
A carqueja juntou-se ao linho para reavivar as tradições de Várzea de Calde
“Oh ribeira, ribeira, ribeirinha. Já não volto à ribeira, ai Jesus, que pena a minha. Já não volto à ribeira, ai Jesus, que pena a minha que lá faz tanto calor”. Cantava o Grupo Etnográfico e Folclórico de Várzea de Calde, quando os primeiros participantes da caminhada da carqueja iam chegando ao Largo de São Francisco. Nos entretantos, olhámos em redor: uma capela cuidadosamente adornada com ramos de carqueja, quer no chão, quer nas portas e janelas.
E ali, junto à entrada, estava também o ciclo do linho de Várzea de Calde, desde o semear até ao maçar. São duas das tradições da localidade que importam agora conservar e reavivar aos olhos dos mais pequenos até porque “somos carquejeiros e queremos mostrar a origem desse nome”, disse-nos Hermenegildo Gonçalves, um dos responsáveis pela organização do evento.
E dessa planta que preenche os campos da aldeia, “podemos fazer muita coisa”. Pode servir de decoração, mas também de combustível para os fornos. Consegue assumir forma de vassoura, mas é igualmente servida num bom arroz de carqueja. “É uma erva que tem várias valências e é muito abundante aqui em Várzea e, por isso, esta festa é também uma demonstração para os mais novos daquilo que os nossos antepassados faziam”, explicou, destacando “um legado que deve ser conservado”.
Recordam-se, assim, alguns saberes e sabores da aldeia. Na altura, “as pessoas da aldeia utilizavam a carqueja para estonar o porco, por exemplo, não era com palha, nem com um maçarico”, recordou, acrescentando que “na altura da Páscoa, era ainda utilizada nas entradas das casas”. Entre tantos motivos para celebrar esta planta, “fez sentido fazermos, pela primeira vez, a Festa da Carqueja”.
Do programa, Hermenegildo Gonçalves destacou “um percurso pedestre feito de propósito para as pessoas observarem a carqueja já florida, muito florida ou já um pouco mais seca”, onde também avançou a participação de cerca de 200 pessoas na caminhada.
Também Mónica Maurício, outro membro da organização do evento, relembrou a carqueja como “uma forma de sustento da aldeia”. “Várzea sempre teve essa tradição de utilizar a carqueja e foi um desafio para fazermos a festa”, assinalou.
Já o presidente do Instituto Politécnico de Viseu (IPV), “a nossa maior força”, disse Francisco Vaz Ferreira, também da organização, destacou a importância da aldeia “ser capaz de criar oportunidades de melhoria da identidade da própria terra”.
Segundo José Costa, que diz ser carquejeiro, “se olharmos para o histórico da carqueja em Várzea de Calde, tem dezenas de anos e, a par do linho, é importante para a afirmação da aldeia no contexto das aldeias de Portugal”.
E, por isso, o presidente do IPV disse ainda que “quem esteve envolvido fez um trabalho extraordinário e de uma envolvência total em decorar o largo, em fazer o licor, o chá, o arroz de carqueja, foi marcante e nunca se fez”. Resta esperar agora por uma próxima edição de uma planta que faz parte “da nossa identidade”.







