
“Tanto trabalho queimado” em Sernada
“Tanto trabalho queimado!”, lamentou Adelaide Vidal, que, a caminho dos 81 anos, nunca viu um incêndio assim na sua terra, em Sernada, na União de Freguesias de Préstimo e Macieira de Alcôba, no concelho de Águeda, distrito de Aveiro.
Adelaide Vidal, após o incêndio que começou em Vouzela e atingiu aquela região, explicou: “Ali, na casa que ardeu, morava um pai e uma filha”.
“Ele não queria sair, mas os bombeiros partiram as janelas e lá os tiraram. Estão em casa de uma outra filha para os lados de Oliveira de Frades [distrito de Viseu]”, relatou.
Mais à frente, no meio da povoação, António Vidal, irmão de Adelaide, mostrou à agência Lusa a lista de material e maquinaria que tinha na sua carpintaria que ardeu na totalidade com as chamas que “chegaram por trás, pelos terrenos” agrícolas.
“Esta oficina era de 1712, já vinha do meu bisavô. Tinha maquinaria muito antiga e outras coisas mais recentes. Ardeu tudo, não consegui salvar nada. E não há cálculo financeiro que se consiga fazer, porque era uma herança muito estimável que tinha e onde eu ocupei os meus últimos quase 30 anos”.
A carpintaria, “infelizmente, não foi tudo” o que as chamas reduziram a cinza. Com elas, foram também 44 hectares de terreno agrícola e de árvores de fruto.
“Não tenho um pau verde na minha lavoura. Tenho 93 pés de oliveira todos derretidos, mais 50 pés de castanheiros, já com castanha grossa, grande, em boa fase de produção. Ardeu tudo, não sobrou nada”, descreveu.
Adelaide Vidal mostrou ainda “todas as hortênsias” perfiladas e que “eram de uma beleza enorme, dava gosto olhar para o corredor azul” que agora se transformou num castanho acinzentado ao longo do caminho que diariamente percorria para alimentar os animais e trabalhar os terrenos.
“Ainda nem tinha tido coragem de vir aqui ver. É a primeira vez que aqui venho”, reconheceu à agência Lusa, enquanto guiava os passos, caminho abaixo, onde “estava a lenha para o inverno, debaixo desse zinco para a proteger da chuva”.
“Protegia da chuva, mas não do fogo”, lamentou.
Segundo disse, “sobrou um galo e uma ou duas galinhas, todas as outras morreram, como morreu o porco e a cabra”.
“Olhe, foi uma desgraça, nem posso pensar nisso”.
Da área agrícola “é mais fácil contar o que não ardeu, ou seja, o milho e pouco mais, um bocadinho de uma vinha também, de resto, foi tudo”.
Laranjeiras, pereiras, macieiras, “foi quanta árvore de fruto tinha” que agora deixa de ter, assim como “toda a alfaia agrícola que também ardeu, estava tudo junto”.
“Nunca vi um incêndio como este! Repare nas covas onde estavam as raízes dos pinheiros e que o fogo consumiu. Olhe estes troncos, esta oliveira, queimou toda por dentro, só tem o casco. Aquele sobreiro ali caiu, não se aguentou de pé. Um perigo, o meu irmão tinha acabado de passar quando ele tombou”.
Adelaide Vidal disse que em Sernada “não chegam a morar 20 pessoas”, quase todas da sua família, “mas não há ninguém que possa dizer que não foi afetada, porque toda a gente foi”.
O incêndio andou em todo o lado. Aqui e nas aldeias vizinhas” como Sernadinha ou Vale do Lobo.







