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Vindima de dificuldades no Douro, uvas por colher e venda sem preço

Viticultores do Douro enfrentam dificuldades no escoamento da produção, com alguns a recorrerem ao apoio excecional do Governo e outros a optarem por vender sem preço ou produzir vinho em casa

No Douro, há viticultores a candidatarem-se ao apoio excecional lançado pelo Governo para quem não conseguiu escoar a produção, mas outros recusaram-se a deixar as uvas nas videiras e optaram por “vender sem preço” ou vinificar em casa.

“Os viticultores estão cada vez mais desmotivados, desmoralizados, com menos capacidade financeira, a rentabilidade da sua atividade é cada vez menor e, portanto, a situação pode realmente estar pior do que aquilo que se podia pensar”, afirmou hoje à agência Lusa Marinete Alves, viticultora e presidente da Associação Lutar pelo Douro, criada em março de 2025.

O Douro Património Mundial da UNESCO celebra 25 anos da classificação em 2026, um ano marcado por um agravamento da crise que atinge os viticultores da mais antiga região demarcada e regulamentada do mundo.

A 04 de setembro, o Governo aprovou a criação de um regime de exceção, com uma dotação global de 12 milhões de euros, para garantir um rendimento mínimo aos viticultores do Douro que, devido às dificuldades de mercado, não conseguiram vender a totalidade das suas uvas na campanha de 2026-2027.

As candidaturas abriram a 28 de setembro e podem ser submetidas até à próxima segunda-feira exclusivamente por via eletrónica, através da página ‘online’ do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP).

Marinete Alves tem vinhas no concelho do Peso da Régua, vendeu a uva beneficiada, mas não conseguiu escoar a totalidade da colheita e, por isso, vai candidatar-se à medida do Governo.

A responsável disse que “todas as medidas que venham em prol do viticultor são benéficas”, no entanto considerou que este ano “peca efetivamente por ser muito tardia”.

“Nós começámos as vindimas no início de agosto e a medida sai em setembro, ou seja, as pessoas começaram a entrar em desespero porque não sabiam a quem vender as suas uvas, por quanto vender as suas uvas e não sabiam se existiria ou não apoio do Estado”, referiu.

No ano passado, o Governo optou por outra medida, a “uva para destilar”, ou seja, a uva excedente e sem escoamento foi destinada para destilação, e também foi anunciada com a vindima já em curso.

Para Marinete Alves, o anúncio tardio do apoio, nesta vindima, gerou uma “insegurança terrível” e o “efeito útil” poderá ser reduzido e “ficar aquém” das expectativas. Até à passada segunda-feira, segundo informações recolhidas pela responsável, tinham sido submetidas 211 candidaturas por viticultores.

As dificuldades dos produtores intensificaram-se em 2024 e, depois de, no ano passado, a produção global no Douro ter decrescido até às 178.000 pipas de vinho (550 litros cada), os problemas de escoamento voltaram a agravar-se em 2026 com o aumento da colheita.

“Nunca se venderam tantas cubas na região como em 2024. Este ano muitas pessoas continuaram a adotar o mesmo método de 2024 e, portanto, em vez de as deixarem nas videiras, fizeram produção própria, outras venderam as uvas sem preço ou mesmo abaixo do preço de custo”, resumiu Marinete Alves.

Milton Helena, produtor em São João da Pesqueira, já submeteu a candidatura ao apoio excecional. O processo requer que sejam submetidas fotografias da parcela que ficou por vindimar, através do sistema operativo Android.

O viticultor disse que, para si, não foi um processo difícil, mas alertou para dificuldades que estão a ser sentidas, principalmente pelos mais velhos.

A opção de deixar as uvas nas videiras não foi, salientou, fácil de tomar, mas, segundo explicou, a alternativa seria entregar “as uvas sem preço”.

Ou seja, iria fazer a vindima sem uma garantia do preço que lhe iriam pagar pela colheita, podendo “nem cobrir os custos com o corte das uvas”.

E a vindima, frisou, é apenas o culminar de um ano inteiro de trabalho na vinha.

Milton Helena apontou ainda ao brutal aumento dos custos de produção verificados em consequência do preço dos combustíveis.

O viticultor tem produção própria de vinho e também vende uva, mas, segundo realçou, a venda está cada vez mais complicada.

“Nós só queremos um preço justo para aquilo que produzimos e para a qualidade que produzimos”, frisou.

No ano passado também recorreu à medida “uva para destilar”, a qual, na sua opinião, teve “mais sentido” porque se deu um destino à colheita excedente, ou seja, a transformação em aguardente.

Para além do “anúncio tardio” do apoio este ano, houve também, segundo explicou, uma alteração das regras antes mesmo da sua aplicação, com uma retificação da portaria.

“A meio do jogo ainda acabam por alterar (…). Falavam que era um apoio por hectare e afinal, acaba por não ser por hectare, mas sim à exploração”, referiu.

A forma de cálculo passou a ser feita em função da exploração e da média de produção nos últimos cinco anos.

A 07 de agosto, José Ventura participou num protesto, na Régua, com uma corda colocada ao pescoço para alertar para o estrangulamento dos pequenos e médios viticultores do Douro.

Na altura, contou à Lusa que tinha recebido uma carta da empresa a quem vende as uvas a avisar que só aceitava o benefício.

Contactado novamente, confirmou que apenas conseguiu vender as uvas beneficiadas e que, para não deixar as restantes “penduradas nas videiras”, em cerca de um hectare e meio de vinha, optou por fazer vinho em casa que também não sabe se irá conseguir vender.

Mesmo já tendo saído a portaria do apoio excecional, o produtor do concelho de Armamar disse que resolveu arriscar.

“Dão uma coisa de nada para deixarmos as uvas nas videiras”, considerou, salientando que os pequenos e médios agricultores não fazem as contas ao trabalho que fazem durante o ano inteiro, incluindo aos sábados e domingos, e que é cada vez mais caro produzir e, em contrapartida o rendimento é cada vez menor.

Na sua opinião, a gradual produção de aguardente vínica regional (para incorporar no vinho do Porto) a partir dos excedentes, “efetivamente” poderia ajudar os viticultores, sublinhando que “não é possível transmitir em palavras” o que um produtor sente por deixar as uvas por vindimar depois de um ano inteiro de trabalho e cuidado.

Outubro 7, 2026 . 14:30

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