
“Quimera” convida à descoberta livre da feminilidade
Um espetáculo visual, sem palavras, que cruza corpo, sombras, objetos e humor para questionar os modelos de feminilidade e celebrar a liberdade de cada pessoa ser como é. Este é o propósito de ‘Quimera’, o novo trabalho de Caroline Bergeron, da companhia Caótica, que estreia no Teatro Viriato na sexta-feira – para escolas, às 10h30 – e no sábado, para famílias, às 16h00.
Em cena, um ecrã de múltiplas camadas acolhe um universo visual onde corpo, objetos, luz, sombras e canto se combinam para construir uma narrativa que dispensa palavras. Entre o humor e a ambiguidade das imagens, ‘Quimera’ convida o público a olhar para aquilo que vê e que imagina. O espetáculo propõe assim um olhar livre e provocador sobre o feminino, desafiando as expetativas sociais e os modelos que condicionam a forma como nos vemos e nos apresentamos ao mundo.
“Quimera nasce de uma inquietação minha em torno da feminilidade e da forma como esta é construída, condicionada e representada na nossa sociedade. Ao longo dos anos, fui observando como tantas mulheres e raparigas sofrem por não corresponderem aos modelos de feminilidade que lhes são impostos. Apesar das conquistas das últimas décadas, continuamos rodeadas de imagens, expectativas e regras, muitas vezes invisíveis, que determinam como uma mulher deve parecer, comportar-se ou movimentar-se. Comecei então a questionar-me: o que é, afinal, ser feminina? Quem define essa feminilidade? Até que ponto aquilo que consideramos uma escolha pessoal é realmente uma escolha livre?”, explica Caroline Bergeron.
Em vez de oferecer respostas ou propor um novo modelo a seguir, o espetáculo abre espaço para a descoberta de uma feminilidade singular, feita de desejos, contradições, experiências e escolhas.
“Ficaria muito feliz se o espetáculo levasse simplesmente cada espectador(a) a questionar-se sobre a origem das suas próprias crenças relativamente à feminilidade. Não espero que o espetáculo dê respostas, nem que provoque necessariamente uma transformação. Gostaria apenas que abrisse um pequeno espaço de reflexão e, quem sabe, de liberdade”, refere, sublinhando que "gostaria que quem sente dificuldade em aceitar-se tal como é pudesse sair do espetáculo a gostar um bocadinho mais de si própria”.
Residências artísticas passaram pelo Teatro Viriato
A criação nasce do trabalho de pesquisa de Caroline Bergeron e Sara Franqueira desenvolvido em residências artísticas que também passaram pelo Teatro Viriato, a partir de materiais e dispositivos simples como um pano, lanternas e um retroprojetor de acetatos. A exploração das possibilidades das sombras e da luz deu origem a uma linguagem cénica que se foi transformando com a integração do corpo em movimento e do humor de Marta Cerqueira. Desta experimentação emergiu uma narrativa visual, um teatro de sombras que deixa espaço à imaginação e à interpretação de cada espetador.
“Na sombra de alguém, não conseguimos perceber se está a sorrir ou não. Não vemos o rosto, não distinguimos as expressões. Vemos e, ao mesmo tempo, não vemos. E é precisamente essa ambiguidade que me fascina. As sombras mostram-nos o suficiente para despertar a curiosidade, mas escondem o suficiente para deixar espaço à imaginação. Há qualquer coisa de íntimo e misterioso nessa relação. Tornamo-nos uma espécie de espectadores clandestinos, com a estranha sensação de estarmos quase a conseguir espreitar a alma de alguém. A sombra não nos dá todas as informações, não nos impõe uma interpretação. Cada espetador é convidado a preencher aquilo que não vê com a sua própria sensibilidade e as suas experiências”, explica a encenadora.
‘Quimera’ reivindica o direito à diferença, ao prazer e à descoberta. Uma experiência artística que Caroline Bergeron gostaria que fosse recordada como “agradavelmente subversiva”.







