
Confronto entre o bem e o mal no Teatro Viriato
‘Promised Valley Conference Center’, de Mickaël de Oliveira, abre a temporada do Teatro Viriato no próximo sábado, às 21h00. Uma peça sobre fé, arte e uma tragédia que promete levantar muitas questões.
Um grupo de teatro universitário cristão prepara-se para participar num festival ecuménico numa universidade norte-americana. Durante o processo de criação do espetáculo, alunos e professores confrontam-se com o texto a encenar, a sua tradução e um conjunto de questões morais, bíblicas e filosóficas. Entre ensaios, debates e diferentes interpretações sobre o bem e o mal, o grupo vê-se perante uma situação-limite que poderá comprometer a apresentação no Promised Valley Conference Center.
É neste território entre aquilo que julgamos certo e errado, bem e mal, que o encenador Mickaël de Oliveira constrói a segunda peça da trilogia ‘Pequenos Males’. Depois de ‘Crocodile Club’ (2024-25), onde o mal era explorado a partir da dimensão política, ‘Promised Valley Conference Center’ (2025-26) mergulha nas dimensões religiosa e pedagógica, interrogando precisamente sobre os espaços sociais que, à partida, deveriam proteger, orientar e formar.
“Continuamos a viver num mundo em que não é fácil perceber onde está o mal e, sobretudo, de que lado nos encontramos nesta dicotomia moral, por contraste ao bem. A dúvida sobre quem somos moralmente atravessa-nos sempre, tanto nas guerras que vemos nos campos de batalha como naquelas que travamos numa escala mais íntima, pessoal, dentro das nossas relações e até de nós próprios. Interessa-me olhar para o mal não como uma entidade abstrata ou como algo que pertence sempre aos outros, mas como uma realidade complexa que pode assumir diferentes formas”, explica o encenador.
A peça parte da religião e da educação enquanto espaços de transmissão de valores e de construção de uma consciência moral. “Num contexto educativo marcado pela dimensão religiosa, existe uma intenção explícita de ensinar a praticar o bem e a reconhecer e evitar o mal. É precisamente a partir desta aparente clareza moral que a narrativa se desenvolve. E interessa-nos, assim, explorar o que acontece quando os espaços que deveriam proteger, orientar e formar também são atravessados pela dúvida, pela contradição ou pela possibilidade do mal”, reforça Mickaël de Oliveira.
A par da investigação sobre o mal, a peça aprofunda ainda a relação entre teatro e cinema. A montagem cinematográfica e a imagem em movimento assumem-se como dispositivos centrais para a construção da narrativa em palco. Em ‘Promised Valley Conference Center’, essa fronteira é levada ainda mais longe, num processo que o próprio encenador descreve como uma forma de “testar os limites da relação entre o teatro e a imagem em movimento e descobrir até que ponto uma linguagem pode desafiar e transformar a outra”.








