
No cemitério de Viseu, o Dia de Todos os Santos faz-se de histórias de amor, fé e saudade
O neto morreu aos 24 anos. Desde então, a avó continua a visitá-lo no cemitério, mas sabe que aquilo que os une não ficou preso a uma campa. Leva-o consigo nas recordações, nas conversas que ainda lhe dirige e na certeza de que continua vivo dentro de si. Acredita na ressurreição e na vida eterna. É nessa fé que encontra algum conforto para uma perda que não se mede em datas. “Todos os dias deviam ser Dia de Todos os Santos”, sorriu.
Esta sexta-feira, enquanto se arranjavam as campas para o Dia de Todos os Santos e o Dia dos Fiéis Defuntos, esta era uma das histórias que se cruzavam no cemitério de Viseu. Entre flores, limpezas e visitas, havia quem procurasse um momento de silêncio, quem cumprisse uma rotina antiga e quem simplesmente quisesse estar mais perto de quem já não pode abraçar.
Aquela avó regressa várias vezes ao cemitério ao longo do ano. Fala-nos do neto com a serenidade de quem guarda cada lembrança como algo precioso. Acredita que a morte não apaga o que foi vivido e que há presenças que continuam connosco, mesmo quando já não as podemos ver. “A vida é sempre um ponto de interrogação”, suspirou, lembrando que ninguém sabe verdadeiramente quando chegará “a hora da viagem”.
E por isso, este “é só um dia para lembrar mais uma vez porque eles quando partiram acreditavam na família, portanto, se eles fazem parte de nós, nós temos que visitá-los. E é aqui a casa onde a gente visita”, afirmou.

Um pouco mais adiante, Clotilde Costa escolhia flores para colocar junto dos pais. Não vinham de uma florista, mas do seu próprio quintal. “É tudo do meu quintal”, contou ao nosso Jornal. São flores que crescem perto de casa e que, nesta altura, ganham um destino especial.
Cuidar das campas é uma forma de continuar a fazer aquilo que considera ser a sua responsabilidade. “Cabe-me a mim, que é a minha obrigação, enquanto posso e enquanto sou viva”, disse.
Nem sempre consegue vir tantas vezes quanto gostaria. O marido está doente e também ela tem problemas de saúde. Entre as visitas ao cemitério e os cuidados que presta em casa, há escolhas que precisam de ser feitas. “Não vou deixar o meu marido para vir cá mais vezes”, afirma. Fá-lo sem deixar de nos lembrar que o amor também precisa de ser cuidado enquanto há tempo: “O que se fez é em vida”.
Evelina Nabais também conhece bem o caminho até às campas dos familiares. Durante muitos anos, fazia-o todas as semanas, numa rotina que hoje já não cumpre com a mesma rigidez. O tempo foi passando e a dor da perda foi encontrando outro lugar dentro de si. Os pais, os avós e os tios continuam presentes nas suas recordações, mesmo que já não precise de regressar ao cemitério tantas vezes.
Ainda assim, considera estes dias "muito especiais". São momentos em que as lembranças ganham outra força e em que regressam os dias partilhados com aqueles que fizeram parte da sua vida. “Lembramo-nos sempre porque eles viveram connosco. Mas, neste dia, fazemos parte de um conjunto maior porque todas as pessoas celebram os seus”, reconheceu. Ainda que a saudade permaneça, transforma-se com o tempo. E há sempre espaço para voltar, recordar e deixar uma flor.
No fundo, cada pessoa leva consigo uma história diferente quando atravessa os portões deste cemitério e de tantos outros. Há flores que vêm dos quintais, visitas que se repetem há décadas e conversas que continuam, mesmo sem resposta. E há também quem, como aquela avó, encontre na fé e no amor uma maneira de sentir que a despedida nunca é completa. Porque algumas pessoas deixam de estar ao nosso lado, mas nunca deixam verdadeiramente de fazer parte de nós.






