
São falsas as acusações contra a jornalista guineense que defende o uso do ‘hijab’

Avaliação Lusa Verifica: Falso
É falso que a jornalista guineense Djelma Fati, que é muçulmana, tenha partilhado fotos suas nas redes sociais nas quais não está a usar o ‘hijab’.
As fotografias que estão a circular são de outra cidadã guineense que tem o mesmo nome, é católica e também vive em Portugal, e que lamenta a utilização não autorizada da sua imagem para fazer desinformação.
Alegação: "jornalista guineense é “hipócrita”, “impostora” e “mentirosa” porque defende o véu islâmico mas publicou várias fotografias sem esse adereço muçulmano"
Desde domingo, 19, circulam dezenas de publicações nas redes sociais sobre a alegada hipocrisia da jornalista guineense Djelma Fati, após esta ter dado uma entrevista à SIC Notícias, na sexta-feira, sobre a importância do véu islâmico, nomeadamente do ‘hijab’: https://archive.ph/yUT2a.
“Está explicado porque a rapariga não fazia ideia das diferenças entre os vários trajes.
A única dúvida é: quanto lhe pagaram para ir ali dizer que, se fosse proibido, ia embora de Portugal?”, questiona uma conta, enquanto outra aproveita a mesma imagem para dizer que “bastava a SIC ter feito o trabalho de casa para não dar palco a gentinha destas.”
O tom é quase sempre o mesmo, com críticas à jornalista e à SIC: “tudo orquestrado, tudo combinado, tudo FALSO com o objetivo de enganar as pessoas! As televisões são um veículo de propaganda do sistema, mente, cria ódio, divisão. Somente os mais "incapazes" se deixam enganar!! Os OCS são apanhados a mentir e nada lhes acontece há muito tempo!! (https://archive.ph/gc1GP e mais exemplos: https://archive.ph/8G8nQ, https://archive.ph/3sMGO, https://archive.ph/AjO3p, https://archive.ph/POzkt).
“A gaja na foto da direita de cabelo descoberto, é a mesma que foi à TV ameaçar que terá de ir para outro país, se a lei da proibição de usar a cara tapada passar. De ridícula passou a impostora”, diz outra conta na rede social X.
Em comum, estas publicações apresentam várias fotografias alegadamente da mesma Djelma Fati nas quais não usa o ‘hijab’ nem outras vestes islâmicas que, como defende, garantam a modéstia e a castidade. Aliás, em algumas até surge de vestido vermelho decotado, o que levou algumas contas a tecer outro tipo de comentários injuriosos (https://archive.ph/NXlj2).
A história também teve destaque nas contas do ex-juiz Rui Fonseca e Castro (https://archive.ph/Voscw), de Luc Mombito, amigo e conselheiro de André Ventura (https://archive.ph/UTIol) e de Pedro dos Santos Frazão, vice-presidente do Chega, que no X questionou se as fotos eram realmente da Djelma Fati que esteve na SIC (https://archive.ph/suDdD) e no Facebook acrescentou que “o povo português merece respeito, não ser manipulado com histórias montadas para atacar quem defende a lei e a segurança do nosso país!” (https://archive.ph/ucZ8L).
Factos: As fotos que circulam nas redes são de outra pessoa com o mesmo nome
Uma simples análise às contas em nome de Djelma Fati e às fotos que estão a ser partilhadas em redes sociais como o X e o Facebook revela que não se trata da mesma pessoa, mas sim de outra cidadã guineense com o mesmo nome.
A jornalista guineense utiliza o nome completo Djelma Binto Sidigo Fati nas contas que tem no Facebook (https://archive.ph/L1xJQ) e no Instagram (https://archive.ph/fG2ol), onde não constam quaisquer das fotografias que estão a circular nas redes.
Essas fotos foram copiadas abusivamente das contas de Djelma Fati, outra cidadã guineense sem qualquer relação com a jornalista ou com a polémica.
A Lusa Verifica localizou pelo menos 8 contas no Facebook, criadas entre 2018 e 2024, e uma conta no Instagram, de onde foram copiadas as fotos, mas optou por não divulgar a maioria dos links (https://archive.ph/AUX34 e https://archive.ph/r39bb).
Após contacto com uma dessas contas mais recentes foi possível chegar à fala com Djelma Fati, de 26 anos, a mulher que surge nas fotos e que imediatamente desmentiu ser a jornalista.
“Não sou eu, nem conheço a outra Djelma” disse à Lusa numa curta conversa dificultada pelo choro constante devido ao stress provocado pela situação.
“Não sei o que se passa. Vimos esta manhã e estamos muito transtornados. Vê-se claramente que não somos a mesma pessoa, nem sequer temos a mesma idade”, desabafou ao final da manhã, pouco tempo após ter visto a publicação do deputado Pedro Frazão.
A essa hora, o marido, António Mendes, de 33, desdobrava-se a enviar mensagens de esclarecimento para as contas que ia identificando no Facebook. “Também já enviei uma mensagem ao deputado, mas ainda não respondeu. Isto é muito feito. Devia ver bem o que publica nas redes”, diz o guineense que vive em Portugal há quatro anos, mais dois do que a mulher.
O casal, que é católico, revelou à Lusa Verifica que eles e a família estão muito incomodados com a utilização abusiva da imagem da mulher apenas para gerar desinformação.
Ao início da tarde, após ser contactado pela Lusa, o deputado Pedro Frazão agradeceu “o trabalho de resposta às perguntas” que fez nas redes sociais e informou que iria “apagar as publicações com as perguntas sobre se seria a mesma pessoa.” Pouco depois surgiu uma nova publicação a assumir o erro (https://archive.ph/kqnWO).
“Foi-me dito que as fotografias em causa no post anterior, sobre as imagens da Djelma Fati, que disse “ter de abandonar Portugal”, não eram da mesma pessoa, pelo que agradeço o esclarecimento e retirei o post anterior.
O compromisso com a verdade está sempre acima de tudo.”
A Lusa Verifica também tentou contactar a jornalista Djelma Fati, mas ainda não obteve resposta.









