
Há meses que Vildemoinhos troca as noites pelo amor às Cavalhadas
Há carros alegóricos ainda cobertos por plásticos, estruturas espalhadas pelo pavilhão e dezenas de mãos ocupadas nos últimos retoques. Ao fundo, ouvem-se músicas tradicionais e uma correria que insiste em não acalmar. Numa das salas, o Grupo Etnográfico As Tricanas de Vildemoinhos ensaia os cantares e as danças que voltará a apresentar esta quarta-feira às ruas de Viseu. Noutra, alinham-se detalhes que o público dificilmente conseguirá perceber à primeira vista, mas que representam longas semanas de trabalho.
Faltam pouco para as Cavalhadas de Vildemoinhos e o ambiente é de azáfama, mas também de orgulho. “Já não sabemos viver uns sem os outros”, resume Carla Abibe, presidente da direção das Cavalhadas. A frase ajuda a explicar-nos o espírito que se vive dentro daquele pavilhão.
Desde fevereiro que dezenas de pessoas ali passam grande parte dos seus tempos livres. Famílias inteiras trocam fins de semana em casa por horas de trabalho voluntário. Há pais, filhos, avós e netos envolvidos na construção dos carros que vão desfilar a 24 de junho, dia de São João. A edição deste ano deverá mobilizar cerca de 1.500 participantes e atrair entre 25 mil e 30 mil espetadores. O cortejo contará com 22 carros, mas Carla Abibe acredita que esta poderá ser uma das edições mais marcantes dos últimos anos.

“Foi uma coisa linda que se viveu neste pavilhão desde o mês de fevereiro. Em termos de qualidade e de grandeza, nunca fizemos nada assim e este ano acho que nos superámos”, confessou a responsável, garantindo que “Vildemoinhos está mesmo muito viva, a tradição e a cultura etnográfica estão mesmo muito vivas”.
Pelo pavilhão percebe-se porquê. Há flores feitas à mão, estruturas gigantescas ainda em montagem e milhares de pequenos elementos decorativos que exigiram horas de trabalho. Muitos dos carros permanecem tapados para proteção, mas os detalhes visíveis revelam uma atenção quase obsessiva ao pormenor. “Como é que nós não podemos ter orgulho disto?”, questiona.
O orgulho nasce também do processo. Há bordados executados por mulheres que aprenderam a técnica com mães e avós. Há jovens que passaram os últimos meses a aprender a soldar, a trabalhar ferro e a construir estruturas. Há peças feitas e refeitas várias vezes.
“Os nossos jovens aprenderam a arte do ferreiro. Aprenderam a tornear ferro. Aprenderam a soldar”, conta, entre sorrisos. O envolvimento das novas gerações é um dos aspetos que mais entusiasma a presidente da direção. Segundo Carla Abibe, são cada vez mais os jovens que procuram integrar a associação e participar na construção deste dia maior.
Um dos carros nasceu dessa participação. Inspirado na natureza, apresenta dois pássaros a proteger um ninho. A ideia surgiu dos próprios jovens. “Eles disseram-nos que aqui sentem como se estivessem num ninho e as Cavalhadas a protegê-los”, contou. E que bonito que é.
A metáfora ajuda-nos a compreender a relação que muitos mantêm com a associação. Ao longo da visita, a palavra “família” surge repetidamente. E é precisamente longe dos holofotes que as Cavalhadas continuam a ser construídas: entre famílias, amigos e uma comunidade que, “enquanto o Mundo for Mundo”, continua a cumprir a sua promessa.
Promessa das Cavalhadas a caminho de ser Património Cultural Imaterial
A Promessa das Cavalhadas de Vildemoinhos vai ser candidata a Património Cultural Imaterial. “Iniciámos o processo no final do ano passado”, revelou Carla Abibe, explicando que a candidatura incide sobre a Promessa das Cavalhadas e não sobre o cortejo.
Já a escolha da data para a sua submissão não é inocente: “No dia em que o nosso Santo nos protege”, dia 24 de junho. Segundo a responsável, a preparação do processo tem passado por um extenso trabalho de investigação histórica e recolha documental, com o apoio “incansável” dos serviços municipais.
“Temos livros que quase temos medo de folhear, de tão antigos que são, e que já relatam a promessa das Cavalhadas que realmente foi no tempo de D. João IV, século XVII, em 1652”, disse. Para Carla Abibe, esta candidatura representa mais um passo na valorização de uma tradição que continua a mobilizar gerações. “Estamos numa felicidade imensa”, sublinhou.






