
Com as cores se pintam lembranças afetos, sensações e até a imaginação
Apaixonada pelas cores, porque a vida pode ser um arco íris, Florentina Resende apresenta as “cores que atravessam lugares” em 26 quadros expostos na Pousada de Viseu. Uma paleta de cores que recortam fragmentos, muitos deles da natureza, e recordam, por exemplo, memórias de tempos trágicos como os últimos incêndios.
Fiel a estas cores vivas, quentes, que transmitem tranquilidade, Flor, como é carinhosamente conhecida - e só podia ser uma Flor - apaixonou-se pelos verdes de Viseu que passaram a integrar os seus trabalhos.
Um sonho adiado, mas nunca esquecido
A arte é a sua vida que começou há uns largos anos em Matosinhos onde nasceu. Ao Diário de Viseu recorda que só muito mais tarde pôde dar asas à sua criatividade e começar a pintar.
“Nasci num tempo em que as meninas não podiam ir para Belas Artes e se deviam dedicar aos bordados e ao crochet”, recorda Florentina Resende que, no entanto, nunca deixou de fazer os seus desenhos e pinturas, não em quadros, mas usando outros materiais. E muitas serão as amigas e os familiares que terão paninhos de mesa pintados por umas mãos que hoje estão representadas em diversas exposições privadas e públicas, nacionais e internacionais, premiadas dentro e fora do país.
Flor viveu grande parte da sua vida na cidade do Porto onde tinha o atelier e era constantemente convidada para fazer exposições individuais ou participar em coletivas. Há cerca de 15 anos veio para Viseu para acompanhar a filha e as netas e, tendo-se apaixonado pela tranquilidade da cidade, continua a desenvolver a arte que a apaixona. No entanto, admite que no Porto há mais espaços onde os artistas podem mostrar o seu trabalho, o que não acontece em Viseu onde se está mais limitado.
Esta mostra surge de um convite do anterior executivo da Freguesia de Viseu e que foi acarinhada pelo atual. “Tive um apoio extraordinário da junta de freguesia que não existe noutras cidade”, afirmou. E tudo porque para o presidente da junta de freguesia, “a obra de Florentina Resende revela sensibilidade, identidade e um profundo diálogo com o olhar contemporâneo, enriquecendo o património artísitico e cultural da freguesia”.
As pinturas evocam lugares
Quando perguntamos o que é que os visitantes podem encontrar nesta mostra, a artista explica: “trabalhos de pintura abstrata que segue a minha paleta de cores que foi enriquecida com os verdes de Viseu”. “A exposição propõe uma pausa, um atravessamento silencioso entre o sentir, o lembrar e o imaginar”, explica.
As “Cores que atravessam lugares” apresenta obras abstratas que nascem da memória, da imaginação e da experiência. Como sublinha, “as pinturas não representam espaços concretos, mas evocam lugares da alma, construídos a partir de lembranças, afetos e sensações”.
“As cores atuam como passagem, atravessando tempos e lugares vividos ou inventados, convidando o olhar a percorrer esses espaços abertos”, adianta.
Desconstruir o que vemos
Recordando os tempos iniciais em que a sua pintura era figurativa, Florentina Resende explicou que as mudanças ou a desconstrução do figurativo teve a ver com a vontade de “oferecer as pessoas algo de diferente e que lhes lembre algo das suas memórias”.
“A realidade está à frente dos nossos olhos e não precisamos de a repetir. Não precisamos de pintar a guerra e as tragédias porque as vemos todos os dias na televisão e nos jornais”, sublinha, explicando que também por isso, “adora as transparencias, o branco para que as pessoas idealizem coisas para aqueles espaços”.
E lembra uma exposição que fez sobre a cidade do Porto que pintou como nunca ninguém a havia pintado com as suas cores vivas cheias de emoção, alegria e esperança. Afinal, como diz, de tristezas estão as pessoas cansadas. Opções que a fazem sair do “normalmente aceite”. E a prova, por exemplo, está também na sua ‘aversão’ a temas para trabalhar.
E recorda, por exemplo, a bienal em Arcos de Valdevez onde participa há muitos anos, cujo tema era a guerra e paz, tendo Florentina Resende escolhido a paz ou não tenha esta mais brancos, mais cores, mais transparências. E quem a convida já sabe que o trabalho será, necessariamente, diferente, num convite às pessoas para que se libertem dos horrores que diariamente veem e que não esquecem, e “por momentos se deixem absorver pela beleza, pela paz, pela harmonia”.
“Não quero com isto mostrar um mundo que não existe. Quero oferecer um equilíbrio e levar as pessoas a olhar o mundo com olhos mais bonitos e dar-lhes bem-estar”, diz.
Levar a cultura a todo o lado
Quando não está a pintar o que é que faz? Sorri com sorriso de menina travessa e responde: “estou sempre a pintar”. E por isso já não há espaço em casa para guardar tanto trabalho. O que a leva a ponderar tornar estas “Cores que atravessam lugares” numa exposição itinerante. Uma forma de promover o seu trabalho e levar a cultura a terras e as espaços onde ela não vai.







