
Adriano Lucas, fundador do Diário de Viseu, nasceu há 100 anos
Faz hoje 100 anos que nasceu em Coimbra Adriano Lucas, homem de valores e causas, devotado defensor da Liberdade de Imprensa, que fundou em 2 de junho de 1997 o Diário Regional de Viseu, a que viria a suceder o Diário de Viseu.
À data do falecimento do fundador deste jornal, a 21 de março de 2011 (tinha 85 anos), o também fundador dos jornais Diário de Aveiro e Leiria, que durante seis décadas dirigiu o Diário de Coimbra, era o decano dos dirigentes da Imprensa em Portugal.
Nascido em Coimbra a 14 de dezembro de 1925, Adriano Mário da Cunha Lucas era filho de Adriano Viegas da Cunha Lucas e de Georgette Pinto Borges.
Foi aluno do Colégio Alexandre Herculano, em Coimbra, entre 1930 e 1932. Desde os cinco anos, pelas mãos do seu pai, fundador do Diário de Coimbra, que já era presença regular nas instalações do jornal, na Avenida Sá da Bandeira e no Pátio do Castilho. Por isso, quando seguiu para Lisboa, onde estudou no Colégio Infante de Sagres, entre 1933 e 1941, passou a receber diariamente o Diário de Coimbra.
Regressou à cidade onde nasceu em 1941, estudando primeiro no Colégio S. Pedro (1941/42) e depois no Liceu D. João III, hoje Escola Secundária José Falcão (1942/43).
Já era, nessa altura, sócio da empresa proprietária do Diário de Coimbra que tinha então a sua sede na Rua da Sofia. Aos 19 anos foi nomeado seu editor.
Adriano Lucas formou-se, em 1949, em Engenharia Eletrotécnica no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, e no ano seguinte, na sequência do falecimento súbito do seu pai, assumiu a liderança do Diário de Coimbra e logo aí, aos 25 anos, revelou como pretendia conduzir o jornal. Falou com os funcionários e deixou bem claro o modo como encarava o posicionamento dos jornais na sociedade. A independência de qualquer empresa jornalística – pilar essencial para garantia da Liberdade de Imprensa – só se asseguraria se o jornal se pagasse a si próprio.
Até então, era o seu pai que pagava o papel com que o jornal era impresso, mas Adriano Lucas não o podia fazer e por isso pediu mais empenho a todos para aumentar as receitas e viabilizar a empresa. Assim aconteceu com o Diário de Coimbra, que é hoje o principal diário regional português e o mais antigo diário que conserva a linha editorial de origem e que se mantém na família do seu fundador.
A sua vida foi passada, essencialmente, entre Coimbra e Lisboa e com constantes incursões pelo estrangeiro, de onde trouxe, em diversas áreas, muitos ensinamentos refletidos no sucesso que foi alcançando. Ao longo do seu percurso profissional, norteado sempre pelo manifesto liberal, exerceu diversas atividades e funções como dirigente de imprensa, engenheiro, gestor e empresário.
Foi engenheiro do Metropolitano de Lisboa durante 10 anos (1954/ 1964) fazendo parte da equipa de engenharia (integralmente portuguesa) que concebeu o projeto, dirigiu a obra (inaugurada em 1959) e acompanhou os primeiros quatro anos de exploração desse meio de transporte então inovador no país.

Além do setor da Comunicação Social, foi presidente da Administração, administrador e sócio-gerente de diversas empresas, designadamente do setor automóvel (entre as quais Auto Industrial, Batista Russo, Auto Benfica, Auto Continente), das Fábricas Triunfo, entre outras.
Mas foi, efetivamente, à Comunicação Social que Adriano Lucas dedicou a larga maioria dos seus 85 anos de vida. Em 1985 (19 de junho), fundou o Diário de Aveiro, em 1987 (13 de outubro) o Diário de Leiria, em 1989 (23 de outubro) a Rádio Regional de Aveiro e em 1997 (2 de junho) o Diário Regional de Viseu, a que viria a suceder o Diário de Viseu.
Para assegurar a impressão destes quatro diários bem como de diversos jornais regionais criou, em 1981, a FIG – Indústrias Gráficas, SA que hoje imprime mais de 150 jornais, ajudando assim a viabilizar a sobrevivência de muitos títulos locais e regionais. A FIG produz ainda revistas e outros materiais gráficos para clientes de todo o país.
Toda esta dedicação à Comunicação Social sempre teve como único objetivo servir os leitores dos diferentes jornais, o que só poderia garantir-se com a independência financeira da empresa mas também com o cumprimento escrupuloso da Liberdade de Imprensa, da qual foi um intransigente defensor.
Foi escolhido para representar os jornais diários portugueses no restrito grupo (liderado por Sousa Franco e que, entre outros, integrou Marcelo Rebelo de Sousa e Francisco Pinto Balsemão) que elaborou a primeira Lei da Imprensa do pós-1974, publicada em fevereiro de 1975 (durante o período revolucionário pós-25 de Abril), a qual, ao garantir a Liberdade de Imprensa e de Publicação, permitiu a sobrevivência do setor independente e ajudou a consolidar a democracia em Portugal. Foi membro do Conselho de Imprensa durante toda a sua existência (1975/90) e integrou, ainda, várias entidades criadas com a missão de defender a imprensa livre e plural, nomeadamente a FIEJ (Federação Internacional de Editores de Jornais), WANIFRA (Associação Mundial de Jornais e Editoras de Notícias) e a Associação de Imprensa Diária (AID), da qual era presidente da Assembleia Geral. Foi ainda administrador-fundador do CENJOR (Centro Protocolar de Formação de Jornalistas) e da NP – Notícias de Portugal.
Foram 85 anos repletos de iniciativas, ao serviço dos leitores, de Coimbra, das Beiras e da Liberdade de Imprensa.
Sob a sua liderança, o Diário de Coimbra resistiu à ditadura salazarista, às tentativas de controlo comunista, no pós 25 de Abril, e a todos os demais que o tentaram controlar ou influenciar, garantindo a sua total independência perante os poderes político e económico monopolista.
Assegurou, deste modo, a continuidade da sua linha editorial como jornal informativo republicano, liberal, defensor da democracia pluralista, da economia de mercado, da integração europeia e da regionalização do país, ao serviço de Coimbra e das Beiras, dos seus leitores e anunciantes.
Todos estes ideais refletem-se, ao longo de décadas, nas páginas dos quatro jornais (as causas dos mais desfavorecidos que se apoiaram, as petições que foram promovidas em defesa da região, os editoriais descomprometidos com o poder instituído, entre outros exemplos). A região das Beiras muito lhe deve.
Nos últimos 15 anos de vida, e após ter sobrevivido a uma doença grave, Adriano Lucas descobriu e dedicou-se à poesia, tendo escrito mais de 2.000 poemas e publicado dois livros: “Pensamentos”, em 1996, dedicado aos netos, e “Livro de Quadras – Pensamentos enquadrados”, em 2000. Curiosamente, o seu falecimento ocorreu no Dia Mundial da Poesia, que se celebra a 21 de março.
Viúvo de Maria Arlette Canas Callé da Cunha Lucas, era pai de Adriano Callé Lucas (director do Diário de Coimbra), Miguel Callé Lucas (director-adjunto do Diário de Coimbra), e de Maria Luísa Callé da Cunha Lucas, Maria do Rosário Callé da Cunha Lucas Quintela de Saldanha, Maria Margarida Callé da Cunha Lucas de Sousa de Menezes e de Pedro Callé da Cunha Lucas.

Adriano Lucas ajudou a elaborar a primeira Lei da Imprensa no Portugal democrático
Após a Revolução do 25 de Abril de 1974, o diretor “in memoriam” do Diário de Coimbra participou na Comissão mandatada para elaborar a Lei de Imprensa e integrou o Conselho de Imprensa, onde permaneceu durante toda a existência deste órgão (de 1975 a 1990). Os que ali debatiam com Adriano Lucas o jornalismo que ia fazendo no nosso país ouviam-no frequentemente defender que «onde não há Liberdade de Imprensa não há democracia» e que «a Imprensa para ser independente tem de ser económica e financeiramente viável e equilibrada, caso contrário quem investe na Imprensa fá-lo para defender outros interesses».
Considerava que «a primeira liberdade da Imprensa é a liberdade de qualquer pessoa, qualquer que seja a sua condição, poder livremente editar e publicar um jornal com as opiniões e com a orientação editorial que bem entender», princípios que sempre preconizou em defesa dos jornais, não apenas dos que dirigiu ou fundou mas sim de toda a Imprensa.
Frontal, vertical e arguto na argumentação, foi conquistando o respeito daqueles que, alguns sem o conhecerem previamente, estiveram na Comissão que elaborou a Lei da Imprensa e mais tarde durante os 15 anos de existência do Conselho de Imprensa.
Num suplemento que publicámos em janeiro de 2011 para homenagear os 60 anos de Adriano Lucas à frente do jornal e como decano dos dirigentes da Imprensa portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa classificou o então diretor do Diário de Coimbra como «D. Quixote da Liberdade de Imprensa». «Representante da imprensa diária, esse grande senhor nunca deixou de defender o que reputava essencial para a sobrevivência a autonomia dos jornais, dos maiores aos mais pequenos. E, ao mesmo tempo, assumiu sempre uma postura liberal, de um liberalismo político e económico tão raro num Portugal que saía de uma ditadura anti-liberal para uma indefinição doutrinária», escreveu o atual Presidente da República.
Também Francisco Pinto Balsemão, líder do Grupo Impresa, recentemente falecido, comentou que Adriano Lucas, «na batalha pelo direito a informar e a ser informado, esteve sempre na primeira fila, tanto através da Associação da Imprensa Diária, como no Conselho de Imprensa, como também na intervenção em várias instâncias, no âmbito da União Europeia».

Republicano, regionalista e liberal
A linha editorial assumida pelo seu pai, Adriano Viegas da Cunha Lucas, fundador do Diário de Coimbra, foi mantida e reforçada por Adriano Lucas, que assegurou que todos os jornais do grupo fossem informativos republicanos, liberais, defensores da democracia pluralista, da economia de mercado, da integração europeia e da regionalização do país, ao serviço das Beiras, dos seus leitores e anunciantes.
Adriano Lucas soube transpor para as páginas dos jornais a sua capacidade de reivindicação perante tudo e todos. Por isso, em 1974, ainda antes do 25 de Abril, não hesitou em lançar um abaixo-assinado sobre a linha de caminho-de-ferro, um problema que afligia Coimbra, contribuindo assim para resolver o atravessamento das composições no centro da cidade.
Outra das “lutas” prendeu-se com a co-incineração em Souselas e em Maceira. «A cidade quer ser “capital da saúde” e o Governo manda-nos o lixo. Só podem estar a brincar connosco», insurgia-se Adriano Lucas, numa primeira reação à decisão. Seguiu-se o lançamento de uma petição em Coimbra e outra em Leiria, em janeiro de 1999, assinadas por quase 65 mil pessoas e entregues na Assembleia da República, sendo, à época, a maior petição de sempre por iniciativa local.
Sob a liderança da família de Adriano Lucas, o Diário de Coimbra envolveu-se também ao longo da sua existência em campanhas por causas sociais, nomeadamente a favor dos mais desfavorecidos ou vítimas de infortúnio.
Recorde-se ainda, a propósito da evocação deste centenário, a determinação com que Adriano Lucas resistiu às tentativas de pressão e de controlo do jornal, antes e depois da ditadura.
Em 1945, tinha Adriano Lucas 20 anos, o Diário de Coimbra foi alvo, durante o Estado Novo, da mais prolongada sanção imposta a um jornal português. Um texto sobre um artista circense que a Censura associou a Maximino Correia, então reitor da Universidade de Coimbra, levou o Governo a suspender o jornal por 20 dias e a exigir a substituição do diretor. Às sucessivas propostas de nomes foi dizendo que não e só um ano depois foi possível voltar às bancas, tendo Adriano Lucas e o seu pai conseguido manter a empresa mesmo com esta dura sanção.
Já em maio de 1970, o Diário de Coimbra foi vítima de uma autêntica armadilha pelo Regime. O presidente da Comissão de Censura de Coimbra deu uma informação falsa ao jornal (a morte de um estudante em confrontos com a polícia). Adriano Lucas conseguiu provar que o jornal tinha sido enganado e salvou-o de uma grave punição.
Veio o 25 de Abril de 1974 e com ele outro tipo de tentativas de assalto ao jornal, desta feita pelos comunistas. Poucos dias após a revolução, perante a recusa de alguns gráficos em imprimir o jornal (por, com o apoio do chefe de redação, quererem substituir o diretor e eventualmente conseguirem lá colocar algum elemento ligado ao Partido Comunista), Adriano Lucas encabeçou uma comissão de trabalhadores que reuniu, de madrugada, com o então coronel Rafael Durão, recém-nomeado comandante da Região Militar de Coimbra pela Junta de Salvação Nacional e pelo Movimento das Forças Armadas.
Durão, em pijama e roupão, depois de ouvir o que se estava a passar, foi claro, dizendo que impedir a publicação do Diário de Coimbra iria contra o espírito do 25 de Abril.
«Os senhores vão lá imprimir o Diário de Coimbra, porque se não o fizerem eu vou lá com a tropa», afirmou. Foi um período difícil para a Imprensa, durante o qual muitos jornais foram encerrados ou nacionalizados, perdendo a sua independência.








