
FC Porto mais pragmático foi campeão sem mácula
O FC Porto ganhou 18 dos primeiros 19 jogos, liderou isolado desde a quarta jornada, após marcante triunfo em Alvalade (2-1), e, mais pragmático do que exuberante, venceu sem mácula a I Liga portuguesa de futebol 2025/26.
Sob o comando do italiano Francesco Farioli (ex-Ajax), em estreia, e com um plantel muito remodelado, depois de três épocas de ‘seca’, os ‘dragões’ não cumpriram o que prometeram de início, em termos exibicionais, mas foram os melhores, os mais regulares.
Numa prova em que, ano após ano, só três equipas lutam pelo cetro, o FC Porto contou também com a ajuda de um bicampeão Sporting incapaz de ganhar jogos ‘grandes’ e de um Benfica que, incrivelmente invicto, se perdeu numa imensidão de empates.
Quanto aos outros, aos ‘pequenos’, o Sporting de Braga voltou a ‘reinar’, mas muito longe, uma vez mais, dos três ‘grandes’, secundado desta vez pelo melhor Famalicão de sempre, que superou um Gil Vicente ‘sensação’ até meio e espera agora que o Sporting vença a Taça de Portugal para chegar pela primeira vez à Europa.
Mais abaixo, tombaram o Tondela e o AVS, que estiveram nos dois últimos lugares desde início e serão substituídos por Marítimo e Académico de Viseu (de volta 37 anos depois), enquanto o Casa Pia tentará salvar-se perante o Torreense, o finalista da Taça.
A 92.ª edição do campeonato luso ficou também marcada, à margem das quatro linhas, por ‘infinitas’ polémicas, sempre com a arbitragem no epicentro, juntamente com o VAR, a tecnologia que, em mãos humanas, por vezes estraga mais do que ajuda.
Dentro do campo, ‘mandou’ o FC Porto, acompanhado nas primeiras três rondas – o Famalicão foi o primeiro líder e o Sporting comandou nas duas rondas seguintes – e a solo, até ao fim, desde a quarta, após derrotar os ‘leões’ na sua própria casa.
Os dois clubes chegaram a esse encontro com três vitórias em três jogos, mas, em Alvalade, os ‘dragões’ imperaram, com um triunfo por 2-1 que pesou muitas nas contas do campeonato, em termos práticos e também psicológicos.
Farioli, contestado de início por ‘sentar’ Rodrigo Mora, que tinha sido o destaque do FC Porto 2024/25 e era a ‘coqueluche’ dos adeptos, como que saiu ‘validado’ de Alvalade, com os ‘dragões’ a tornarem-se uma ‘máquina’ de somar triunfos.
Mesmo perdendo rapidamente a exuberância – quatro vitórias por mais de dois golos nas primeiras sete rondas e, depois, até ao fim da prova, apenas mais três -, o FC Porto foi letal e só não fez uma primeira volta perfeita porque, à oitava jornada, foi ‘anulado’ no Dragão pela estratégia defensiva de José Mourinho.
De resto, os ‘azuis e brancos’ somaram 16 vitórias e viraram para a segunda metade já com ‘mão e meia’ no título, face aos sete pontos de vantagem para o Sporting e 10 para o Benfica.
No início da segunda metade, à 20.ª ronda, o FC Porto sofreu um inesperado desaire no reduto do Casa Pia (1-2), precisamente antes de receber o Sporting, num jogo em que teve o triunfo na mão e deixou-o fugir aos 90+10 minutos.
Os ‘dragões’ ampliaram o avanço, ao garantirem vantagem no confronto direto, mas ainda se ‘assustaram’, quando não foram capazes de segurar vantagens na Luz (0-2 para 2-2), à 25.ª ronda, e na receção ao Famalicão (1-0 e 2-1 para 2-2), à 28.ª
Com um jogo em atraso, o bicampeão Sporting colocou-se a cinco pontos, ‘proibindo’ o FC Porto de falhar, só que, quem claudicou, depois, foram os ‘leões’, que se despediram definitivamente do título à 30.ª jornada, ao perderem em casa com o Benfica por 2-1.
Depois, passou a ser uma questão de quando e, à 32.ª ronda, com o Sporting em ‘desnorte’ – empatou com os dois últimos e chegou a perder o segundo lugar para o Benfica, que, depois, não o conseguiu segurar -, os ‘dragões’ carimbaram o 31.º título.
Este cetro teve muita contribuição dos reforços, com destaque para o central Bednarek e o médio Froholdt, sendo também decisiva a forma como, especialmente após a pausa invernal, Farioli rodou a equipa na Liga Europa, privilegiando sempre a I Liga.
Alberto Costa, Kiwior, Gabri Veiga e Borja Sainz também trouxeram qualidade ao plantel, tal como os ‘invernais’ Fofana e Pietuszewski, enquanto, entre os que transitaram, foram essenciais Diogo Costa, Alan Varela, Pepê e Samu, este até se lesionar e deixar muito cedo a equipa órfã de um goleador.
O FC Porto ‘reinou’ e fê-lo também em honra de Jorge Costa, o histórico futebolista dos ‘dragões’ que morreu em 05 de agosto de 2025, quando era diretor do clube. Nunca foi esquecido.
A ‘emancipação’ dos ‘dragões’ impediu o Sporting de concretizar o sonho do primeiro ‘tri’ em 70 anos, isto depois de parecer ter conseguido o ‘impossível’, que foi encontrar no colombiano Luis Suárez um sucessor à altura para Viktor Gyökeres.
Os ‘leões’, na primeira época completa de Rui Borges, acabaram com o melhor ataque (89 golos), à ‘boleia’ de Suárez (28), e, muitas vezes, foram elogiados pela qualidade do seu futebol, mas claudicaram nos jogos principais.
Perante os melhores, o Sporting não ganhou um único jogo, somando desaires em casa com FC Porto e Benfica e empates nos outros jogos, incluindo os dois com o Sporting de Braga e até um com o Gil Vicente, então quarto, em jogos que desperdiçou inúmeras vantagens, várias em plenos descontos.
As muitas lesões, entre outros de Pedro Gonçalves, Quenda, Bragança ou Nuno Santos, e a ‘Champions’, até aos ‘quartos’, complicaram, num conjunto que também se destacaram Maxi Araújo, Francisco Trincão, Catamo, Gonçalo Inácio e o capitão Hjulmand.
O Sporting salvou o segundo lugar, mas também por demérito do Benfica, que mudou de treinador após quatro jogos, com Bruno Lage a ser despedido e a chegar José Mourinho, e viveu uma época de sobressaltos, nunca conseguindo verdadeiramente ser fiável.
Por isso, não deixa de ser estranho, contrastante, que tenha conseguido acabar invencível, um feito incrível, que nunca tinha sido alcançado por nenhum clube a 34 jornadas - e só quatro vezes a 30 – e foi caso único na Europa do futebol em 2025/26.
O problema foram os 11 empates – máximo desde os 13 do quarto lugar de 2007/08 -, que impediram o Benfica de lutar pelo título e estiveram também na origem da perda, sobre o final, do segundo lugar, entre constantes queixas das arbitragens.
O ‘eclipse’ na segunda volta de Pavlidis (cinco golos, depois dos 17 na primeira) também não ajudou, num conjunto em que os reforços saíram ‘ao lado’, Richard Ríos e Dedic à parte, e, na parte final, sobressaiu a classe do norueguês Schjelderup.
Muito abaixo, acabou o Sporting de Braga, que foi o ‘rei dos pequenos’ pela nona época consecutiva (desde 2017/18), mas cedo perdeu qualquer veleidade de se intrometer entre os ‘grandes’, ao somar apenas três vitórias nas primeiras 10 rondas.
Na estreia do espanhol Carlos Vicens, os ‘arsenalistas’ mantiveram-se em queda – 59 pontos, depois de 66 em 2024/25, 68 em 2023/24 e 78 em 2022/23 -, num percurso em que se destacaram o guarda-redes Hornicek, o central Lagerbielke e os avançados Zalazar, reforço do Sporting para 2026/27, e Ricardo Horta.
O conjunto minhoto, que perdeu os dois jogos com o FC Porto e empatou os quatro com Benfica e Sporting, ficou longe da frente, mas, com uma segunda volta melhor do que a primeira, acabou numa ‘ilha’, também com folga para os perseguidores.
Nos distritais em 2008/09 e no terceiro escalão em 2014/15, o Famalicão foi o melhor dos outros, ao conseguir o quinto lugar, a sua melhor classificação de sempre, num trajeto em ascensão, em que somou mais 10 pontos na segunda volta do que na primeira.
Sob o comando de Hugo Oliveira, o ‘Fama’ primou pelo futebol de qualidade, com jogadores como Gustavo Sá, Mathias de Amorim, Gil Dias, Sorriso, Justin de Haas ou Rodrigo Pinheiro, para melhorar o sexto lugar de 2019/20.
Em sexto, fechou o Gil Vicente, de César Peixoto, que depois de ter sido a equipa sensação na primeira volta, concluída no quarto lugar, caiu na segunda, sem o goleador Pablo, vendido ao West Ham, mas ainda com Luis Esteves, Santi García ou Murilo.
Longe da Europa, mas também dos lugares de ‘perigo’, acabaram o Moreirense, de Vasco Botelho da Costa, em sétimo, apesar de ter caído muito na segunda volta (16 pontos, contra 27), e o Arouca, de Vasco Seabra, que, em sentido inverso, com uma grande recuperação na segunda metade (28, contra 14), acabou em oitavo.
O Vitória de Guimarães, que mudou de treinador (Luís Pinto por Gil Lameiras) após a ronda 25, foi apenas nono, enquanto o Estoril Praia, de Ian Cahtro, acabou em 10.º, com o marroquino Begraoui (20 golos) em grande destaque e o austríaco Felix Bacher com único totalista entre os jogadores de campo.
No regresso à I Liga, o Alverca, de Custódio Castro, não passou por sobressaltos e fechou em 11.º, enquanto o Rio Ave, com a perda a meio dos goleadores Clayton e André Luiz, não conseguiu mais do que ser 12.º, liderado pelo grego Sotiriis Silaidopoulos.
O Santa Clara, com uma ponta final de bom nível, coincidente com a entrada de Petit para o lugar de Vasco Matos, trepou até ao 13.º posto, enquanto o Nacional, de Tiago Margarido, foi 14.º, ao ‘colo’ dos 18 golos, em 37, do venezuelano Jesús Ramírez.
O Estrela da Amadora, que começou com José Faria, passou por João Nuno e acabou com Cristiano Bacci, salvou-se na última jogada, graças ao croata Stefan Lekovic, ao fechar em 15.º, à frente de um Casa Pia que acabou com a invencibilidade do FC Porto e empatou duas vezes o Benfica, mas só foi 16.º e vai ao play-off, com Álvaro Pacheco - após João Pereira e Gonçalo Brandão.
Depois de uma época em que andaram quase sempre na cauda da tabela, o Tondela, que foi orientado por Ivo Vieira, Bacci e Gonçalo Feio, desce um ano depois de subir, enquanto o AVS, liderado por José Mota, João Pedro Sousa e João Henriques, só ganhou pela primeira vez à 22.ª ronda e tomba dois anos volvidos.








