
“Quero tornar o concelho totalmente autónomo ao nível do sistema de água”
Quais são os seus projetos-âncora para o atual mandato?
Além de ter assumido que todos os projetos que transitavam do Portugal 2030 e que vamos ter que concluir, o nosso projeto âncora é a água. Esse é o nosso principal objetivo, tornar Penalva do Castelo totalmente autónomo no sistema de água. Obviamente que nunca abdicaremos dos nossos 3% da barragem de Fagilde, mas pretendemos que esta seja para nós uma redundância C. Nós temos o rio Dão como opção A, temos o rio Côja como opção B, já estamos a construir a nova ETA para tratar a água desse rio. E depois temos Fagilde como a opção C, sendo certo que de Fagilde é muito mais fácil colocar a água na freguesia de Pindo e Luzinde, porque nós neste momento já a conseguimos colocar tanto do rio Dão como do rio Côja nessas freguesias. Esta é a nossa grande obra. Requalificámos, nos últimos 8 anos, 13 açudes no rio Dão e no rio Côja. E agora temos uma candidatura para meter no Pró-Rios – Programa de Ação para o Restauro Ecológico de Rios e Ribeiras, para mais 13 açudes, e com esses ficará concluído o rio Dão e o rio Côja, não só na vertente de abastecimento de água, mas no incentivo à agricultura, ao turismo, ao combate aos incêndios, à biodiversidade, à reativação dos moinhos tradicionais, à construção da praia fluvial. Esta praia só será possível porque temos água a montante que nos vai permitir, nos meses de verão, garantir o caudal nessa praia, porque no dia em que ela baixe 20 centímetros, a água pára e já não tem condições para ser utilizada.
Em termos hídricos, o concelho vai ficar totalmente de cara lavada?
Será a nossa grande bandeira, deixar para as gerações futuras a garantia de que a água não faltará no nosso concelho.
E qual será o aproveitamento turístico dessa situação?
Já há alguns investimentos junto ao rio Dão e ao rio Coja, nomeadamente no alojamento local. Pessoas que estão a tentar potenciar a água, que a água é a vida, estão a tentar através da água potenciar os seus investimentos. Em Vilar do Dão já há mais um alojamento local com seis camas. Há nos Ferreiros um estrangeiro que também já comprou uma casa abandonada para potenciar para o alojamento local. Nós temos a noção que este corredor do rio Dão e do rio Coja, com a requalificação e com a vida que os rios vão ganhar, será uma alavanca muito forte para o turismo da região.
Afirmou na sua tomada de posse que pretendia captar mais investimento para as zonas industriais e para o comércio local. Que medidas vai promover para cumprir este desiderato?
Aquilo que nós pretendemos para dinamizar o comércio local é tentar atrair para o concelho mais pessoas. Quanto mais pessoas nós tentarmos atrair para o concelho, mais fixação haverá. Isto fica englobado numa situação que eu sinto. Nós também já estamos a avançar, já levámos à reunião de câmara, para construirmos um loteamento na Santa Ana, que são entre 14 e 16 lotes, vai agora avançar o projeto, para colocarmos à venda para famílias com menos posses, a custos controlados. Portanto, iremos colocar 16 lotes à venda para tentar fixar mais pessoas. Também, nessa lógica de que quanto mais pessoas houver no concelho mais o comércio local será dinamizado, vamos fazer o loteamento da zona envolvente da Cabral, porque ele existe, foi construído fisicamente, mas o loteamento, em termos legais e em termos administrativos, nunca foi executado. Nós vamos executá-lo, vamos adaptá-lo e também vamos colocá-lo à venda. Obviamente, que não será a custos controlados, porque, como percebe, é uma zona nobre da vila e, portanto, a vila crescerá, haverá mais oferta para a habitação, mas, sendo certo que não será a preços tão acessíveis.
E em relação ao comércio?
Dinamizar o comércio local é trazer a feira semanal de onde ela se encontra neste momento. A feira está a morrer, foi deslocalizada, está num sítio de difícil acesso e nós vamos voltar a trazê-la para o meio da vila, onde sempre funcionou. Ela será aqui nesta zona da câmara. Portanto, iremos tapar uma rua a duas à sexta-feira, como se faz em outras cidades. Em grandes cidades europeias fazem isso, fecham ruas para fazer os mercados, porque nós temos consciência que, neste momento, o mercado está a morrer, o mercado municipal e a feira também. Então, juntando as duas coisas, dando mais vida ao comércio local, a toda a envolvente, porque as feiras sempre foram um local de encontro e o encontro das feiras em todos os lados, em todas as regiões do país foi sempre nos centros das vilas e das cidades. Penalva do Castelo, até 1957, sempre foi conhecida como Castendo, e ainda hoje os mais antigos dizem que vão à Feira de Castendo, que sempre foi uma referência na região. E, portanto, nós, ao trazer a feira para o meio da vila, vamos voltar a reativar a Feira de Castendo, para promovermos os nossos produtos endógenos, o queijo, a maçã e o vinho. Nós, nestes últimos 12 anos, transformamos a festa do queijo numa feira do queijo virada para a economia local. É um dia em que se transaciona não só o queijo, mas a maçã, o vinho, os enchidos, as compotas, o artesanato. Portanto, iremos tentar dinamizar cada vez mais essa roupagem.
José Laires tem estratégias delineadas para a habitação, turismo, eventos, captação de investimento privado e fixação de jovens no concelho
Como poderá potenciar ainda mais o vinho da região para o exterior?
A nossa maior alavanca económica no concelho, no setor primário, é o vinho, é o produto que tem mais expressão. Vamos tentar fazer uma feira do vinho que potencie ainda mais essa marca que temos. Nós fazíamos, em agosto, uma festa do vinho, juntávamos aqui os produtores, mas não é isto que nós pretendemos, pretendemos uma iniciativa que dê dinâmica ao setor do vinho e que traga potenciais compradores. Também teremos como objetivo candidatar Penalva, e já percebemos que não vamos conseguir sozinhos, teremos que fazer uma parceria com Nelas, Mangualde e Viseu, a região a Cidade Europeia do Vinho, que é uma iniciativa da Associação dos Municípios Portugueses do Vinho, da qual eu faço parte. Aceitei integrar a direção da Associação Nacional dos Municípios do Vinho, tentando que todos percebem que sendo o vinho a maior alavanca económica deste concelho, nós temos que fazer alguma coisa direcionada para o vinho, tal como fazemos direcionado para o queijo e a maçã. Sendo certo que o queijo e a maçã não têm problema de escoamento de produto. O queijo da serra da estrela que se produz está todo vendido, não chega, e a maçã Bravo de Esmolfe é exatamente igual. Portanto, teremos que nos direcionar para o vinho, para que ele tenha expressão e para que os nossos produtores tenham mais rentabilidade e para que haja mais jovens a dedicarem-se ao vinho.
Em que ponto estão os projetos que transitaram do mandato anterior?
Em relação ao que já temos inscrito no Portugal 2030, num total de 4,75 milhões de euros de fundos comunitários, que transitam do mandato anterior, vamos elaborar vários projetos, como a construção do auditório municipal, os espaços verdes envolventes ao edifício da câmara, as requalificações do pavilhão municipal e da escola básica e secundária, a construção da praia fluvial do Vais, no rio Dão, e a área de acolhimento empresarial de Germil. São todos para executar neste mandato, através do Portugal 2030. O auditório já tinha um terreno destinado para a sua construção, só que o Portugal 2030 só o aprova num edifício a requalificar e classificado como, no mínimo, de interesse municipal. Portanto, estamos em negociações para adquirir esse edifício, para que depois possamos fazer o projeto e fazer a candidatura até 31 de outubro. Temos o estudo para o espaço verde da câmara, já temos o projeto para a requalificação do pavilhão municipal e vamos meter já a candidatura, a escola secundária passou para o programa BEM – Beneficiação de Equipamentos Municipais, vamos poder alocar uma verba de 1,67 e dividi-la por outras rubricas do Portugal 2030. Quanto à área empresarial de Germil, tínhamos um problema com os terrenos de um particular, mas decidimos dispensar o terreno e a área vai avançar na mesma.
Também falou, na sua tomada de posse, que o concelho tinha uma margem de crescimento enorme. Em que setores é que entende que existe essa margem de crescimento?
No turismo, por exemplo. Penalva é um concelho com um potencial de turismo enorme. Não só pelos rios, mas pelas paisagens e pelo património arquitetónico. Pela nossa localização, que eu costumo dizer, perto de tudo, porque estamos a 7 kms da A25. Assinámos uma moção, com outros municípios da CIM Viseu Dão Lafões, para a conclusão do antigo IC12, agora chamada A35, e que daria uma dinâmica diferente a esta região. É fundamental que esse projeto estruturante avance para desenvolver a nossa região e dar mais atratividade às nossas zonas industriais. Em relação à nossa zona industrial, entendemos que está deslocalizada, em 12 anos estão ocupados 5 lotes, só um deles é de uma fábrica que tem 6 empregados, a outra é de uma mini serração, a outra um armazém, uma empresa de transportes, portanto, não tem expressão, a zona industrial não teve a verdadeira atratividade na lógica da criação do emprego. Mas com a zona industrial de Germil será diferente, porque está a apenas 3 km da A25 será muito mais atrativa. Depois temos também, no PDM, uma zona à saída da vila, três hectares de propriedade da câmara, que já estão no PDM em zona empresarial e que se houver alguma empresa interessada, nós facilmente também conseguimos ali construir um espaço para que essas empresas se instalem. Para a indústria, esta é a nossa estratégia.
O mais importante é conseguir atrair o investimento privado?
Esse é o objetivo, conseguir atrair o investimento privado. A câmara, nos últimos 12 anos, conseguiu, no aspeto do urbanismo, do licenciamento, que é muitas vezes uma das deficiências de alguns municípios e do país, aprovar os projetos com uma celeridade que é considerada uma referência na região. Portanto, isso é um incentivo a quem quer construir em Penalva do Castelo. O concelho tem crescido também na questão demográfica, nos últimos dois anos houve um crescimento de 374 pessoas, e certamente que este ano continuará a crescer, há mais alunos nas escolas, tivemos mais de 129 alunos nas escolas no ano passado. Temos alguns emigrantes a regressar, normalmente já na reforma, ou perto da reforma, alguns ainda regressam também para instalar pequenos negócios, pequenas empresas, e, portanto, nota-se que Penalva tem mais vida, tornando-se mais atrativa.
Que estratégias vai adotar para fixar os jovens no concelho de Penalva do Castelo?
Uma das nossas bandeiras é a aposta na formação dos nossos jovens. Nós temos uma disciplina curricular da música, por exemplo, que custa 100 mil euros por ano, e que teve 67 alunos no ano passado, tem 72 este ano. No desporto, também aprovámos no final do ano um contrato de programa, na CCDR, para a construção de um novo campo sintético na Cerca, porque neste momento há 220 jovens a praticar desporto e só tínhamos um campo, já estavam a ser deslocalizados para treinar em Sezures. É um projeto de 650 mil euros, que será financiado em 50%. Em termos de ensino profissional, os jovens, quando acabam o 9.º ano, têm aqui duas disciplinas, a hotelaria e a eletricidade. A gestão da formação depende do Ministério da Educação e aquilo que hoje tem alguma dificuldade é o número de alunos para constituir uma turma. Um número mínimo de 16 ou 18 alunos para os cursos arrancarem em concelhos de baixa densidade, é puxado. Mas vamos aumentar o incentivo para os alunos do ensino superior, vai passar de 1.000 para 1.500 euros e haverá apoio para todos. Entendemos nós que todos são cidadãos de Penalva, todos têm direito à sua formação, independentemente da sua condição económica, também temos que reconhecer que aqueles que mais condição económica têm são os que mais impostos pagam, e portanto nós vamos pôr acesso ao ensino superior igual para todos. Estamos a alterar o regulamento, em breve será também colocado em prática. No apoio à natalidade, será igual. No mandato de 2017/21 era de 500 euros, depois passámos para mil no mandato seguinte e agora vamos aumentar novamente no mandato atual. Será uma forma de incentivar a natalidade para que o nosso concelho continue vivo e que o crescimento demográfico continue a ser acentuado.
“O concelho tem registado mais população, mais alunos e temos emigrantes a regressar. Penalva tem mais viva, está mais atrativa”
Encontrou a câmara como boa saúde financeira?
Sim, eu estava na câmara e sei que esta estava de boa saúde financeira. Tínhamos um empréstimo de 200 mil euros, quase não tem significado, e todos os compromissos que nós tínhamos assumidos estão comprometidos e cabimentados, portanto, a situação da câmara é estável e que nos permite, em qualquer altura, fazer um empréstimo, nomeadamente para a requalificação de infraestruturas rodoviárias.
Não terá problemas em endividar a câmara se isso contribuir para o desenvolvimento do concelho?
Seremos sempre um município de contas certas, mas se tivermos que recorrer a um empréstimo vamos avançar mas para projetar para o futuro, para investimentos no futuro.
De que maneira é que irá trabalhar para cunhar este seu primeiro mandato como o primeiro de José Laires e não o quarto do Francisco Carvalho?
Foi o Francisco Carvalho que me foi buscar em 1997 para vir para o PS. No fundo, como que me deu uma parte da herança que o meu pai deixou. O meu pai era militante do PS, já era militante antes do 25 de Abril, mas eu não ligava nada à política. Mas o meu pai sempre foi muito ativo politicamente. Foi com esse argumento que o Francisco Carvalho me foi buscar. Em 2001, convenceu-me a concorrer à junta e eu ganhei, depois vim com ele para a câmara em 2013 e trouxe-me até aqui. Agora, uma coisa é certa, ele é uma pessoa e eu sou outra. Quem me conhece sabe que reconheço ao senhor presidente o rigor, o empenho, a dedicação que ele também tem a esta terra, uma pessoa que nunca saiu daqui e que investiu cá muito. Isso eu herdo do Francisco Carvalho. Somos pessoas diferentes. Se calhar eu sou uma pessoa mais ligada, uma pessoa de mais proximidade, eu sempre andei na rua, mais diretamente ligada aos problemas à proteção civil, ao ambiente, em resolver os problemas.
Não é um presidente de gabinete?
Não sou muito um presidente de gabinete, sou presidente que vou onde tiver que ir, seja à hora que for, portanto, continuarei assim. Tive, durante o mandato anterior, na linha da frente da Covid, por exemplo, andei durante dia e noite a entregar medicamentos, a entregar comida, toda a gente se meteu em casa e eu continuei sempre na rua. Portanto, somos pessoas diferentes, mas com um objetivo comum, que é transformar a nossa terra, como eu costumo dizer, eu vim para aqui para tentar construir o melhor Penalva de sempre e é isso que eu irei fazer. Durante este primeiro mandato, vou aprovar o máximo de obras possíveis, aprovar o máximo de projetos possíveis, alterar algumas coisas, já alterávamos, por exemplo, o Natal Vila Encantada, demos uma dinâmica mais virada para as crianças, vamos dar um cunho diferente aos eventos. Fiz parte do executivo municipal durante 12 anos, fui vice-presidente e tive uma carrada de pelouros. Durante estes quatro anos, com a equipa fantástica que tenho, não vou querer um sistema presidencialista, nós somos três pessoas a gerir uma câmara e vamos fazer tudo em conjunto. Sempre trabalhei assim, foi assim também nos meus mandatos na junta de freguesia, e assim continuarei a fazer.
“Toda a gente fala e se preocupa com o interior, mas quando acabam as eleições nada acontece.
Os únicos que fazem efetivamente alguma coisa pelo interior são os autarcas”
O seu projeto autárquico está preparado para os três mandatos permitidos pela lei?
Eu vim para a câmara com o propósito de fazer todos os dias o melhor que possa fazer por Penalva e pelos penalvenses. Não lhe vou dizer que não tentarei ficar 12 anos, mas gostaria pelo menos de ficar 8 para concluir o Portugal 2030, gostaria de concluir todos estes projetos do Portugal 2030, gostaria de concluir a requalificação dos açudes e deixar Penalva preparado para o futuro, portanto gostaria de estar pelo menos 8 anos. Depois, o futuro a Deus pertence, mas há uma coisa que é fundamental, e eu digo isto todos os dias, enquanto eu tiver capacidade, enquanto eu me sentir com força, com vontade para vir trabalhar todos os dias e para todos os dias fazer o melhor, eu estarei cá. No dia que eu sentir que as minhas faculdades não estão na sua verdadeira plenitude, eu também saberei sair, não preciso que ninguém me empurre, porque estou há 24 anos seguidos nas autarquias e, portanto, gosto daquilo que faço. Eu não sou político, sou autarca, o meu único objetivo é este, e portanto estou aqui porque gosto, sabia para o que vinha, estava preparado para o que vinha fazer, senão também não me teria candidatado, tinha plena consciência de que a minha experiência destes últimos 24 anos me iria ajudar a fazer o melhor mandato para todos, e foi por isso que eu me candidatei.
Sei que há muitos problemas que têm de ser resolvidos, porque 80% do país são concelhos de baixa densidade, são 165 concelhos, mas 90% do PRR está a ser gasto nos outros 20% do território nacional e esses têm muito maior representatividade na Associação Nacional dos Municípios Portugueses. Toda a gente fala do interior, todos os partidos falam do interior, todos os grandes decisores políticos falam do interior, mas depois quando acabam as eleições nada acontece. Os únicos que efetivamente fazem alguma coisa pelo interior são os autarcas, que cada vez têm mais responsabilidades.








