos, mas com dois ou três ovos mui­to grandes. E a expectativa, se tudo correr bem, porque o filme é bom, é vir para casa com o troféu”, admitiu.
Questionado sobre até onde pode chegar o filme depois do Fantasporto, Tiago Santos diz estar aberto à questão da distri­buição do mesmo, realçando que após a estreia hoje no Porto o filme estará elegível para outros festivais de cinema.
“Veremos o que é que podemos fazer com a “Paramnésia” em termos de festivais, mas o objetivo passa por dar reconhecimento ao filme nesse campo. E quanto mais reconhecimento ele tiver nessa área, se calhar mais aberta estará a negociação com os cinemas, até porque também tenho conhecimento que agora a própria NOS também agora tem uma abertura para a produção nacional, ainda mais produzida no interior, sem ser o estigma do Porto e Lisboa. Nós só temos a lucrar como isso e temos que continuar”, concluiu Tiago Santos.

Março 2, 2026 . 08:30

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