
Espanha/Acidente: Uma falha técnica e uma cadeia de erros humanos
Os áudios divulgados pela imprensa espanhola são gravações das conversas dos maquinistas dos dois comboios que colidiram em Urda, Toledo, a cerca de 15 quilómetros ao sul de Madrid, com um operador do centro de controlo, que funciona na estação de Atocha, na capital espanhola.
Os contactos dos maquinistas com o centro de controlo ocorrem após a falha do sistema automático de segurança conhecido como LZB, às 08:30 locais (07:30 em Lisboa).
Essa queda do sistema automático fez parar todos os comboios que estavam numa extensão de mais de 60 quilómetros e, seguindo os protocolos em vigor, passou a ser o centro de controlo a coordenar a circulação, como explicou na quarta-feira o ministro dos Transportes de Espanha, Oscar Puente.
Foi a partir daqui que se sucederam uma série de decisões e indicações, sobretudo ao maquinista de um dos comboios, que o ministro considerou "inexolicáveis" e "erradas".
Segundo as gravações agora conhecidas, o maquinista de um dos comboios, o AVE, da empresa pública Renfe, recebeu às 08:36 indicação para retomar "a marcha normal", quando havia outra composição (da empresa privada Iryo) parada na mesma linha, 25 quilómetros à frente.
Minutos mais tarde, às 08:41, a maquinista do Iryo recebeu a mesma indicação.
No entanto, às 08:48 esta maquinista contacta o centro de controlo para dizer que não consegue retomar a marcha, por problemas técnicos, e continua parada na linha, à entrada da estação de Urda. O operador responde-lhe que continue a tentar, que avance quando conseguir, e se se mantiver o problema, que volte a telefonar para o centro de controlo.
Cinco minutos depois, às 08:53, o AVE da Renfe chocou com o Iryo, provocando pelo menos 68 mortos e mais de 100 feridos. Não há registo nas gravações conhecidas até agora de ter havido qualquer contacto com o comboio da Renfe após a indicação do Iryo de que estava parado poucos quilómetros à frente, na mesma linha.
Segundo o Governo espanhol e peritos na circulação ferroviária, as indicações dadas pelo operador do centro de controlo aos maquinistas são uma cadeia de erros.
Um dos primeiros erros é dar indicação aos dois comboios para retomarem a marcha normal, quando perante a falha do sistema automático de segurança só deveriam poder circular em "marcha à vista", a cerca de 40 quilómetros por hora, para permitir aos maquinistas a travagem manual caso vejam algum obstáculo.
Outro dos erros foi dar indicação ao comboio da Renfe para avançar antes de a mesma ordem ter sido dada ao Iryo, que estava à frente.
Juntou-se depois a aparente falta de indicações ao comboio da Renfe para parar face ao aviso do Iryo de que não conseguia arrancar.
O comboio da Renfe circulou entre 15 e 17 minutos antes de bater no Iryo, tempo suficiente para o fazer parar e evitar o acidente, como reconheceu na quarta-feira o ministro dos Transportes.
"Um acidente por alcance na rede ferroviária espanhola é verdadeiramente inverosímil" e as indicações dadas pelo centro de controlo são inexplicáveis "inexplicável", considerou o ministro.







