
Peça doada ao Museu Nacional Grão Vasco tinha o estrangeiro como destino
Paulo Pinto de Albuquerque, jurista, académico e antigo juiz do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, que doou um crucifixo com calvário do século XVII ao Museu Nacional Grão Vasco, revelou, durante a assinatura do protocolo de doação, que, “além do fascínio pela peça”, o objetivo da aquisição foi “resgatá-la ao seu destino mais certo, que era sair do país”.
Defendendo que “ela pertence ao povo”, decidiu doá-la, optando pelo Museu Nacional Grão Vasco, porque acredita ser possível “ressuscitar esta peça enquanto peça histórica”. “Ela foi doada com uma condição fundamental: não sai do museu. É a única condição. Não pode ser emprestada a outro museu”, sublinhou, referindo que cabe agora “estudá-la, documentando esse estudo”, com vista à sua possível classificação como tesouro nacional.
Odete Paiva, diretora do Museu Nacional Grão Vasco, destacou que a peça “dá uma expressão maior ao mundo dos marfins” já existente. Referiu ainda que qualquer diretor sentir-se-ia “absolutamente abençoado” por receber “uma peça desta grandiosidade e qualidade e oferecida desta forma”.
O presidente do conselho de administração da Museus e Monumentos de Portugal, Alexandre Pais, considerou que o crucifixo com calvário agora doado “é, de facto, uma peça de todos”, sublinhando que a função dos museus é que “todas as peças sejam para todos”.
“Pode ter a certeza que ao estudar a peça, as peças crescem. Crescem no sentido que o estudo acrescenta significado, acrescenta valor”, destacou.
O conjunto agora incorporado no museu é composto por um Cristo Crucificado em marfim do Ceilão (Sri Lanka) e um amplo Crucifixo e Calvário em ébano de Goa. A peça, com 170 cm de altura, destaca-se pelo extraordinário naturalismo do Cristo — datado das primeiras décadas do século XVII — e pelas características distintivas dos marfins produzidos no Oriente. O conjunto integra ainda 22 relíquias de santos, inseridas em pequenas virolas metálicas com vidro, preservando a sua função devocional original. No compartimento central, um medalhão em cera representa o Agnus Dei, reforçando o simbolismo teológico da obra.
Considerada por especialistas uma das mais notáveis esculturas em marfim conhecidas em Portugal, a peça singular pertenceu à Igreja do Corpo Santo, do extinto Convento da Senhora do Rosário, em Lisboa, fundado no século XVII por dominicanos irlandeses. Após a saída definitiva dos monges dominicanos de Portugal, em 2021, a obra foi adquirida por um antiquário e mais tarde, em 2024, por Paulo Pinto de Albuquerque, que agora a entrega ao Museu Nacional Grão Vasco.








