
Colégio da Imaculada Conceição é abrigo para peregrinos de Fátima
Promete-nos a Bíblia que “a fé move montanhas”. Para muitos peregrinos, é apenas este sentimento que continua a puxar pelo corpo quando as pernas já pedem descanso e que adia a desistência perante as dores, o cansaço, as lágrimas e os quilómetros que parecem não diminuir.
O caminho até ao Santuário de Fátima é, também para muitos, um percurso de oração, promessas e alguma esperança. Há quem caminhe para agradecer, há quem caminhe para cumprir uma promessa feita em silêncio, há quem peça um milagre e algum alívio.
E é precisamente depois de cerca de 100 quilómetros que um grupo de peregrinos de Vila Real encontram, em Viseu, um lugar para parar, recuperar forças e continuar caminho. No Pavilhão Multiusos do Colégio da Imaculada Conceição, dezenas de voluntários garantem apoio permanente aos peregrinos que seguem em direção a Fátima, oferecendo descanso, alimentação, cuidados de saúde e, acima de tudo, algum aconchego depois de longas horas na estrada.

Contou-nos a presidente do Movimento da Mensagem de Fátima (MMF), da Diocese de Viseu, que este é o primeiro ano em que o acolhimento acontece neste espaço. Habitualmente instalado no seminário, o posto de apoio precisou de encontrar uma alternativa devido às obras que decorrem no edifício.
“Foi um bocadinho complicado encontrarmos um espaço. A irmã abriu-nos a porta e mostrou toda a disponibilidade para nos apoiar”, explicou Isabel Martins, ao Diário de Viseu. A adaptação fez-se quase em contrarrelógio, mas permitiu criar uma estrutura capaz de responder às principais necessidades dos peregrinos.
“Dá para eles fazerem os duches e para terem os cuidados de enfermagem, além das refeições. Por exemplo, já está aqui a nossa cozinheira a fazer uma sopa nutritiva”, disse. Nos quatro dias de funcionamento, adiantou, o movimento espera apoiar cerca de 500 peregrinos. Muitos chegam em pequenos grupos, outros em peregrinações organizadas vindas sobretudo da região mais a norte, como Vila Real e Lamego.
Alguns param apenas para comer e descansar algumas horas. Outros acabam por pernoitar antes de retomarem caminho ainda de madrugada. Por trás desta grande operação estão mais de 50 voluntários, entre estudantes, enfermeiros, fisioterapeutas, médicos e antigos peregrinos que decidiram continuar ligados à caminhada de outra forma.
“Há muitos que iam a pé e deixaram de poder ir por razões de saúde. Agora vêm ajudar, é uma forma de retribuir”, refere a responsável. O feedback, garantiu, repete-se todos os anos. “Ficam encantados com a resposta que têm e nós damos de coração”, concluiu Isabel Martins.

Entre chegadas e algumas partidas, conhecemos o padre João Costa, responsável pelo grupo vindo da Diocese de Vila Real. Habituado a fazer o caminho até Fátima, e também até Santiago de Compostela, o sacerdote garante que cada peregrinação acaba por ser diferente. “Cada peregrino traz tantos tesouros no coração, tantas intenções. E nós acabamos por caminhar todos juntos”, contou ao nosso Jornal.
Mais do que guiar o grupo, prefere sentir-se como parte dele. “Durante este tempo também me sinto peregrino”, admite. Pelo caminho, há espaço para oração, silêncio, conversas e partilha. “Rezamos o terço juntos, celebramos a eucaristia e caminhamos lado a lado, seja nos momentos de alegria ou nos mais difíceis”, confessou.
No grupo há quem caminhe por promessa, quem procure reflexão e quem encontre nestes dias uma forma diferente de parar a rotina. “Há pessoas que vivem esta peregrinação quase como férias. É quase um tempo fora do tempo”, disse. As histórias multiplicam-se ao longo do percurso. Há peregrinos habituados ao percurso como uma mulher com mais de 70 anos que vai já na 25.ª peregrinação a Fátima. Mas há também quem caminhe por perdas recentes e intenções mais difíceis de explicar.
À medida que os quilómetros se prolongam, surge o desgaste físico, o cansaço e os desafios da convivência. Uns caminham mais rápido, outros precisam de parar mais vezes. “Manter o espírito de grupo e a delicadeza entre todos também é exigente”, reconhece.
Ainda assim, é precisamente nesses momentos que se criam laços e, por isso, recorda uma imagem que lhe ficou do caminho: “Uma jovem ia a tirar pedras do chão para facilitar o caminho aos peregrinos que tinham bolhas nos pés”, sorriu.








