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Teatro Viriato acolhe estreia da peça de Paula Diogo

‘Aurora (ou Livro)’ convida o público a atravessar uma experiência em palco onde ver deixa de ser o principal modo de perceber o mundo

A nova criação de Paula Diogo, ‘Aurora (ou Livro)’, estreia quinta-feira no Teatro Viriato, em Viseu. Uma performance que se faz parcialmente de olhos fechados e que convida o público a atravessar uma experiência em palco onde ver deixa de ser o principal modo de perceber o mundo.
Acho que quando pensei nesta ideia de ‘ler’ um espaço, estava a pensar em como a palavra se torna corpo, ou melhor, em como a palavra toma corpo no espaço e o ocupa. Também estava a pensar no tato que acompanha a vivência de mundo das pessoas cegas ou de baixa visão, que me interessava explorar na relação com os corpos e com o espaço”, afirma Paula Diogo.
Com esta criação, a artista procura “colocar o espetador num lugar de alguma liberdade e surpresa, numa relação em que a sua subjetividade tem lugar e é parte da construção do espetáculo”.

Neste trabalho, Paula Diogo convidou um grupo de artistas a criar um habitat para o corpo, que permita pensá-lo como uma matéria tátil e reativa

A peça estrutura-se como uma série de recomeços, entre tentativas de escrever, ler, falar, encontrar as palavras certas para comunicar, construir paisagens e partilhar memórias. Neste trabalho, Paula Diogo convidou um grupo de artistas a criar um habitat para o corpo, que permita pensá-lo como uma matéria tátil e reativa que, quando privada da visão, ativa outras formas de se relacionar com a realidade.
Às vezes o que aparece não é necessariamente aquilo que seria para se mostrar, ou aquilo que chamaria a nossa atenção. Uma das propostas que fazemos é que os espetadores abram e fechem os olhos, como um mecanismo de jogo. O que gostaríamos que acontecesse é que, a certa altura, ter os olhos abertos ou fechados deixasse de ser importante”, afirma.
"Aurora (ou Livro)” foi desenvolvido em fases de trabalho espaçadas e em residências com grupos de pessoas cegas e/ou de baixa visão. De acordo com Paula Diogo, durante o trabalho de pesquisa foram surgindo as paisagens que compõem o espetáculo, assim como a reflexão sobre realidades tão diferentes.

Sabemos que, quando somos privados da visão, somos obrigados a ativar os nossos outros sentidos

Sabemos que, quando somos privados da visão, somos obrigados a ativar os nossos outros sentidos. Isso coloca-nos num tempo e numa escuta muito diferentes do tempo do nosso dia-a-dia. O mesmo acontece quando vemos uma imagem desfocada e temos de apurar o olhar para perceber os seus contornos. Esse ato implica esforço, mas implica principalmente um tipo de atenção e de foco que me interessa. Pessoalmente, provavelmente pela velocidade dos dias e pela constante mediação de ecrãs, eu tenho cada vez mais dificuldade em colocar-me nesse lugar e, principalmente, tenho dificuldade em deixar-me tocar por uma visão de mundo que seja diferente da minha. O diálogo com uma realidade diversa, que percebe o mundo de outra forma, nem sempre é fácil e muitas vezes fragiliza a minha posição. Interessa-me a agitação que esses encontros provocam", refere.
‘Aurora (ou Livro)’ terá duas sessões: uma para estudantes do ensino secundário e superior e outros grupos organizados, quinta-feira, às 15h00, e outra para o público geral, na sexta-feira, às 21h00.

Março 17, 2026 . 16:38

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