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Espécies selvagens comercializadas no mundo são o dobro de que se pensava ou ainda mais

Estudo internacional revela que são comercializadas mais de 107 mil espécies selvagens em todo o mundo, o dobro das estimativas anteriores, alertando para a falta de dados sobre os riscos para a biodiversidade

Um estudo divulgado hoje revela que são comercializadas no mundo mais de 107.000 espécies selvagens, o dobro do que indicavam estimativas anteriores, assinalando que a falta de dados sugere que o número real pode ser “muito maior”.

Calculava-se que cerca de 50.000 espécies eram comercializadas em todo o mundo, mas, ao juntar dados intersetoriais de programas de vigilância do comércio de vida selvagem, a nova análise encontrou o número de 107.356, indica um comunicado sobre o estudo divulgado pela Universidade de Melbourne, na Austrália.

O estudo, que fornece "a primeira estimativa abrangente de espécies comercializadas entre plantas, animais e fungos", é publicado hoje na revista Science Advances, da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS).

Alice Hughes, da Escola de Biociências da universidade australiana e investigadora principal, explica que o comércio de vida selvagem inclui “desde madeira, marisco e plantas medicinais a animais de estimação, flores de corte, peixes ornamentais e fungos”, embora muitos pensem no tráfico de elefantes, tigres e pangolins quando se fala de comércio de espécies selvagens.

Citada no comunicado, a cientista adianta que “a maior parte (daquele comércio) é legal” e “vale aproximadamente 10 vezes mais do que o ilegal”, que calculou num trabalho divulgado em novembro de 2025 ter um valor anual de 360 mil milhões de dólares (323 mil milhões de euros).

Alertando para a falta de dados sobre o comércio de espécies selvagens, o estudo admite que o número que aponta, de 107.356 espécies comercializadas, pode estar bastante aquém da realidade.

“Para a maioria destas espécies, temos poucos ou nenhuns dados”, refere a investigadora, acrescentando que “não existem dados sobre a quantidade e a origem, muito menos ao nível da população para avaliar se o comércio representa um risco para a sobrevivência das espécies”.

“Sem melhores dados, não podemos avaliar com precisão os riscos para a biodiversidade ou identificar quando o comércio está a levar as espécies ao declínio”, salienta.

Segundo Alice Hughes, as grandes lacunas no sistema global de monitorização dos negócios das espécies selvagens expostas no estudo, “sublinham a necessidade de uma mudança radical na forma como o comércio é registado e comunicado”.

A cientista chama ainda a atenção que, apesar de o acordo global sobre a biodiversidade ter uma meta para o comércio, as estimativas dos especialistas indicam que “apenas contabiliza cerca de dois ou três por cento das espécies comercializadas e deixa de fora os outros 97 por cento”.

A Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (CITES), para garantir que o comércio internacional não ameace a sobrevivência das espécies, concede diferentes graus de proteção a mais de 40.000 espécies de animais e plantas, quer sejam comercializadas como espécimes vivos ou produtos derivados.

O comércio das espécies selvagens também acarreta riscos como a importação de pragas e agentes patogénicos, bem como de espécies que podem tornar-se invasoras.

Para alterar a situação atual, o estudo defende ser necessário “uniformizar a recolha de dados sobre o comércio”, sugerindo que reaproveitar “os processos alfandegários e zoossanitários existentes” permitiria aos países “desenvolver um sistema sólido para monitorizar o comércio”.

Importante é também a colaboração entre cientistas, agências governamentais, empresas que vendem espécies selvagens e consumidores que impulsionam a procura.

“Se consideramos importante travar a perda de biodiversidade, precisamos de relatórios sobre o comércio das espécies selvagens muito mais abrangentes, transparentes e coordenados a nível global”, salienta Alice Hughes.

Outubro 30, 2026 . 21:45

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