
“Escola Cantina Salazar tem agora um novo desígnio: a preservação da memória”
O projeto passou por vários executivos durante quase duas décadas em Santa Comba Dão. mas foi Inês Santos, no principal cargo autárquico há menos de um ano, que inaugurou o controverso Centro Interpretativo do Estado Novo - Regime e Resistência, que nasceu na antiga Escola Cantina Salazar, construída em 1940. Foi na última sexta-feira, no Vimieiro, terra natal de António Salazar, e o momento contou com as presenças do secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos, o responsável pelo arquivo biblioteca Ephemera, Pacheco Pereira, e ainda vários autarcas do distrito.
Inês Santos afirmou, na sua intervenção, que o processo foi “um sonho que esteve apenas na cabeça de muitos, com várias tentativas de fazer nascer, com recurso a várias estratégias na busca da melhor forma de fazer compreender um país inteiro das verdadeiras intenções associadas ao projeto”. Lamentou que alguns tenham fomentado “um ruído à volta de um sonho santacombadense que venceu durante todos estes anos”, mas “hoje vence a vontade política de assumir este centro interpretativo, não porque Salazar aqui nasceu, como muitos insinuam, mas sim porque aqui nasceu essa vontade, a vontade de perpetuar a memória desse período da nossa história”.
A autarca enfatizou que o centro vai procurar estudar a história, investigá-la e dá-la a conhecer “como muito poucos a conhecem e sempre com base no rigor científico”.
“O Centro Interpretativo do Estado Novo quer-se um espaço para todos aqueles que querem aprofundar o seu conhecimento sobre a ditadura mais longa da Europa Ocidental(48 anos), para todos os que têm interesse em ter acesso a documentos e em compreender os factos e as memórias”, referiu.
Preservar a memória
Inês Santos salientou que a antiga Escola Cantina Salazar tem agora um novo desígnio: a preservação da memória.
“O centro será para todos aqueles que querem que nunca se apague a memória, a memória desse regime como um todo, a memória que honra todos os que viveram, sofreram e morreram pelas condições impostas pelo regime. É essa memória que queremos preservar. Estudando-a, debatendo-a e contextualizando-a. Este será, sem sombra de dúvida, o grande propósito do Centro Interpretativo do Estado Novo, Regime e Resistência”, garantiu.
Sobre os 20 anos em que o projeto esteve em cima da mesa, destacou as divergências que se criaram sobre o real propósito do centro.
“Os tempos que correm exigem responsabilidade, rigor, verdade, não permitindo que nenhum dos lados extremados consiga o poder de controlar a história e de manipular a informação, essa que se quer divulgar de forma objetiva e isenta, baseada exclusivamente no rigor científico. A história do Estado Novo é incómoda para cada um desses lados. E foram esses dois lados e o ruído que produziam sempre que um passo à frente era dado que não permitiam que este projeto conhecesse a luz do dia, se não hoje”, recordou, acrescentando que o projeto nasceu no Vimieiro “não porque aqui nasceu a figura central do regime, mas sim porque foi aqui que nasceu a ideia”.
Agradeceu, no final, à Ephemera, coordenadora científica do centro, “uma associação cultural que presta um extraordinário serviço público ao nosso país”, a Pacheco Pereira, “que permitiu blindar o projeto, tanto na credibilidade que tanto se procurou e que fez o projeto evoluir para o que hoje se apresenta”, e à sua equipa no executivo, nomedamente ao vice-presidente Luís Nunes, “o verdadeiro executante do projeto”.
“Este projeto é possível precisamente porque vivemos em democracia, em liberdade, onde o pensamento livre e crítico e o respeito pelos princípios e valores democráticos está antes de qualquer outra coisa. Santa Comba Dão sonhou com o desenvolvimento de um polo de conhecimento temático e hoje concretizou-o. Quando os sonhos são bons nunca deles duvidem, muito menos da capacidade de os concretizar”, concluiu a autarca.
O papel relevante de Santa Comba Dão
O Centro Interpretativo do Estado Novo terá uma programação regular de exposições temáticas e de iniciativas de reflexão, como debates, mesas-redondas e conferências, de forma a incentivar os visitantes a regressarem frequentemente. O edifício integra uma biblioteca temática com um espaço para consulta, uma sala de exposição permanente com trabalhos de David Oliveira (artista autodidata na arte da medalhística e da escultura, falecido em 2014) e uma sala de aula da época.
Para o dia da abertura foi escolhida a exposição “Só existe o que se sabe que existe – A censura no Estado Novo”, que foi apresentada por Pacheco Pereira aquando da visita guiada ao novo centro.
Pacheco Pereira realçou os 48 anos de ditadura que o país viveu, assinalando que muita gente nasceu e morreu sem nunca ter lido um jornal sem censura ou um jornal de liberdade. “E isso não é irrelevante. Não é irrelevante porque, na realidade, a informação que tinham era uma informação censurada em muitos aspectos”, apontou.Garantiu, no final, que a Ephemera, ao lado da autarquia, “irá continuar a ajudar para que Santa Comba Dão tenha um papel relevante na investigação histórica do Estado Novo e creio que teremos um longo caminho benéfico de atuação em conjunto”.
Por sua vez, Alberto Santos abordou a importância da abertura do centro interpretativo, dizendo que “a censura, a perseguição, a tortura e a privação da liberdade fazem parte dessa história. Mas é algo que não pode ser deixado de ser reconhecido e transmitido, e a cooperação estabelecida entre o município e a Associação Ephemera definiu-lhe um propósito de investigação histórica e de autonomia científica que importa reconhecer e valorizar”.
“Este centro lembra a cada visitante que esta história foi feita por pessoas com nome, rosto e vida própria, muitas delas feridas pela perseguição e pela perda da liberdade. O meu desejo é que este centro seja um sinal de esperança e ajude a semear em quem o visita a coragem de pensar livremente e a vontade irrevogável de lutar e fazer durar a nossa democracia, concluiu o secretário de Estado.










