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Teatro Viriato recebe história da última grande encenação do poder de Salazar

“Pai Nosso – Os Últimos Dias de Salazar” é exibido amanhã, no âmbito da parceria com o festival VistaCurta

‘Pai Nosso – Os Últimos Dias de Salazar’, do realizador José Filipe Costa, revisita um dos episódios mais insólitos dos últimos anos de vida do ditador António de Oliveira Salazar. A obra é exibida amanhã, no âmbito da parceria entre o Teatro Viriato e o festival VistaCurta, do Cine Clube de Viseu.
Depois de ser afastado do poder, na sequência de um AVC, o antigo Presidente do Conselho e figura central do Estado Novo nunca chegou a saber que Marcelo Caetano lhe tinha sucedido no cargo. Entre 1968 e 1970, Salazar continuou a acreditar que governava o país, a partir do palacete de São Bento. Uma encenação criada por uma pequena comunidade de pessoas ao seu redor formada pela governanta, o médico pessoal e colaboradores do palacete.
É neste acontecimento histórico, pouco conhecido apesar de estar documentado “no diário de Eduardo Coelho”, o médico do ditador, que José Filipe Costa centra o seu filme. “É como se ninguém, na verdade, quisesse olhar de frente para esta história absurda de final de vida de Salazar – é muito pouco contada, divulgada ou escrutinada.” E questiona. “Será que se acha que não tem importância nenhuma e não é um sintoma sobre o próprio funcionamento do regime? Pois eu acho que a história ajuda a compreender que regime foi aquele, mas não é valorizada. Ouvem-se historiadores, políticos, pensadores a falar desta história? Não! Porque é demasiado disruptiva sobre o que pensa sobre Salazar e o regime? Eu acho que deve ser mostrada, interrogada, etc.”, explica.
Mais do que reconstituir os factos, o realizador interessa-se pelo mecanismo dessa farsa coletiva e pelo íntimo das pessoas que tiveram de a sustentar diariamente.“Em termos gerais, o filme é muito sobre uma mentira incorporada. Uma mentira que, de tão vivida e repetida, torna a ficção numa realidade: Salazar é, de facto, presidente para aquela gente e ainda o é simbolicamente, hoje, para muita gente”, refere. “Nunca compreendi esse fascínio por Salazar, sobretudo quando é representado como político impoluto e exemplar, um homem austero e desapegado dos bens materiais. Na realidade, o regime que construiu concentrava a riqueza num grupo restrito de famílias privilegiadas e protegia monopólios industriais, enquanto mantinha largas camadas da população na pobreza, com salários deliberadamente baixos e afastadas da participação política. Criou e alimentou um aparelho repressivo que penetrou profundamente na sociedade e deixou marcas que ainda hoje se manifestam”, acrescenta.
A encenação de São Bento é também o centro da construção visual e sonora do filme. A claustrofobia do espaço, os silêncios, os passos no soalho, os relógios e as emissões radiofónicas sobre o estado de saúde de Salazar contribuem para criar uma atmosfera marcada pelo absurdo e pela tensão.
Além disso, o filme dá particular atenção às figuras que rodeiam Salazar. A governanta Maria de Jesus, por exemplo, surge simultaneamente como uma das responsáveis pela manutenção da encenação e como alguém afetado pelas consequências dessa mentira. “O que nos interessa no cinema é a complexidade das pessoas, a possibilidade de terem várias dimensões. Por exemplo, elas exercem poder sobre as outras personagens e, ao mesmo tempo, são vítimas desse mesmo ato, porque as isola ou as torna amarguradas, como também são oprimidas pelo poder de outras”, salienta José Filipe Costa, defendendo uma abordagem centrada na complexidade e nas contradições humanas.
A obra cinematográfica será exibida em duas sessões no mesmo dia: uma para o público escolar, às 15h00, e outra para o público geral, às 21h00, ambas com a presença de José Filipe Costa. Na sessão noturna, será realizada uma conversa pós-filme com o realizador e a investigadora Anabela Silveira, num encontro que pretende cruzar o olhar cinematográfico com a investigação histórica.
"Esse cruzamento pode abrir novas perguntas sobre o que sabemos desse período, sobre aquilo que ficou na memória e sobre a forma como ainda hoje lidamos com ele”, afirma José Filipe Costa.

Programação infantil também tem lugar

Dois Ratos

A programação do VistaCurta no Teatro Viriato abre também espaço para os mais novos e reforça a presença da programação infantil na edição deste ano.
Nesse sentido, o Teatro Viriato acolhe a apresentação de ‘Dois Ratos’, de Joana Estrela e Nicolau, na sexta-feira, às 10h30, para escolas, e no sábado, às 16h00, para famílias e público geral.
O clássico conto do ‘Rato do Campo e Rato da Cidade’ é adaptado para uma versão contemporânea que nos fala sobre solidão, através de desenhos e música ao vivo.

Conversa na livraria Libros&Libros

Joana Estrela

Aproveitando a passagem de Joana Estrela pelo palco, o Teatro Viriato estende a programação à livraria viseense Libros&Libros. Numa conversa leve e de proximidade, que acontece na livraria no sábado, às 11h00, a autora e ilustradora dá a conhecer o seu trabalho, bem como as suas inspirações. A conversa é aberta a todos os públicos e de entrada gratuita.

Outubro 12, 2026 . 19:15

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