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Um bom vinho faz bem quando bebido com moderação e em boa companhia

As Tertúlias do Fontelo, uma iniciativa da Comissão Vitivinícola Regional do Dão, começaram com Adalberto Fernandes. O ex-ministro da Saúde não fugiu às perguntas, mesmo com rasteira, e até reconheceu que é preciso recuperar o tempo da conversa entre amigos à volta de um copo de vinho

Saúde e vinho… do Dão. Um casamento que, como qualquer outro, pode ser feliz se houver moderação e respeito.

E por isso, a conversa começou com saúde, viajou pelos diversos problemas com que se debate hoje a sociedade portuguesa, onde o envelhecimento é uma preocupação, mas também pelas crises de “um mundo influenciado por um miúdo de 80 anos”, e terminou com um copo de vinho. Daqueles que, como o presidente da CVR Dão afirmou “são produzidos na região, às vezes com dificuldades, mas com uma grande qualidade”.

“Podemos ter o orgulho de saber que produzimos nesta região grandes vinhos que fazem parte da nossa cultura e é com muito orgulho que os apresentamos”. Manuel Pinheiro dava assim o mote para a primeira Tertúlia do Fontelo, no Solar do Vinho do Dão, que contou com Adalberto Campos Fernandes, antigo ministro da Saúde, para falar sobre a saúde em Portugal. Não sem antes adiantar que “a região tem vinhos de muita diversidade que são uma parte da cultura e como tal devem ser defendidos”.

“Quando nos querem aumentar os impostos dizemos calma porque criamos emprego no interior e o vinho faz parte de quem nós somos, nós criamos desenvolvimento e exportação e o vinho faz parte da sociedade que nós somos e queremos ser”, disse, afirmando que “ao mesmo tempo é preciso perceber que o vinho é álcool e portanto há que ter a responsabilidade de não o temer mas de o conhecer”. Ou seja, “porque o vinho nos dá prazer temos de beneficiar dele com responsabilidade”.

“Podemos ter o orgulho de saber que produzimos nesta região grandes vinhos que fazem parte da nossa cultura e é com muito orgulho que os apresentamos”

Um dos homens que mais sabe de saúde

Com um currículo profissional que não precisa apresentação, Adalberto Campos Fernandes foi o convidado desta primeira tertúlia, cabendo ao presidente da Câmara de Viseu a responsabilidade de o apresentar. “Um homem que sempre respondeu com firmeza e disciplina, às vezes até, demasiado pragmático para quem, como nós autarcas, estamos sempre a pedir e a exigir de forma sedutora”, avançou João Azevedo, adiantando que se trata de “um homem de compromisso, livre, isento e independente” no que à saúde diz respeito.

“Predicados” a que acrescentamos o humor. Um humor inteligente, por vezes, provocante, numa conversa sem filtros onde não poupou aplausos a um Serviço Nacional de Saúde sem igual no mundo.

E tudo se conjugou para que esta primeira tertúlia fosse um sucesso. Uma sala cheia num dos mais bonitos solares de Viseu, numa das cidades mais felizes da Europa, no Dia Mundial da Felicidade e um convidado apaixonado confesso por Viseu.

“Num tempo em que estamos minados pela crispação e por sentimentos sociais crescentes de fratura, divisão e de ódio e também por um mundo influenciado por um adolescente de 80 anos, ouvir dizer no nosso país, que os últimos 50 anos foram uma vergonha, é um insulto para os nossos pais e para os nossos avós”, sublinhou Adalberto Campos Fernandes.

Tertúlia Vinho Do Dão Cvr
Manuel Pinheiro, Adalberto Campos Fernandes e João Azevedo na primeira tertúlia onde se falou de saúde com experiência e conhecimento do que está mal e bem

Pobreza e doença de mãos dadas

Reconhecendo que é verdade que não se fez tudo o que devia ter sido feito e que faltámos aos nossos filhos que hoje têm uma carga fiscal inaceitável e podiam ter melhores salários, o convidado aplaudiu alguns dos ganhos alcançados. E os exemplos são vários como sendo a mortalidade à nascença ou o aumento da esperança média de vida.

“Em 1964, por cada mil nascimentos nós tínhamos 32, 33 crianças que morriam à nascença. Hoje temos menos de três. A juntar a isso, aumentamos a esperança de vida em 20 anos”, sublinhou. Mas, ainda que se tenha ganho a batalha dos anos, considera que não se ganhou a qualidade dos anos e Portugal é o segundo país mais envelhecido da UE e doente.

Por isso o desafio dos próximos anos não é acrescentar mais anos à vida, mas sim chegar aos 78, 79 “lendo, ouvindo música, fazendo caminhadas a pé, alguns de bicicleta” e, em simultâneo “trazer a longevidade para a economia”.

“Se a carreira contributiva for de 35 a 40 anos, o tempo entre a vida que passamos a estudar e o que passamos na aposentação é mais do que o tempo da vida ativa”, afirmou, avisando que “Portugal terá em 2060 uma população em que 35% tem mais de 60 anos e em consequência, uma economia inviável, porque a população ativa não gera valor para suportar os inativos”.

Onde falhámos? “Na educação e no combate à pobreza. Estamos em 2026 e se eliminarmos as transferências sociais, quase 40% da população portuguesa vive a abaixo do limiar da pobreza”, respondeu.

“Somos o último dos ricos e o primeiro dos pobres”

Portugal está nos primeiros 25% das economias mais ricas do mundo - em 200 países somos a 44.ª economia. Na Europa somos o último dos ricos e o primeiro dos pobres. Em indicadores de saúde, estamos entre 15.º e o 18.º lugar. E na educação estamos em 35.º lugar.

“Nós temos em saúde metade dos portugueses com cuidados a mais e outra metade com cuidados a menos. Cada português paga por ano dois mil euros para o SNS. Uma família tipo, pai, mãe e dois filhos, contribui obrigatoriamente com oito mil euros através dos impostos”, avançou, avisando, sobretudo os mais novos, que o SNS é um bem de que nunca devem desistir. Porquê? “Porque a prontidão existe e o pagamento é feito antes de nós precisarmos dos cuidados”, responde.

Mas depois há quem tenha ADSE ou um seguro privado de saúde, o que faz com que algumas famílias gastem hoje, com saúde, 13 a 15 mil euros por ano. “Um sueco gasta metade”

“Nós temos um dos melhores serviços públicos de saúde do mundo e não digo isto por ter sido ministro da saúde. Mas sim porque temos uma das melhores formações médicas e de enfermagem do mundo”, garantiu.

Quanto ao álcool, Adalberto Fernandes aponta o seu peso na cultura portuguesa. “Eu sou fundamentalista contra o tabaco, mas quanto ao álcool, considero que, sobretudo o vinho, com moderação, é uma bebida social, com um aporte calórico e nutricional útil e importante mas que, como tudo na vida, depende do bom senso e da ponderação de cada um”, respondeu, adiantando que Portugal é como é. “E a tradição tem o fado, tem o vinho tinto, tem o folclore, até tem as touradas”.

Abril 6, 2026 . 11:30

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