
Prova de vinhos antigos convida à redescoberta da história do Dão
A Comissão Vitivinícola Regional (CVR) do Dão desafiou quatro enólogos da região a provar vinhos, alguns com mais de 50 anos, de uma garrafeira antiga, fechada desde 2004, que foi descoberta aquando da reorganização que a comissão implementou nas suas instalações.
O evento decorreu ontem no Solar do Dão, conduzido pelo enólogo António Mendes, presidente da UDACA, após palavras introdutórias de Manuel Pinheiro, presidente da CVR. À mesa, para degustar “vinhos que merecem ser descobertos e partilhados”, sentaram-se Mafalda Perdigão (Quinta do Perdigão), Sónia Martins (Lusovini/ Pedra Cancela), Paulo Nunes (Casa da Passarella) e Paulo Prior (Casa de Santar).
Manuel Pinheiro referiu ao nosso jornal que a ideia foi “tentar perceber como é que a região evoluiu até aos dias de hoje”, até porque “o Dão é uma região com muita história, foi demarcada em 1908, mas faz-se aqui vinho há milhares de anos”. Consciente de que nos anos 70 a realidade das vinhas “era muito diferente, porque não havia a tecnologia que temos hoje”, acrescentou que os vinhos à prova, da década de 70, 80 e 90, convidavam a uma “redescoberta da história do Dão, para atestar a qualidade da região, porque temos vinhos com grande longevidade e é isso que vamos propor hoje”.
A prova de vinhos contou com exemplares de 1970, 1971, 1980 e 1993, “servidos” com pormenores alusivos à vinificação da altura, como a predominância do “cheiro típico do Dão”, a caruma e o aroma a pinhal, grande acidez e a Baga como casta prevalecente. Falou-se da transição para as castas Touriga Nacional, Jaen, Alfrocheiro e Tinta Roriz, que hoje pontificam nos melhores vinhos do Dão, e na evolução que se registou na vinificação, das adegas frias e escuras aos pavilhões, dos tonéis de madeira de grande resistência às cubas de inox, barricas e controlo de temperatura. Abordou-se igualmente o facto de, hoje em dia, haver muito menos mão de obra na vinha.
Após a prova, os enólogos concordaram que se registou uma grande desenvolvimento na região entre 1970 e 1993, sendo que no vinho mais recente todos encontraram vestígios de processos mais modernos.
“O vinho é como as pessoas, uns evoluem melhor que outros”, afirmou Paulo Nunes, que evocou a forma como se fazia o vinho antigamente e não enjeitou um regresso às origens, porque, no seu entender, “o Dão, hoje, da década de 2020, é muito mais próximo dos anos 70 do que dos anos 2010 ou 2000”.
O enólogo defende que “a forma mais sensata e mais inteligente de fazer é olhar para trás e perceber, acessar ao básico e começar a construir em cima daquilo que estava bem feito. Isso significa sabedoria, sapiência e inteligência, porque o Dão de hoje tem muito mais confiança em si mesmo”.
Sobre os vinhos, apontou que “dado o seu potencial, porque são grandiosos vinhos, de grande longevidade, fazem aumentar a nossa responsabilidade, aos enólogos da geração de hoje, é uma herança pesada”.
“O vinho do Dão é um caminho sem retorno”
Para Mafalda Perdigão, “o Dão é um caminho sem retorno”, admitindo que os consumidores até podem começar com os vinhos alentejanos, “por serem mais suaves”, mas depois “sobem para o Dão e vão descobrindo todas as suas gamas”.
A enóloga mais nova do quarteto entende que a qualidade dos vinhos é transversal. “Temos de ter muito respeito pelo que foi feito anteriormente e graças ao que provámos hoje, esse histórico dá-nos o conhecimento para replicar o que foi bem feito e evitar o que foi mal feito ao longo dos anos. Essa é a grande vantagem de nós termos uma história tão antiga e disponível, por isso, há que respeitar o nosso legado”, afirmou.
Sobre o futuro, realçou que “o meu desejo é estar sempre à altura e não estragar aquilo que a terra e as uvas nos dão”, acrescentando que gostaria de estar numa prova daqui a 30 anos e que os seus vinhos de hoje fossem pelo menos tão apreciados como os que provou ontem.
Por sua vez, Paulo Prior salientou que “a região tem de educar o consumidor para este tipo de vinhos”, adiantando que “nós, os agentes económicos, vamos ter de fazer este trabalho, sendo que, na Casa de Santar, já temos feito este trabalho”.
“O Dão tem o seu lugar no mercado e é uma região que tem tudo para dar certo, para almejar o seu lugar no futuro”, referiu, definindo os vinhos que provou como “esplêndidos”.
Por último, Sónia Martins sustentou que a região tem tido “um desenvolvimento crescente naquilo que é o seu maior potencial, o envelhecimento de vinhos, porque, na atualidade, os vinhos são feitos para consumo imediato, para o mercado, e não para guardar”.
A concluir, Manuel Pinheiro elencou alguns dos desafios do seu mandato, como o investimento na formação dos produtores, na renovação da viticultura, marketing e enoturismo.
“O Dão tem grandes vinhos, mas precisa de os comunicar melhor e nós queremos apostar na apresentação dos nossos vinhos, em feiras, apresentá-los à cidade e ao país. Apesar de exportarmos pouco mais de metade do nosso negócio, achamos que o Dão tem mais vocação para exportar e aí pode marcar posição. O objetivo do Dão não é crescer em quantidade, não é sermos uma região gigante, mas é sermos uma região que agrega o máximo de valor”, concluiu.









