
“Avancei porque sei da minha capacidade para responder às necessidades do cargo”
A transição de presidente de junta de freguesia para presidente de câmara foi, no seu entender, natural?
Foi uma transição natural, mas não planeada. Não foi a primeira vez que o meu partido me lançou o desafio de avançar como candidata à câmara, já o tinha feito anteriormente, mas entendi que ainda não tinha as condições reunidas para abraçar esse desafio. E entendi que deveria começar por autarca de freguesia, porque para mim ser autarca é sinónimo de proximidade. Creio que cumpri o desígnio e fui capaz de corresponder ao que os eleitores querem de um presidente de junta de freguesia. Naturalmente o trabalho foi sendo acompanhado e esse desafio voltou a ser colocado. Já com essas bases e percebendo as dificuldades do território e da população, achei que estava preparada, obviamente depois de me munir de uma equipa capaz, não aceitei sem antes saber se as pessoas que eu queria comigo aceitavam esse desafio comigo. Felizmente correu bem e avancei, porque sabia que tinha essa capacidade para responder às necessidades do cargo.
Ganhou as eleições por 212 votos, com o mesmo número de vereadores que o PS. Como tem sido gerir o executivo nestas condições?
Obriga-nos a um trabalho menos demagógico e mais sério. Nós temos que prestar satisfações e aqui trabalha-se sobretudo com a verdade e envolvem-se todos os elementos do executivo. Obriga-se a essa participação, até porque é extremamente importante que os vereadores da oposição tenham a noção da realidade do concelho. Todos nós, quando nos apresentamos a eleições, vamos com imensos sonhos e projetos, com um programa ambicioso para promover o verdadeiro desenvolvimento da terra, mas quando assumimos funções, percebemos que a realidade não se adapta tão facilmente aos nossos sonhos. Tudo acontece mais devagar, a máquina pode não estar oleada para acompanhar o ritmo que nós achamos que tem de ser imposto para que as coisas aconteçam mais rapidamente. E o que procuramos é isso, trazer essa reorganização aos serviços, para dar resposta mais imediata às necessidades das pessoas. É fácil os vereadores absterem-se ou votarem contra para continuarem na sua posição de conforto, mas quem quiser verdadeiramente trabalhar, ajudar a esse crescimento e à mudança tem necessariamente de se envolver. Uma responsabilidade futura que assumimos com eles foi na realização do próximo orçamento, que começa já depois da prestação de contas em abril. Portanto, envolver, falar verdade e ouvi-los, esta terá de ser a fórmula. Não há maiorias absolutas, não há ninguém que possa fazer só o que quer. Há a necessidade de interagir, de nos ouvirmos todos e de procurarmos a melhor solução.
Vê, portanto, o seu executivo como uma equipa?
Sim, nunca trabalhei de outra forma. Enquanto autarca na Assembleia Municipal, entre 2009 e 2013, foi como equipa que trabalhámos. Como presidente de junta, onde trabalhei com todos aqueles que quiseram colaborar, envolvendo muita a comunidade. E agora, não só com a minha equipa, mas com os que fazem parte também do executivo atual.

Se eu não tivesse espírito crítico não assumiria funções. Nos últimos 12 anos, houve pouco mais do que lamentos
Em janeiro, referiu que tinha encontrado “algumas surpresas” que colocariam “desafios adicionais” à gestão do município. Como encontrou a câmara a nível de saúde financeira?
Sim, se eu não tivesse espírito crítico não estava aqui, não assumiria as funções. Acho que é importante que consigamos olhar para o território, para as opções, e dizermos concordo ou não concordo. Fui crítica da gestão anterior porque foram 12 anos em que houve pouco mais do que lamentos. Quando nós nos propomos a eleições, queremos fazer melhor, trazer soluções, mas depois, na prática, podemos demorar um bocadinho mais porque a realidade obriga-nos a prazos e burocracia e não conseguirmos ser tão rápidos. Não fui eleita para andar aqui quatro anos a lamentar-me com o que herdei, tenho que olhar para os problemas e avançar, estabelecer o caminho que quero percorrer. Quando nos propusemos, tínhamos conhecimento que a situação financeira da câmara era uma situação débil porque somos um concelho que gera pouca receita, em que os fundos são muito limitados, porque temos um território pequeno e os critérios de atribuição dos fundos são limitativos. É óbvio que conhecíamos essa situação débil, de equilíbrio permanente, quase diário, de fazer esta escolha em detrimento daquela porque o orçamento não permite. Outra coisa é entrarmos aqui e 3, 4 dias depois da tomada de posse, porque somos um concelho que está obrigado a isso, o cálculo dos fundos disponíveis dar-nos a negativo num valor de quase 800 mil euros. Ora, isto foi um choque, porque este cálculo era feito com base numa fórmula que para nós não é a que a lei impõe que seja respeitada, 6 meses de receita por 6 meses de despesa. Mas não, a fórmula aplicada era 6 meses de receita por 3 meses de despesa. Assim, o cálculo dava positivo, inclusive existem documentos nesta casa que o comprovam que quando eles eram calculados e davam a negativo, era dada a ordem para se aplicar a fórmula 6 por 3. Isto foi um choque e ninguém pode dizer que sabíamos, nem nós, nem outro partido que se apresentou a eleições, ninguém sabia desta realidade, que não é espelhada nos documentos oficiais. O que o nosso vereador das Finanças entende, que é auditor financeiro, é que a fórmula correta a aplicar é a de 6 por 6. Questionámos, inclusive, o elemento do PS que está connosco na câmara, que foi vice-presidente, e a própria disse-nos que isto estava autorizado pela DGAL. Não encontrámos qualquer autorização dada pela DGAL para a aplicação desta fórmula, e, portanto, limitamo-nos a aplicar a fórmula correta.
Esta situação prejudicou os primeiros meses de gestão?
Se em novembro tivemos fundos disponíveis a negativo de 800 mil euros, em dezembro já desceram para 300 mil, em janeiro desceram para cento e poucos mil, em fevereiro conseguimos ter fundos disponíveis a positivo. Mas porque em três meses de mandato fizemos 30 mil euros de compromissos, que é nada, que representa nada para a gestão do município. Mas, para sermos um executivo de contas certas, como o anterior dizia que era, nós precisamos de fazer este exercício de rigor, pois só assim conseguimos planear para o futuro. Se nós andarmos aqui a fazer o que foi feito nestes últimos anos, não voltamos ao caminho certo. Por isso, eu entendo a crítica de quem está agora na oposição de que o orçamento apresentado foi um orçamento pouco ambicioso, foi, mas em resultado dessa situação. E foi um orçamento muito bem trabalhado, no sentido de cortarmos tudo aquilo que podíamos cortar, mas os compromissos assumidos anteriormente e que passam para o exercício de 2026 não nos permitem outro tipo de orçamento. É claramente limitativo, mas é a nossa realidade. Quando o concelho já tinha capacidade para começar a investir naquilo que traz rentabilidade e retorno ao concelho, isso não foi feito, e não foi feito durante os últimos 8 anos de mandato, e claro que hoje temos que gerir toda essa realidade, que é a realidade que herdámos.

Quero envolver todos os vereadores, há a necessidade de interagir, de nos ouvirmos todos e de procurarmos a melhor solução
Quais são os projetos âncora para o corrente mandato?
Os projetos passam sobretudo pelo investimento nas nossas zonas industriais, essa é a nossa grande preocupação, ajudar os nossos empresários, sem lançamento de derrama, que não é cobrada, porque aquilo que se pretende não é só atrair, é também dar condições aos que cá estão para diminuir o sacrifício, porque quem se instala num concelho do interior acaba por ter uma capacidade de resiliência maior. Vamos adquirir os terrenos para alargamento de uma das nossas zonas industriais, que fica exatamente ao lado do IP3, que em breve será requalificado para um troço de autoestrada, já temos equipas no terreno, vamos iniciar esse trabalho, sendo certo que no nosso orçamento a verba alocada não é a verba que gostaríamos de ter disponível, mas é um dos poucos cunhos que podemos imprimir neste orçamento. Existem algumas dificuldades a nível de definição de lotes, de falta de infraestruturação, porque dentro do município também não existe o verdadeiro gabinete do investimento que queremos promover, e portanto essa é a área nevrálgica. Mas sabemos que Santa Comba Dão nunca teve essa vocação, mas, não obstante, temos recebido contactos para a instalação de indústria no concelho, portanto há que criar as condições. E o IP3, depois de requalificado, será muito positivo para o território. Portanto, passa por aí, em primeiro lugar, procurarmos atrair investimento, capacitarmos o nosso gabinete do investidor de modo a estar preparado para dar resposta a quem nos procura para investir e criar condições nas nossas áreas de acolhimento empresarial. A proteção civil é outro eixo prioritário, trabalhar na prevenção, continuar a apostar em programas como Condomínios de Aldeia, Aldeia Segura, a gestão das faixas secundárias de combustível, tudo isto é fundamental. Já foi feita a candidatura para a terceira EIP, em conjunto com a Câmara Municipal e a Associação dos Bombeiros Voluntários e, portanto, é também um projeto âncora.
Como tenciona desenvolver o concelho a nível turístico?
É preciso criarmos aqui o produto Santa Comba Dão, pensando estruturalmente o que queremos para o território em termos turísticos, como oferta para quem nos visita. Já temos alojamento local, foi feita a apresentação, há cerca de duas semanas, de um projeto para um hotel em Santa Comba Dão, em São João de Areias, num investimento superior a 2 milhões de euros, e, portanto, a esse nível a resposta já existe. O que não existe é uma resposta por grupos grandes.
Em termos de produto, nós temos o CIEN - Centro Interpretativo do Estado Novo, um projeto polémico, que deve ser tratado sempre com pinças, tendo em conta as sensibilidades existentes, em que, em articulação com a Ephemera, que está a conduzir o processo, vamos criar um projeto estruturante, garantindo que nunca será de adoração ao ditador. Mas também não podemos fugir desta realidade e deste facto. António de Oliveira Salazar é natural de Vimieiro, é natural daqui e se há um concelho que tem o direito de reivindicar um projeto desta natureza é Santa Comba Dão e nós temos de nos afirmar nesse sentido. Há décadas que estamos a tentar implementar um projeto que seria importante para o concelho, assim como a Casa do Passal em Carregal do Sal, porque Salazar é uma marca do concelho, é um conterrâneo que marcou um período longo da história de Portugal e, portanto, nós não conseguimos fugir a isso. Mas também não queremos construir ali um lugar de culto, não é esse o propósito.
Ainda no turismo, não podia deixar de citar a nossa Ecopista do Dão, na qual já foram instalados contadores que nos permitirá também perceber a frequência da mesma. Ela é, sem dúvida, um ponto de atração e agora com a Linha da Beira Alta aberta novamente temos ali a porta de entrada, uma saída do IP3 que nos permite aceder diretamente ao Vimieiro e à ferrovia. Portanto, Santa Comba Dão situa-se no centro de todo o centro, com ótimas infraestruturas de acesso e a nossa Ecopista do Dão, onde foram investidos alguns milhares de euros, ainda no ano passado, no que diz respeito à sua manutenção, queremos potenciar esse grande projeto que nasceu no primeiro mandato do eng. João Lourenço e que é estruturante em termos de turismo para o concelho de Santa Comba Dão.

Salazar é natural daqui e se há um concelho que tem o direito de reivindicar um projeto como o CIEN - Centro Interpretativo do Estado Novo - é Santa Comba Dão
Já existe previsão de abertura do CIEN?
Ainda não há previsão de abertura, porque ainda não conseguimos falar com a pessoa a quem foi dada a direção do projeto, o dr. Pacheco Pereira. Portanto, não sabemos se será suficiente a parceria com a Ephemera ou se é necessário juntar outro parceiro. O arquivo é muito importante, porque existem muitos documentos que podem ser consultados, visitados, difundidos, mas também a parte expositiva, de maneira a termos aquele espaço aberto ao público. Portanto, em termos de projetos turísticos estruturantes, temos o CIEN e a Senhora da Ribeira. Claro que tudo faz parte, os passadiços, a recuperação do património, o nosso Parque Verde, tudo isso também será incluído, até porque é todo um conjunto de infraestruturas já existentes e que precisa da sua manutenção e fará parte desse conjunto. Mas, estruturante, neste momento parece-nos que o CIEN e a Senhora da Ribeira são a aposta nestes próximos três anos e meio.
Em termos de eventos, o que tem a câmara em carteira para este ano?
As festas da cidade são o grande evento. E relativamente a elas muito haveria para falar. Há aqui situações muito sérias relativamente às festas da cidade e erros que não podem ser cometidos novamente. Além das festas, queremos também dar destaque a um momento importante, e que deve ser importante para todos nós, que é o 25 de Abril, tornar o 25 de Abril um dia de comemoração oficial com o envolvimento das nossas filarmónicas, com uma programação própria para aquele dia. Depois, o nosso movimento associativo tem durante todo o ano imensas festividades e dinamismo, que permitem e garantem que as nossas tradições e a nossa cultura continuem a ser divulgadas e honradas.
O seu projeto autárquico foi pensado e estruturado para três mandatos?
O projeto é estruturado para 12 anos, mas os nossos eleitores têm alguma dificuldade em perceber que um programa é apresentado a longo prazo, que nada acontece de um dia para o outro. A situação de Santa Comba Dão não é de hoje, nem foi herdada só por mim, o meu antecessor também herdou uma situação difícil e o antecessor do meu antecessor também. Vivemos tempos muito diferentes em que já não há tanto dinheiro disponível para a criação de infraestruturas como há 20/30 30 anos. Mas é claro que o programa foi estruturado para 12 anos, mas vamos viver cada mandato como se fosse único, trabalhar para que essa continuidade seja possível, porque entendemos que o nosso projeto é bom para Santa Comba Dão e permitirá o desenvolvimento estruturante, sustentado e consolidado para o futuro do concelho e não um desenvolvimento efémero.
Sendo assim, que marca distintiva quer deixar dos seus mandatos?
Acima de tudo, de organização. Detesto o caos e encontrei o caos instalado nos serviços. “Caos” pode ser uma palavra muito forte, mas a transição de pastas não foi uma transição que eu considere justa, que nos permitisse começar a trabalhar logo no dia seguinte. Ainda hoje buscamos o fio à meada de muitos dos projetos que estão ou deviam estar em curso porque ninguém deixou pastas, ninguém passou informação e os funcionários não sabem também, porque nunca foram envolvidos nos mesmos. Centrou-se tudo muito no executivo, provavelmente, e não se permitiu que hoje os serviços estivessem a funcionar, pelo menos em velocidade de cruzeiro, naquilo que lhes diz respeito. Nestes primeiros 4 meses ainda continuamos em busca de muitas respostas.
Com organização, quero um concelho que saiba para onde quer ir, qual o caminho que quer seguir, e que o meu sucessor consiga, dentro daquilo que são as suas opções, pelo menos saber trilhar e, no tempo certo, fazer as opções próprias.

Quero deixar uma marca de organização de um concelho que saiba para onde quer ir e que caminho quer fazer
Inês Matos tem uma visão estratégica do que pretende executar no atual mandato autárquico.
“Quero organizar, trazer projetos estruturantes ao concelho, para que possamos crescer de forma sustentada e atrair pessoas para o nosso território, o que passa também por uma política de habitação muito importante. Santa Comba Dão ainda não sente a pressão do imobiliário, mas há muitas pessoas que procuram o território para viver, porque tem qualidade de vida, é central, está muito perto de Viseu e de Coimbra, e nós não temos nada contra que, numa primeira fase, sejamos um dormitório. Mais do que construir, é preciso construir com base nas nossas necessidades, habitação acessível é fundamental, até porque nos permitirá depois gerir os nossos bairros de habitação social de uma forma muito mais verdadeira. Temos de crescer em termos populacionais, porque um território sem gente não cresce, não se desenvolve, não é dinâmico, estagna completamente. Fixar os nossos jovens, para eles terem resposta para a sua formação, fazermos esse trabalho também de ligação do nosso ensino profissional que se desenvolve hoje na escola secundária com as nossas necessidades de mercado, fixá-los, sermos um concelho atrativo para isso e, claro, a indústria e os serviços, que são cada vez são mais importantes. Santa Comba Dão quer-se nas “bocas do mundo” por esses motivos, porque consegue atrair pessoas, oferece qualidade de vida, tem uma oferta cultural diversificada, como a que temos hoje na Casa da Cultura, com uma programação constante e de muita qualidade, com boas vias de comunicação. Vamos trazer o ensino superior para cá, para permitir que os nossos quadros existentes tenham formação superior sem saírem do nosso território, que complemente a sua formação, e porque consegue ter uma resposta organizada em termos turísticos. As pessoas sabem o que vêm encontrar no território, onde podem encontrar as infraestruturas adequadas para servir e receber bem. É por estes motivos que queremos ser falados e não porque em cada reunião de câmara e em cada assembleia nos lamentamos da dívida e da pesada herança, que foi o que se fez durante 12 anos, apenas lamentos, e não se evoluiu. Daí o concelho estar como está atualmente, com grande parte do seu património degradado, a precisar de intervenção urgente, por falta de manutenção, descuido e de atenção”.








