
Zé Mágico estreia hoje espetáculo “Natureza-morta” no Carmo 81
Neste novo espetáculo, estará sentado à mesa com um baralho de cartas. De que forma vai fazer passar a ilusão para o público?
O público vai ver como se estivesse no cinema, com a tela a ocupar o palco quase todo, eu vou estar no lado esquerdo do palco numa mesa, que vai estar a ser filmada e a ser projetada em tempo real nessa tela. No fundo, o público vai assistir a um filme, ou a uma curta-metragem, o espetáculo ainda não está totalmente fechado, pode ter 35 ou 40 minutos, terá uma trilha sonora e parte da “Natureza-morta”, que nós associamos a um formato de pintura, de naturezas mortas. Aqui a proposta é olharmos para um quadro, que na sua composição teria duas mãos e um baralho de cartas, e a pergunta é “o que terá visto o pintor para ter pintado aquelas duas mãos e o baralho?”. Faço o paralelismo para quando vamos a um museu e olhamos para uma pintura e nos questionamos qual foi a inspiração do pintor para uma determinado quadro. Muitas das vezes não está na sinopse ou esta é muito breve, ou até mesmo o pintor nunca falou sobre isso. Neste caso, vamos ver um texto inicial no espetáculo e depois as mãos e o baralho de cartas ganham movimento como se fosse uma dança coreografada entre as mãos e o baralho.
As mãos vão falar por si?
Sim, eu não vou falar, é um espetáculo sem palavras, onde acontece uma série de efeitos e durante esses 35/40 minutos há uma série de efeitos, de ilusões, de sequências desenhadas esteticamente como se fosse uma coreografia, acabando exatamente na mesma posição, com o baralho todo organizado e as duas mãos a repousar ao lado. Aí, depois, se calhar, percebemos melhor por que é que o pintor quis pintar aquelas duas mãos, se calhar ele viu o mesmo que nós acabámos de ver. Isto parte de uma ideia de John Berger, que tem um livro intitulado “Modos de Ver” e uma série na BBC, onde introduz informações sobre os quadros que são analisados. Isto faz com que a perceção com que estamos a olhar para um quadro, a contemplar a obra, mude radicalmente em virtude dessa informação. A imagem que nos é colocada no início, das mãos a repousar e do baralho de cartas, quando as voltarmos a ver a nossa perceção é totalmente diferente, porque já sabemos a viagem que ela nos proporcionou e aí talvez percebamos melhor por que é que o pintor escolheu aquelas duas mãos.
Porquê no Carmo 81 e não noutra sala?
É uma questão de proximidade e de familiaridade. Em função do que é o espetáculo, a sala é adequada, a proximidade está garantida para com o público, a ligação com a associação cooperativa Carmo 81 também é próxima, o que facilita muito o diálogo. É também uma garantia de casa cheia, porque temos atingido sempre uma frequência de cerca de 80 pessoas, temos esgotado todas as sessões que promovemos e sentimos que é uma medida justa. O espaço adequa-se muito bem ao tipo de projeto, sendo que a proposta é serem espetáculos não tradicionais de ilusionismo, porque o espaço também não é tradicional, o Carmo 81 prima por uma diversidade de espaços.
Como ilusionista, é mais fácil preparar um espetáculo com cartas do que os outros em que tem de interagir com o público e fazer humor?
Eu acho que qualquer tipo de espetáculo é altamente difícil, cada um tem os seus benefícios e desvantagens. Este especificamente vai-me obrigar a estar numa zona que não é comum, que é eu usar a palavra e o humor, algo que quem conhece o meu trabalho já está habituado, no entanto dá mais trabalho, porque eu tenho de pensar num fio condutor, num conceito artístico por trás do espetáculo e é mais desafiante porque não são truques soltos. O espetáculo é sempre um conceito artístico que está pensado. Esta ideia do “Natureza-morta”, do quadro, da forma como o contemplamos, obriga a pensar no desenvolvimento deste conceito. Mas não é mais fácil. Como eu vou estar calado, não me posso socorrer das minhas “muletas”, o humor, a interação. Mas eu passo o ano todo a fazer isso e neste espetáculo faço algo diferente.
Que balanço faz dos espetáculos promovidos pelo Meta Magic até ao momento?
Estou muito feliz, porque foi um desafio de um conjunto de mágicos que queriam um sítio para atuar e eu consigo reunir um bom leque para agendar espetáculos até ao final do ano. Primeiro, de abril a junho, e depois de setembro a dezembro. São oito mágicos que já atuaram ou ainda vão atuar em Viseu, o desafio foi lançado por três deles, que não queriam limitar os seus espetáculos a Lisboa ou ao Porto. E eu pensei que poderia abrir um novo circuito. Os mágicos vêm à bilheteira e isto é importante, porque eles predispõem-se a vir até Viseu para mostrarem o seu trabalho, querem ir a outros sítios. O “feedback” que tenho destes meses é fantástico porque a sala esgotou sempre, há famílias e grupos que vão e ainda não deixaram de ir, são assíduos, e isso deixa-me muito feliz porque quer dizer que estão a gostar, que percebem a proposta, porque não há só um estilo dentro do ilusionismo, e as pessoas vêem estilos muitos distintos, e era importante as pessoas entenderem isso, para criarem opinião crítica sobre o ilusionismo.
Nesta fase da sua carreira sente que está no caminho certo, degrau a degrau, não queimando etapas?
Sim, estou muito contente porque tenho trabalhado de norte a sul do país e no estrangeiro. Estes espetáculos, que acabam por ter uma natureza mais artística, complementam e ajudam a procurar algo que eu também gosto de trabalhar. O meu estilo, e eu faço essa salvaguarda ao público, é que se estão à espera de ver o Zé Mágico habitual, no meu registo de humor, truques e efeitos, não é isso que vai acontecer no “Natureza-Morta”, que é uma proposta artística para a qual há que ter uma certa predisposição para a aceitar. Se alguém for ao engano, pode ficar desiludido ou pode ser surpreendido. Este espetáculo, como o “Hora Vazia”, que apresentei no Teatro Viriato, são propostas em que faço uma pesquisa de novas formas de levar o meu ilusionismo ao público, procurando uma nova expressão artística, porque não são só os efeitos e os truques, junta várias linguagens artísticas e isso acaba por ser uma nova forma de apresentação.
Começa a fidelizar-se um público em Viseu para espetáculos de magia e ilusionismo?
Sim, é fantástico observar isso. Salas cheias, mágicos de referência nacional e internacional e espetáculos todos os meses para criar esse hábito na cidade, através do Meta Magic.
Associação Portuguesa de Ilusionismo festeja 50 anos com gala em Viseu
Zé Mágico desvendou o que vão ser os próximos meses do Meta Magic, com uma grande novidade no final.
“Este mês, serei eu a protagonizar o espetáculo “Natureza-morta”. Em outubro, será a vez de Leandro Morgado, no dia 31. A 14 de novembro, o palco será de Francisco Mousinho e em dezembro, ainda sem data, para já, atuará André Nage. Em janeiro de 2026, no dia 9, também já temos agendado o espetáculo de José Marques. Depois, nos dias 28, 29, 30 e 31 de janeiro vamos ter três espetáculos, no Carmo 81, um deles com um campeão mundial, o Mário López, um mágico espanhol reconhecido mundialmente. Foi campeão mundial de magia em Micromagia na FISM 2015 em Rimini, Itália, virão três mágicos espanhóis. Decidi fazer uma sessão castelhana (risos) e então trago um estilo completamente diferente. O Mário López tem um vídeo com milhares de visualizações, é apenas ele com um cigarro, e foi precisamente com essa rotina que ele foi campeão mundial, tendo já atuado em mais de 50 países. No sábado, dia 30, vamos ter conferências com os três mágicos espanhóis. No dia 31, teremos a gala da API – Associação Portuguesa de Ilusionismo, que faz 50 anos e me contactou para ver se eu estaria interessado em celebrar o aniversário, em forma de gala, em Viseu, em conjunto com a grande mostra que vai ser o Meta Magic. Essa gala, no Dia Mundial do Mágico, será realizada no Mirita Casimiro, estando já tudo devidamente confirmado”.








