
Ribau Esteves: incêndios têm um salvador, um culpado e um herói
Os incêndios florestais em Portugal têm no cadastro rústico, no eucalipto e no bombeiro, por esta ordem, um salvador, um culpado e um herói, disse hoje o presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC).
Na Figueira da Foz, litoral do distrito de Coimbra, na conferência “Incêndios Florestais: O Fogo Está A Mudar – E Nós?”, promovida pela papeleira Navigator, Ribau Esteves defendeu ainda a ideia de que, em Portugal, o negócio do fogo, que marca a má notícia, tem de passar a ter menos importância do que o negócio da floresta, a boa notícia, na sua opinião.
“Arranjámos um salvador, mas que não vai funcionar. Mas, para manter a história bonita e o palco marcado pela má notícia, nós temos um culpado e temos um herói. Qualquer telenovela se alimenta infinitamente se tiver um salvador, um culpado e um herói”, argumentou.
“E esta história tem um salvador, que é o Bupi [o Balcão Único do Prédio, que permite registar e identificar terrenos rústicos], tem um culpado, que é o eucalipto, e tem um herói, que é o bombeiro. E aqui está o exercício base que faz com que, sistematicamente, a má notícia esteja no palco e o negócio do fogo tenha mais importância na comunicação e no peso político, porque não é assim na sua dimensão económica que tem o negócio da floresta”, vincou Ribau Esteves.
Num discurso incisivo e crítico de mais de 25 minutos, repleto de ironia e de sarcasmo, o presidente da CCDRC notou que, em Portugal, “há uma coisa que não falta, há uma coisa que sobra, sobra planeamento”, elencando uma série de planos existentes.
“A maior parte dos planos estão feitos para quem os fez, para fazer um visto na ‘checklist’ das obrigações legais e não exatamente para ser um instrumento que nos permite gerir melhor aquilo que justifica o planeamento e a base de assento da floresta, que é o território, voltamos sempre ao território”, considerou o também antigo autarca de Ílhavo e de Aveiro.
Sobre o território, Ribau Esteves apontou, então, o Bupi como o “salvador da pátria”, explicando porque é que “com tantos planos em cima deste território” Portugal não consegue “parar ou reduzir, a um nível baixo, a incidência dos fogos” florestais.
“Arranjámos um salvador, chama-se Bupi. Entendemos que o problema, afinal, é nós não conhecermos o cadastro, ou melhor, não conhecermos os donos do cadastro, não conhecermos os proprietários [dos terrenos rústicos]. E, então, vamos resolver o problema com o cadastro feito e a caracterização de quem é dono de cada uma coisa”, afirmou.
“Já toda a gente percebeu que não vamos conseguir”, enfatizou Ribau Esteves, estimando que o país atingirá, “talvez, na média (…) pelos 50%” de cadastro rústico realizado.
Essa percentagem, alegou, deriva do facto do financiamento da operação do Bupi, por via do “famoso PRR”, o Plano de Recuperação e Resiliência, estar a meses de terminar.
“A grande questão continua a ser o que é que o Estado faz, o que é que nós conseguimos, como país – o tal ‘nós’ do lema da conferência [de hoje] – fazer para agir sobre os tais 50% [de proprietários] que vamos continuar a não conseguir saber quem é”, manifestou.
Na sua intervenção, Ribau Esteves fez ainda uma curiosa dissertação sobre a denominação ‘fogos rurais’ – que passou, há anos, a ser usada – e que se recusa a utilizar.
“Eu sou engenheiro zootécnico, sou das ciências agrárias, e nunca vi nenhuma couve, nenhuma abóbora, nenhuma alface a arder”, ironizou o presidente da CCDRC, dizendo que a explicação para a nova denominação lhe foi transmitida por um técnico da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais: afinal, foi “uma coisa de marketing para tirar a dimensão negativa e a culpa de que o fogo é sempre da floresta”.
“Eu não adiro a isso. É importante saber que o fogo é na floresta, é na floresta de pinheiro, é na floresta de eucalipto, ou dizermos aquilo que nos envergonha a todos: é que a maior parte da área ardida, sistematicamente, ano após ano, é nos territórios abandonados, é fogo de mato. E dá um bocado a noção de terceiro mundo a um país, se nós dissermos a verdade, e chamarmos ‘fogos de mato’ dá um ar horrível, mas é a verdade objetiva”, declarou.








