
“Caminho do Céu”, de Rita Cabaço, chega ao Teatro Viriato
Na sua estreia na encenação, Rita Cabaço parte de um episódio do Holocausto para questionar o comportamento humano, a manipulação da realidade e a nossa capacidade de ver e agir perante o que acontece à nossa volta. No Teatro Viriato, no dia 6 de novembro, às 21h00,’Caminho do Céu’ ganha uma configuração própria, com a participação de pessoas da comunidade de Viseu.
A peça, escrita pelo dramaturgo espanhol Juan Mayorga, tem como ponto de partida a recriação, no campo de concentração de Terezín, de uma cidade de fachada cuidadosamente preparada pelo regime nazi para uma visita de inspeção da Cruz Vermelha. Para sustentar a encenação de uma vida aparentemente normal, um comandante nazi obriga um prisioneiro judeu, Gottfried, a colaborar na construção da farsa, atribuindo-lhe o papel de Presidente da Câmara dessa cidade que não existe.
Entre a realidade e a ficção, a peça expõe os mecanismos de manipulação e cumplicidade através dos quais a mentira se constrói e o horror se torna invisível, propondo uma reflexão sobre a responsabilidade individual, a repetição dos comportamentos humanos e a forma como, perante a realidade, podemos saber o que está a acontecer e, ainda assim, não agir.
Para Rita Cabaço, o interesse deste texto ultrapassa a reconstituição de um acontecimento histórico. "Eu, na verdade, não tinha particular interesse em debruçar-me apenas sobre essa fase da nossa História. A minha ideia foi partir daí [do Holocausto] para poder falar um bocadinho sobre a transversalidade, a ciclicidade da História. É mais sobre o comportamento humano, a forma como ele se repete e como os mecanismos para chegar a estes lugares sombrios se vão repetindo também, apesar de toda a informação que temos. Interessa-me pensar este texto aos olhos de hoje, como ponto de partida para uma reflexão e um debate aberto sobre aquilo que sabemos do passado, mas também do nosso presente”, explica a encenadora.
“São várias as razões que nos levam a não ver e a não agir”
Num tempo em que o acesso à informação é vasto, mas em que a capacidade de reconhecer a manipulação e agir perante a injustiça continua a ser posta à prova, o espetáculo interroga a posição de quem observa. O delegado da Cruz Vermelha, confrontado com uma realidade cuidadosamente fabricada, torna-se uma figura que ultrapassa o contexto histórico da peça: alguém que pode ser enganado, mas também alguém confrontado com o medo e as consequências da própria inação. “No fundo, o delegado somos todos nós: com uma boa intenção – de fazer melhor, de corrigir, de ajudar – mas perante o gesto, perante a ação, somos incapazes. Acho que esta personagem está tão bem escrita exatamente por isso: ele não é só uma coisa. Não é só o medo de abrir a porta e ver o horror, mas também o medo das consequências que isso lhe pode trazer e a incapacidade de ver e de agir. Hoje, também nós somos enganados muito mais facilmente. São várias as razões que nos levam a não ver e a não agir”, salienta.
A encenação acompanha essa reflexão através de uma linguagem que cruza o realismo com o absurdo e o grotesco. A primeira parte apresenta o monólogo do delegado, interpretado por Paulo Pinto, num dispositivo despojado e de contacto direto com o público. Na segunda parte, a construção da mentira assume uma linguagem mais formal, absurda e grotesca, tornando visível a progressiva deformação dos comportamentos e a perda de autonomia das personagens. À medida que a farsa avança, Gottfried vê a sua identidade, a sua capacidade de escolha e o seu lugar de fala serem progressivamente anulados.
Peça conta em Viseu com a participação de pessoas da comunidade
O projeto nasce da necessidade de encontrar uma forma de refletir artisticamente sobre os conflitos e as inquietações do presente, num processo que a própria descreve como exigente e transformador. Mais do que transmitir uma mensagem fechada, a encenadora procura construir um “espelho da humanidade”: um espaço onde o público possa reconhecer comportamentos, confrontar-se com diferentes perspetivas e construir as suas próprias perguntas.
Em Viseu, esse espelho ganha uma dimensão particular através da participação de pessoas da comunidade sem experiência profissional em teatro. A opção de trabalhar com intérpretes não profissionais em cada cidade onde o espetáculo é apresentado integra a própria proposta artística. “Pensei que a estranheza de corpos que não estão habituados a estar em cena – que não têm o à-vontade, não sabem e não têm as ferramentas dos atores – seria muito boa para alimentar este lugar de uma farsa um bocadinho mal feita. Uma farsa em que se percebe que aqueles corpos estão desconfortáveis de alguma forma. E também porque aquilo que um não-ator ou um ator não-profissional nos dá em cena, precisamente pelo facto de não ter tantas ferramentas, é mais puro, é mais transparente, tem menos rodeios, menos formas de nos enganar. Interessava-me que essa pureza existisse em cena”, refere Rita Cabaço.
Sem impor uma interpretação única ou uma resposta definitiva, ‘Caminho do Céu’ convida o público a observar os mecanismos da manipulação, a normalização do absurdo e a fragilidade da responsabilidade individual perante o sofrimento alheio. Uma peça que parte de uma página sombria da História para nos devolver uma pergunta essencial: o que fazemos perante aquilo que sabemos que está a acontecer?







