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Quem nunca descobriu um livro nas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian

As bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, que durante décadas percorreram estradas portuguesas levando livros a milhares de pessoas e suprindo uma resposta que o Estado tardou a assegurar, deixaram um legado na rede pública de bibliotecas e na memória coletiva.

No ano em que a Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) celebra 70 anos, o projeto das bibliotecas itinerantes - criado dois anos depois da instituição - continua a ser reconhecido por investigadores, responsáveis pelas bibliotecas públicas e antigos leitores como uma das iniciativas que mais contribuiu para democratizar o acesso ao livro em Portugal.

Criado em 1958, o Serviço de Bibliotecas Itinerantes percorreu o país durante décadas, numa época marcada por elevadas taxas de analfabetismo, escassa oferta de leitura pública e profundas desigualdades no acesso à cultura.

Segundo dados da Fundação, quando o serviço foi extinto, em 2002, as bibliotecas itinerantes tinham disponibilizado cerca de 97 milhões de livros, chegado a 3.900 povoações e registado 29 milhões de leitores.

No estudo “As bibliotecas da Fundação Gulbenkian e a leitura pública em Portugal (1957-1987)”, publicado em 2005 na revista Análise Social, o historiador Daniel Melo concluiu que a Fundação Calouste Gulbenkian desempenhou um papel decisivo na promoção da leitura pública entre 1957 e 1987, criando uma rede de bibliotecas itinerantes e fixas que antecedeu a intervenção do Estado neste domínio.

As bibliotecas da Gulbenkian representaram uma revolução porque surgiram “num ambiente deficitário (rarefeito) e adverso”, marcado pelo “obscurantismo salazarista” e pela escassez de serviços de leitura pública, disse o investigador à Lusa.

Além disso, inspiravam-se no “modelo das ‘public libraries’ inglesas, então já com um século de vida, centrado no livre acesso de todos ao livro, no empréstimo domiciliário e numa oferta minimamente representativa, portanto, plural e diversificada quanto a autores, temas, géneros literários, públicos”, acrescentou.

“A FCG colmatou a missão pública sobretudo durante a ditadura salazarista”, afirmou Daniel Melo, considerando que a fundação respondeu a uma necessidade que o Estado não assegurava, ao contribuir para reduzir “a gritante desigualdade de acesso à leitura” em muitos territórios do interior e ilhas.

Segundo o investigador, o principal legado deste projeto foi a “formação e o empoderamento de muitos milhares de cidadãos comuns, sobretudo jovens e mulheres, que doutro modo não teriam leitura enriquecedora e plural nas suas vidas”.

Mas o impacto das bibliotecas itinerantes estendeu-se muito para além da leitura, tendo influenciado de certa forma a criação da atual Rede Nacional de Bibliotecas Públicas (RNBP), lançada pelo Estado em 1987.

“Sem essa obra pioneira, é difícil imaginar que a RNBP tivesse surgido com a mesma ambição, com um modelo tão consistente e com a rapidez de desenvolvimento que veio a conhecer”, afirmou à Lusa Bruno Eiras, diretor de serviços de bibliotecas da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB).

Na perspetiva do responsável, a atual rede “deve muito à experiência desenvolvida pela Fundação Calouste Gulbenkian”, não por uma relação de continuidade, mas porque dela herdou “uma visão da biblioteca como serviço público de proximidade; metodologias de organização e atendimento; experiência na gestão de coleções; práticas de empréstimo domiciliário; modelos de mediação; e, sobretudo, um conjunto de profissionais altamente motivados”.

O investigador Daniel Melo partilha da mesma opinião e resume essa influência de forma categórica, ao afirmar que sem as bibliotecas itinerantes, a RNBP não teria surgido da mesma forma, “pois esta rede absorveu o essencial desse legado”.

Julho 18, 2026 . 12:15

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