
“Fendra” reflete resiliência através de narrativas visuais
A FNAC Viseu acolheu, na sexta-feira, o lançamento do livro “Fendra”, uma obra que resulta da Oficina de Movimento e Expressão Plástica, desenvolvida ao longo dos últimos meses no âmbito do CLDS 5G Viseu Plural: Itinerários Inclusivos, promovido pelo Município de Viseu e coordenado pelas Obras Sociais de Viseu, em parceria com a Casa do Povo de Abraveses e Freguesia de Abraveses.
O livro reúne expressões visuais de participantes cujas vidas foram marcadas por relações íntimas violentas. Sem recorrer ao termo "violência doméstica", propõe um olhar sensível sobre a reconstrução pela arte, valorizando o silêncio, o gesto e a cor como formas de expressão e resiliência. O projeto assume uma abordagem inovadora: a de que certas palavras cristalizam o que deve permanecer em movimento. A obra propõe, assim, um espaço de criação onde cada pessoa pôde expressar-se sem vitimização, sem rótulos e sem imposições narrativas.
Na sessão de lançamento estiveram presentes o presidente da Casa do Povo de Abraveses, José Francisco Murtinheira, o presidente das Obras Sociais de Viseu, José Carreira, Carla Pinto Feio (ilustradora) e Romulus Neagu (bailarino, coreógrafo e técnico CLDS 5G Viseu), os mentores do projeto, Vera Carvalho, psicóloga e técnica da Casa Abrigo, e Gustavo Levy, técnico CLDS 5G.
O evento contou ainda com um debate sobre as temáticas preconizadas na obra, moderado por Graça Matos, do Centro Distrital da Segurança Social. Nele participaram Vera Carvalho, Dinis Saraiva, diretor do Agrupamento de Escolas Infante D. Henrique, Hugo Gonçalves, comissário da Polícia de Segurança Pública de Viseu, e Etelvina Alves e Natércia Oliveira, da Unidade de Cuidados de Saúde Primários.
A Oficina de Movimento e Expressão Plástica, que teve como mentores Carla Pinto Feio e Romulus Neagu, partiu do mote "E se cada vida tivesse uma única cor, o que revelaria ela no papel?".
Cada participante ajudou a construir uma linguagem comum através da expressão artística, em trabalhos de desenho, pintura e movimento.
“O projeto tornou-se, ao longo do processo, um espaço de criação e reconstrução pessoal para participantes vítimas de violência doméstica, onde a arte e a expressão corporal abriram caminho para narrativas visuais que refletem resiliência, identidade e transformação”, salientou José Carreira.
O presidente das Obras Sociais de Viseu referiu que “durante o projeto, não foram recolhidos relatos individuais nem exploradas histórias pessoais de forma direta. Cada participante partilhou apenas aquilo que, no seu tempo e na sua medida, sentiu poder oferecer — um gesto, uma cor, um traço, um silêncio. O grupo evoluiu de forma orgânica: pessoas entraram, outras saíram, algumas mantiveram-se em espera. E, nesse fluxo, emergiu a consciência de que cada voz era parte essencial do processo criativo”.
Para José Carreira, “as páginas do livro refletem esta diversidade e profundidade: pequenos fragmentos visuais surgidos em momentos de espera, saudade ou incerteza. Neles, vê-se a força de quem insiste em manter viva a esperança. É dessa resistência que nasce a verdade e a beleza do projeto”.
“Para muitos, este percurso revelou-se simultaneamente descoberta e desafio. A desvalorização pessoal, frequentemente deixada por ciclos de abuso, tornou a criação num ato de coragem. Criar significou resistir, reconstruir e reivindicar espaço”, concluiu.
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