
Empresa aposta em projeto de produção e abastecimento de hidrogénio
Com uma frota de 300 veículos, a empresa viseense JLS - Transportes Internacionais apresentou ontem um projeto que visa a descarbonização total da sua frota em sete anos e uma transição energética mais sustentável a nível ambiental. Com um investimento de 30 milhões de euros, avançou para a produção e abastecimento de hidrogénio, apostando na construção do primeiro posto do país vocacionado para a mobilidade e indústria.
“Fomos um dos 37 projetos aprovados no âmbito de uma ‘call’ de hidrogénio e fomos o único projeto na área dos transportes que cobria a cadeia de valor completa. Propusemo-nos a produzir energia verde, hidrogénio, a comercialização e até o consumo. Isto resolve dois problemas que a Comissão Europeia apontou como problemáticos: a transição energética e a descarbonização do setor dos transportes, e este projeto vai responder a essas duas questões”, começou por referir Nelson Sousa, administrador da empresa.
Revelando que o projeto tem vindo a ser trabalhado ao longo dos últimos anos, o responsável explicou que a obra irá nascer em Mangualde, em dez hectares situados entre a A25 e a Stellantis, numa localização estratégica que poderá permitir a criação de uma sinergia industrial. No futuro, poderá abastecer esta empresa, com a introdução do hidrogénio para substituir o gás das estufas de pintura. Ao mesmo tempo, poderá ser um catalisador para a Stellantis começar a fabricar viaturas a hidrogénio, conforme vaticinou o administrador, garantindo, dessa forma, a sua permanência e futuro em Mangualde.
“Uma opção natural”
Daí que a opção pelo concelho mangualdense tenha sido “natural”, por ser “um projeto virado para a mobilidade e indústria e quando a Stellantis concorrer à produção de novos veículos, o facto de ter um produtor de hidrogénio ao lado pode ser um catalisador para atrair produção de veículos a hidrogénio”, salientou.
A empresa está sediada em Fragosela de Baixo, ao lado da A25, um local estratégico do corredor atlântico da rede transeuropeia de transportes.
“Temos diariamente 12 mil viaturas na A25, cerca de 2420 camiões a atravessar a fronteira todos os dias e no distrito de Viseu existem mais de 7500 camiões, portanto este projeto tem muito potencial neste território, uma vez que está previsto um posto de hidrogénio a cada 200 km. Estamos a falar de um projeto de 15 megawatts e de uma capacidade de produção de 6.500 kg por dia de hidrogénio, abrangendo a produção de energia, a eletrólise, estucagem, abastecimento, abastecimentos rápidos e o consumo nos veículos de hidrogénio”, asseverou.
A obra já começou no terreno e tem conclusão prevista para junho de 2026, no sentido de aproveitar o PRR - Plano de Recuperação e Resiliência, cujo financiamento neste projeto foi inferior a 25%.
Nelson Sousa adiantou que serão criados postos de trabalho de técnicos muito qualificados, “que não existem para já na oferta local e terão de ser técnicos que fazem assistência a nível nacional”. Todavia, “teremos alguma mão de obra local, mas o que nos preocupa é a mão de obra especializada e técnica que o projeto exige. Nós estamos a pensar externalizar a manutenção dos equipamentos, por uma questão de especialização e de segurança”, sustentou.
Na sua opinião, o hidrogénio é a única alternativa de futuro para os veículos pesados.
“O mercado tem dado sinais de que a solução de mobilidade, sobretudo em viaturas pesadas, não terá alternativa a não ser o hidrogénio. A mobilidade elétrica nas viaturas pesadas não é viável, atendendo à autonomia e sobretudo ao peso das baterias, e o mercado está a responder, sobretudo a indústria automóvel, apostando nos veículos de hidrogénio com células de combustível e agora mais recentemente nos motores de combustão direta de hidrogénio. Havendo um motor de combustão direta de hidrogénio, irá democratizar de forma muito mais rápida o processo, porque hoje um camião elétrico custa três vezes mais do que um convencional”, afirmou.
O projeto mais ambicioso de sempre da empresa
A JLS faz parte da Associação Portuguesa para a Promoção do Hidrogénio, já há alguns anos, e integra ainda a European Clean Hydrogen Alliance. Numa primeira fase, prevê um investimento de 10 veículos Classe 8, assumindo o objetivo de “descarbonizar por completo em sete anos”.
Considerando este o “projeto mais ambicioso de sempre da JLS”, Nelson Sousa lamentou, todavia, as dificuldades que têm surgido devido à falta de legislação para este novo segmento.
“Nesta altura, o nosso posto está a ser equiparado pelas entidades como um posto de abastecimento de combustível fóssil, quando não é. Já foi feita a declaração pública várias vezes, de que a legislação ia ser revista, que os projetos de hidrogénio iam ter uma via verde para os licenciamentos e implementação, mas falta exatamente legislação”, acrescentou.
Nelson Sousa elogiou igualmente o papel do Município de Mangualde durante o processo, considerando que foi “fundamental”.
“Temos de enaltecer o papel do executivo na criação de todo este ecossistema, porque sempre manifestou o seu apoio e, para além de ter um cluster de transportes, está a fazer um excelente trabalho na criação de um ecossistema à volta das energias alternativas no concelho. Colocou-nos também em contacto com várias empresas do concelho, o que facilitou todo este processo”, concluiu o administrador da JLS.
Presente na apresentação, Marco Almeida, presidente do Município de Mangualde, destacou a importância deste investimento para o território.
“É um passo decisivo para o concelho no âmbito da transição energética que nos coloca na linha da frente ao nível da sustentabilidade, das boas práticas ambientais, e que tem um impacto muito importante para o desenvolvimento económico do concelho e da região. Este investimento é um voto de confiança no concelho de Mangualde, estamos a falar de uma das maiores empresas de transportes de toda a região centro do país e investir no nosso concelho”, enfatizou.









