
“Os últimos quatro anos foram anos perdidos em que nada se concretizou, foi tudo provisório”
Diário de Viseu: Concorreu à câmara em 2013, contra Almeida Henriques, e concorre agora contra Fernando Ruas. Passados 12 anos, que diferenças encontra na cidade?
Hélder Amaral: Almeida Henriques colocou o enfoque no marketing territorial, na captação de indústria. Ruas sempre preferiu ter uma cidade de serviços, sem grandes indústrias poluentes e pesadas, como existem nos concelhos limítrofes. Mas uma cidade não pode viver apenas de serviços, porque depois está sempre sujeita aos fluxos e crescimentos económicos. Nós ou temos massa crítica, temos consumidores internos, ou então vai ser difícil termos desenvolvimento económico. Precisamos ter indústria. Eu olho para duas ou três empresas de alta tecnologia, com empregos de média/alta qualificação, não poluente, que se calhar, podiam estar em Viseu, até porque precisam de mão de obra qualificada. No tempo de Almeida Henriques, havia um vereador específico para captar investimento, que era o dr. Ângelo Vidal, algo que era em si mesmo uma crítica ao anterior mandato. Mas não podemos conceber que haja um PSD bom e um PSD mau em Viseu e considero que se deveria fazer justiça ao dr. Almeida Henriques, porque é uma ingratidão e uma falta de decência o que se tentou fazer à sua memória. Considero que o PSD tinha a responsabilidade, porque ganha há 28 anos com maioria absoluta, de pensar menos no partido e pensar mais na cidade.
Entende que esse trabalho foi descontinuado?
A minha perspetiva também era a do marketing territorial, a aposta nas smart cities, na criação de marcas. Por exemplo, as Cavalhadas são uma enorme e centenária marca, podíamos repeti-la no fim de semana, apoiar a instituição. A marca cidade-jardim vem do tempo do engenheiro Carrilho, que chamavam de “jardineiro”, porque sempre se preocupou com essa marca, tal como a do vinho, e agora Viseu é dos concelhos que pior trata o vinho. A marca que agora temos, criada pelo doutor Fernando Ruas, é a das rotundas, que são muito mais baratas que outras, mas qual é o seu retorno? Em Viseu, faz-se tudo pequenino, o nosso túnel é pequenino, porque Viseu não se quer comparar com as maiores cidades. Mas é o executivo que temos...
Defende a criação de um novo Mercado Local de Produtores. O atual não cumpre os requisitos?
Acho que não consigo encontrar nenhuma explicação objetiva para a não criação de um novo mercado, nem financeira, nem outra, a não ser a falta de vontade e a falta de respeito para com os pequenos produtores, nomeadamente com as aldeias rurais. A ideia existe, portanto o que existe é provisório, e se é provisório é porque está para surgir um outro. Os produtores deram-me nota que houve um modelo, conversado com eles e testado com eles, que era a recuperação do anterior mercado, que fica escondido mas eles gostaram do modelo. O dr. Almeida Henriques tinha, pelo menos, essa perspetiva de criar um novo mercado. Eu cheguei a defender, na Assembleia Municipal, que deveria ser localizado na nova central de camionagem, para se criar uma nova centralidade. A central, reconfigurada como está, serviria na perfeição para o mercado, até porque os produtores não querem sair do centro. Em Braga, por exemplo, requalificaram o mercado e hoje é um espaço largo, limpo, com praça da comida, com espaço para a cultura. O Bolhão é uma marca da cidade do Porto e foi completamente renovado. E não a pensar só para a população do Porto, mas a pensar para outros, porque esses mercados têm essa vantagem, têm a vantagem de manter o pequeno comércio e alguma atividade comercial de alguma expressão da cidade. Porque o mercado, além de ser um espaço de encontro da cidade e do concelho, das pessoas que querem uma alternativa à grande superfície, pode também ser um espaço de promoção cultural e de vida e de dinâmica das nossas freguesias.
Portanto, não ter um mercado municipal é algo que eu acho que só se explica porque estes últimos quatro anos, com o dr. Fernando Ruas, foram quatro anos perdidos, em que tudo é provisório. Nada se concretizou. E eu acho que a cidade e o concelho têm que fazer uma avaliação, se querem ter mais quatro anos adiados, porque para uma cidade isso poderá ser mortal. Portanto, não é justo para a cidade nem para os produtores não haver um mercado competente.
Como é possível achar que temos um executivo competente e de qualidade se o coração da cidade (rua Direita), está doente, decrépito e abandonado?
Outro dos pilares do seu programa é a reabilitação da Rua Direita e do centro histórico. Que soluções tem em mente para esse desiderato?
De ano para ano, há cada vez mais lojas fechadas, a rua está cada vez mais deserta, com menos pessoas a passar por lá também, porque as pessoas também se afastam daquilo. Como é que é possível achar que temos um executivo competente e com qualidade, se o coração da cidade, o centro da cidade, aquilo que define a cidade tal como ela é, está doente, está decrépito e está abandonado? Eu cresci com as pessoas a dizerem que Viseu era a Rua Direita. Era o nosso comércio. E Viseu deve muito aos seus comerciantes, mas hoje os comerciantes sentem-se completamente abandonados e de costas voltadas para o município. Não é nada contra os atores, mas tudo na vida precisa, de vez em quando, de alternância, de mudar, de outras perspetivas, de outras formas de olhar. Portanto, quando olho para a Rua Direita sinto uma profunda tristeza, ouço o lamento de tanta gente que, mesmo assim, ainda resiste. Se nós queremos ser uma cidade com turismo, temos de saber o que é que um turista procura. Procura a característica, a exclusividade, o carácter único de uma casa, de uma fachada, de um negócio. Portanto, nós só precisamos ser um produto turístico. Se mantivermos as nossas tradições, obviamente com, aqui e ali, alguma modernidade, com lojas diferenciadas, porque não podem ser sempre as mesmas. Várias cidades fizeram esse trabalho, como Guimarães, por exemplo. Porque se olhou para a situação e se encontrou soluções. E olhou-se a sério, investindo, fazendo o que a Câmara de Viseu está a fazer, que é adquirindo lojas devolutas, criando o conceito de lojas tradicionais, lojas que só funcionam naquele local, como o Cortiço, por exemplo. Se fecha o Cortiço, nós não perdemos só um restaurante simpático, perdemos património cultural e gastronómico. Vamos ter que proteger esse património, isentando-o de taxas, promovendo atividade naquela zona, como foi o caso dos Jardins Efémeros ou do Mosaico. Há que preservar o edificado, as fachadas, as lojas históricas e introduzir novos modelos de negócio, isentando-os de renda. É um custo inicial, mas o retorno económico dos negócios que vão surgindo, o retorno económico da vitalidade da rua e da vida da cidade, é incomensurável, é superior. A cidade precisa de preservar a sua marca, nós somos um destino turístico, temos um produto, mas é necessário ter todo o centro histórico vivo, com vida e com investimento, porque temos de atrair gente, algo que se faz com concertação, com os nossos vizinhos, com a CIM Viseu Dão Lafões, colaborando com todos. É preciso ter peso político para trazer os investimentos, é preciso ter visão estratégica e é preciso ter vontade. O facto de termos a Rua Direita como temos é o exemplo vivo, palpável e claro, da degradação da gestão autárquica do doutor Fernando Ruas.
No centro histórico, há que preservar o edificado, as fachadas, as lojas históricas e introduzir novos modelos de negócios, isentando-os de renda
Receia que, por falta de apoio às instituições de ensino superior, Viseu possa perder cada vez mais estudantes para outras cidades?
Não é só o apoio, não há nenhuma estratégia. Um município tem de ter uma palavra a dizer na saúde e na educação dos seus munícipes. Há um conjunto de competências que eles podem assumir. A educação é uma delas e eu acho que um país que não tem ouro e não tem petróleo, precisa de inteligência, capital humano e inovação. Uma cidade que se assume como a melhor cidade para se viver, no centro do país, bem servida de acessibilidades rodoviárias, falta a ferrovia, e com a qualidade de vida que tem, alguém vai ter que me explicar por que é que o Politécnico é dos piores na segunda fase da atração de estudantes, por que motivo a Católica já teve cerca de 3 mil alunos e agora tem 500, ou por que é que o Piaget, com todo o esforço que faz, não dispara? A culpa é da autarquia, obviamente, não é apenas do Governo Central. Perdemos a oportunidade de ter um polo da Universidade de Aveiro em Viseu, perdemos a universidade para a Covilhã, mas tivemos uma Católica pujante, com o Governo de Guterres a comparticipar nas propinas. E isso era um modelo tipo uma PPP do ensino, uma parceria. Eu acho que o modelo funcionou. Permitiu à Católica manter os seus alunos, permitiu Viseu ser ressarcido do facto de ter perdido a Universidade Pública e permitiu que os alunos terminassem os seus cursos. Eu acho que o Viseu tem que voltar a esse modelo, para não perdermos mais talentos, falando com a Universidade Católica para saber quais os cursos mais atrativos para a cidade dentro da sua oferta académica. A autarquia tem que ser um parceiro e tem de criar sinergias também. Com o Piaget, há que potenciar o investimento que está feito no aeródromo, daí a criação do cluster aeronáutico com a IFA e do prometido Comando Alternativo da Proteção Civil, que ficará lá muito bem localizado. Portanto, a autarquia tem de falar com o Piaget para saber de que forma o pode apoiar nestes projetos, no sentido de captar mais alunos e mais professores também, porque a concorrência é enorme. Eu quero uma escola sem partidos. É escola, é universidade, tem que ser de mérito, esforço e qualidade, sem ideologia. E o que a câmara tem que fazer é apoiar esse mesmo mérito, esforço e qualidade do ensino, para todos, porque é o único fator de desenvolvimento que faz o elevador funcionar. Acho que um dia, se a cidade crescer, se tiver sucesso, é inexorável que o Estado olhará para Viseu e pense que é das poucas cidades do interior que está a crescer em termos de população e que há necessidade, condições e massa crítica para criar uma universidade pública. Mas Viseu tem que ter outra dimensão e, para isso, o ensino é decisivo. Mas, para tal, é essencial que toda a gente se una em redor do mesmo objetivo, todas as forças vivas. Porque eu lanço um desafio às pessoas. Quando a Católica tinha 3 mil alunos, lembrem-se da dinâmica que a cidade tinha, com o The Day After a abarrotar, os cinemas cheios, os restaurantes lotados, a juventude a participar na vida ativa da cidade. A Católica foi o maior fator de desenvolvimento de Viseu enquanto teve força e capacidade.
Quando a Universidade Católica de Viseu tinha 3 mil alunos, lembrem-se da dinâmica que a cidade tinha. Foi o maior fator de desenvolvimento da cidade
Qual a sua opinião sobre o futuro Centro de Artes e Espetáculos de Viseu?
Não sei se precisamos de um novo Centro de Artes e Espetáculos. Se eu perguntar as pessoas vão dizer que sim. Mas precisamos mesmo? Com que dimensão? Quantas pessoas? Para preencher que vazio? Para qual oferta? Tudo isto tem que ser efetuado por quem sabe. E eu não sou daqueles que acham que sabe tudo. Mas a isto chama-se de visão estratégica.
“É estúpido discutir quem é dono da barragem de Fagilde”
Que medidas defende para resolver o problema da falta de água na região?
Apelar ao bom senso e para que não se faça política com aquilo que é sério e decisivo. Estamos a falar de um bem essencial e relevante para a nossa região. Houve uma providência cautelar por parte da Câmara de Mangualde, mas eu considero que eles deveriam ter vergonha. O PS devia ter alguma ponderação. E nesta matéria estou um pouco mais ao lado do dr. Fernando Ruas, porque acho que avaliou bem o problema. Nós não queremos voltar a ter falta de água e temos que encontrar soluções. O país definiu como prioridade, há uns anos, a água e por isso tinha um plano nacional de barragens. Quer para a produção elétrica, regadio e armazenamento. Mas depois havia apenas uma barragem. Eu nem vou atirar pedras a Girabolhos, sobre quem prometeu, quem falhou, quem não fez, para que é que servia. E acho que esta é mais uma razão por que o PS devia ter vergonha. Foi o PS que prometeu, que depois deixou de fazer, agora diz que é uma vergonha não ter feito. Nós temos que ter a barragem de Fagilde com capacidade de captar, armazenar água para estarmos salvaguardados. É o nosso sistema. É um sistema supramunicipal e assim tem que ser. Não tenho nada contra que em alta possamos aderir a um sistema mais resiliente que nos garanta que se algo falhar nós vamos continuar até água. Tem custos? Claro que tem, mas eu confio na ERSAR, que avalia os investimentos que as empresas fazem e qual é a parte do investimento que depois tem que ser vertido na fatura. Temos de controlar a que preço continuamos a pagar água. E isso é um trabalho que os municípios têm que fazer na defesa da sua população juntamente com a ERSAR, com os organismos que tutelam e com as empresas. Mas ficamos mais protegidos. Vamos ter um sistema redundante, mais resiliente que o da Águas de Viseu, e vamos ficar mais salvaguardados para o que possa acontecer no futuro. O que temos de fazer sempre é preservar a qualidade da água, a eficácia da distribuição e o seu preço ao consumidor. Agora, julgo que é estúpido estar a discutir quem é o dono da barragem de Fagilde ou quem é que manda nela. É uma falta de bom senso. É aquela política em que eu não me quero meter, em que cada um puxa para o seu lado.
“Viseu tem tudo para ser uma das melhores cidades do país”
Será possível criar uma sinergia suprapartidária em prol de projetos e concretizações para a região?
Em Viseu, só dois partidos geriram o município, portanto o CDS tem responsabilidades acrescidas. Nós pensamos essencialmente na cidade e como é que a deixamos ainda melhor para as gerações futuras. Mas entendo que estamos “condenados” a unir-nos e a trabalhar juntos para benefício de todos. E aquilo que digo para fora, também digo para dentro. Contados os votos, nós não deixamos de ser de Viseu e não devemos perder o foco porque estamos a competir com outras regiões e cidades. É também por isso que acho grave que o PSD, no fim de tantos mandatos com maioria absoluta, não tenha sido capaz de gerar dentro de si alternativas. O dr. Fernando Ruas, a quem eu acho que a cidade deve muito, a sua dedicação a Viseu e a seu serviço à causa pública, temos que reconhecer, mas que perdeu aquilo que acontece normalmente a quem está há muito tempo no poder. Estes últimos quatro anos são a prova disso. Ou nós nos unimos para termos massa crítica, voltar a chamar investimento, recuperando mais uma vez o que outras regiões fazem, para termos aqui instalação de tecnologia, empresas de novas tecnologias, ou nós não nos modernizamos. Eu tenho uma dívida de gratidão com Viseu, foi aqui que cresci, trabalhei sempre aqui e portanto sou uma pessoa grata à Viseu. Acho que tem todas as condições para ser uma das melhores cidades do país. Mas temos que ter uma estratégia de desenvolvimento local, de olhar para a Turismo Centro de Portugal, para as CCDR’s e as CIM’s. Temos de fazer esse esforço de concertação. É para isso que existem as CCDR´s e as CIM´s, é por isso que existem as Associações do Municípios, é por isso que existem inúmeros instrumentos de gestão. Mas depois falham as pessoas na pergunta que me fez. Eu quero acreditar que quem venha a ganhar a câmara não faça aquilo que normalmente se faz. Entre um fiel e um competente, emprega um fiel. Entre o partido e o interesse do município, fica o interesse do partido. E depois o que fazemos? Andamos nas freguesias e o que vemos é uma dor de alma, porque parece que ainda estamos nos anos 70 ou 80, não se avançou nada. E é por isso que é preciso começar a pensar e resolver o problema. Ganhe quem ganhar, a minha disponibilidade para ajudar Viseu, para colaborar com as grandes questões de Viseu, de todos os concelhos à volta e do distrito, é total. Como sempre fiz durante os meus 14 anos de Parlamento, não fiz outra coisa senão estar ao serviço. E portanto, quem ganhar contará sempre comigo para o que entender e para aquilo em que puder ser útil.








