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“Venha ser feliz na maior feira do país”

A Feira de São Mateus abre hoje as portas para oferecer 46 dias de festa e de muitas experiências. Em entrevista ao Diário de Viseu, o presidente da Viseu Marca, Pedro Alves, fala da maior feira de sempre e de um dia de festival - o Mateus Fest - que faz a diferença no panorama cultural do território e do país

O que é que os visitantes podem esperar este ano na Feira de São Mateus?

Vão encontrar a Feira de São Mateus com alguma renovação que nos permite criar uma zona de reaproveitamento do espaço. Nós temos aqui 75 mil metros quadrados, mas dentro da cidade, o que não não nos permitir uma grande expansão e nos exige alguma criatividade para ir modificando e criar alguma novidade. Vão encontrar algum embelezamento do espaço, dando algum sombreamento também à feira para que se torne mais agradável ainda.

E o resto também já o ano passado procurámos, tanto do ponto de vista da segurança como do conforto no recinto dos espetáculos. Essa componente vai manter-se como novidade. E depois, ao nível da programação, vamos manter aquilo que temos procurado ao longo dos anos, ou seja, equilibrar uma oferta para diferentes públicos, seja com artistas consagrados no panorama nacional, seja com artistas emergentes para novos públicos.

E, sobretudo, procurarmos também investir numa nova marca dentro da feira, que é o Mateus Fest. Reposicionar o conceito, mas perceber que ele faz sentido, do ponto de vista, seja de comunicação, seja de novos públicos, seja do ponto de vista de gestão.

Mas este ano parece que quase tudo mudou. Mudou a data do início da feira, o dia do Mateus Fest e também o conceito. Porquê?
Em relação à feira, nós percebemos que havia uma vontade também da parte de quem nos concessionou a organização executiva de querer que o evento se prolongue até ao dia 21, ao dia do município. E, por isso mesmo nós, se o ano passado não tivemos a responsabilidade do evento até ao dia 21, pois houve depois a Feira Franca, este ano há esta vontade, e assumimos a organização, dando mais homogeneidade ao evento e faz todo sentido também que assim seja, o que nos obriga a um esforço suplementar.

São 46 dias de Feira, ou seja, isto é um desgaste muito grande do ponto de vista humano, seja para quem trabalha na Viseu Marca, seja para quem trabalha como operador-expositor. Isto traz dificuldades também do ponto de vista da organização e do ponto de vista da captação de interessados.Para quem não vive na itinerância, quem está nestas feiras como oportunidade e tem outros negócios para além da feira, não é fácil manter aqui uma estrutura com outra estrutura em simultâneo, porque a vida começa praticamente em setembro e recomeçamos todas as atividades principais.

Mas esse regresso ao modelo antigo significa que anão correu bem no ano passado?
Não. Significa que correu bem o ano passado, mas reconheço que o facto de nós termos antecipado a feira para o dia 1 de agosto, o que entendíamos como sendo uma vantagem,para nós e para os operadores, também não terá sido o melhor. O público tem os seus hábitos e na verdade não estava habituado a começar no dia 1 de agosto. O que percebemos é que uma grande parte, em especial a diáspora, vai primeiro às suas férias, para a praia e só depois é que regressa à terra e só vem à feira depois na segunda semana. Por isso sentimos que não foi por anteciparmos mais tempo que tivemos mais diáspora.

Tem de haver uma adaptação. Seja ao período de arranque, seja ao encerramento?
Sem dúvida. E por isso acredito que se as pessoas estivessem já adaptadas e com a vida organizada, a resposta seria diferente. Por exemplo, ir até ao dia 21, não quer dizer que não o possamos fazer, mas do ponto de vista da extensão da Feira de São Mateus é um esforço muito maior para quem está aqui e custa mais. Mas vamos tentar fazer o nosso melhor. Mas a feira está bem programada também a esse nível, fruto da experiência dos anos anteriores e em função dos resultados e do público que temos em cada um destes momentos. O público de setembro, em que há uma afluência menor, não é o público dos primeiros 15 ou 20 dias de agosto. E nós sabemos que a partir de setembro toda a gente vem de casaco à feira e já chove, o que já não é a mesma coisa. Temos que ter a capacidade de nos reinventarmos e a feira está reinventada para ser na mesma de qualidade e manter a fixação do público. É só um posicionamento diferente.

Voltando ao Mateus Fest, este ano o bilhete é muito mais barato. E a qualidade?
O bilhete é mais barato, mas não quer dizer que a qualidade tenha descido, pelo contrário. O Mateus Fest foi uma proposta da direção, de uma reflexão que fizemos e de sentirmos a necessidade de nos reinventarmos dentro da feira sem sairmos dela.

E porquê?
Em primeiro, porque já temos toda a capacidade instalada na feira e o investimento feito. Então pensámos na melhor forma de retirar mais valor deste espaço e simultaneamente atrair público pois entendo que temos que trabalhar também em função do público que nos visita. E percebemos que havia aqui uma falha no interior do país relativamente a este modelo de festival. Então surgiu o Mateus Fest com o conceito de um dia de festival na feira.

A pensar em que público?
Digamos que procurámos segmentá-lo para um público, eu diria musicalmente, mais pop rock, mais ligeiro. E para uma faixa etária dos 35 para cima. Ou seja, quem tem capacidade e disponibilidade para decidir onde gasta o seu dinheiro, que não anda a pedir aos pais. E para que isso fosse possível entendemos que devíamos ter uma banda âncora de nome internacional. E trouxemos a maior banda que alguma vez atuou em Viseu, os The Script.

Para ver um concerto desta banda quando atuou em Portugal pagaram-se 60, 70 e 80 euros. Aqui na Feira de São Mateus, com mais umas bandas, o custo foi de 35 euros, metade do que se paga no Porto ou em Lisboa. Mas há pessoas que não entenderam e que consideram ser mais interessante ir gastar 80 euros num bilhete em Lisboa, mais 80, 100 ou 150 em viagens e alojamento e estadia, e gastam 200 euros ou 250 euros, e acham mais barato do que gastar 50 ou 60 em Viseu. O modelo não é mau, não foi bem entendido, mas nós procurámos trabalhar para a região mais próxima.

Mas também, porque as novidades têm essa função de ser disruptivas com o dia a dia, com o comum. E nós tentámos ser diferentes, fazer diferente e vamos fazer diferente. Há uma rejeição inicial, mas o que temos de bom desse dia é que quem cá veio divertiu-se imenso e adorou e tivemos uma avaliação extremamente positiva. Houve erros da nossa parte, inexperiência de primeira viagem, o que é natural.

O que correu mal?
Por exemplo, nós não tínhamos colocado no regulamento a impossibilidade de trazer comida para o recinto. É óbvio que as pessoas aproveitaram, trouxeram comida e gastaram menos cá dentro. Este ano já não podem trazer comida. É óbvio que criou ali algum constrangimento aos operadores. No entanto, eu sei de operadores que nos disseram que o melhor dia em termos de faturação foi o Mateus Fest. Porque correu bem e eles próprios se posicionaram para aquele dia e para aquele público. Mas é claro que o facto de ter sido o primeiro fim-der-semana da feira, a primeira edição, com receio relativamente à logística, à troca das bandas, uma experiência que nunca tínhamos tido.

Mas é certo que também trouxemos os melhores para trabalhar connosco, na gestão do palco, no backstage, no que é uma dinâmica interessantíssima. Hoje já sabemos que temos condições para num dia montar a logística necessária para que o festival aconteça. Mas não houve boa vontade para ajudar a construir a imagem de um novo evento que Viseu pode vender bem. E nós não vendemos a feira, vendemos Viseu, que é o que nos move. E este ano, percebendo que a adesão daquele público não foi suficiente, percebemos que havia que olhar para a feira e perceber o que é que queríamos fazer.

E este ano viraram-se para os mais jovens?
Sem dúvida, para novos públicos e mais jovens. Procurámos perceber o que é que tem vindo a atrair os jovens para os espetáculos. Nós também já fomos todos jovens. E vimos que nos espetáculos com artistas emergentes, até os pais trazem os filhos à feira que é um espaço seguro para a família e que dá segurança aos pais psara virem a estes eventos. E procurámos então ir ao encontro daquilo que é o gosto do público em termos musicais.

O Matuê, que é o cabeça de cartaz do Mateus Fest, surge das muitas consultas ao público através das redes sociais, tendo sido sempre o mais votado pelo público. E só o conseguimos para aquela data, permitindo-nos, desta forma, promover o festival durante a feira e cativar o público que já está cansado das férias e precisam de uma nova dinâmica num festival que não tem só música, que vai ser uma experiência gira com atividades ao longo de todo o dia. Quanto ao valor, também é menor porque conseguimos ter um cartaz mais acessível. Nós não andamos aqui pelo lucro, mas sim trazer as pessoas à feira.

Mas, entretanto, vão surgindo outros festivais, as festas concelhias começam a ter outra dimensão. O que é que faz a diferença no Mateus Fest? O que faz a diferença da Feira de São Mateus?
Vou lhe dizer uma coisa com toda a franqueza. Eu não sou aferidor de onde se gasta o dinheiro público, mas aqui na Feira de São Mateus não há dinheiro público. Acredito que é importante haver investimento neste tipo de espetáculos em todo o lado, no entanto, temos de perceber se é a prioridade para as diferentes comunidades. Ou seja, se o investimento tem que ser feito neste tipo de espetáculos ou se há outro tipo de situações onde o dinheiro dos impostos deva ser gasto.

Quanto à Feira de São Mateus é o melhor recinto de feiras do país. Não há nenhuma feira onde se entre e se sinta o conforto e o bem-estar como aqui. É verdade que todos os concelhos à volta têm festas e feiras e todos têm que ter teatro, mas Viseu é ópera. Vir à Feira de São Mateus é distintivo do ponto de vista da tradição. São 633 anos em que as famílias vêm à Feira de São Mateus. Eu vim pequenino com os pais, depois com os amigos, com a namorada, depois já com os filhos.

E esta tradição não é uma coisa comum nas festas populares. Somos a feira mais antiga da Península Ibérica, com esta configuração, com o reconhecimento do público como maior festividade ibérica, não somos concorrência. Nós fazemos o nosso trabalho e o fruto do nosso bom trabalho, a Feira de São Mateus é o exemplo a seguir. E acho bem que o façam, mas têm que saber fazer as prioridades com o dinheiro público. Não é razoável.

Mas não são conceitos em mudança?
Sem dúvida. Numa época em que há festivais que estão a aparecer, se tivessem feito um estudo de mercado, perceberiam que há festivais com o mesmo conceito que estão a fechar. O Meo Sudoeste não vai acontecer este ano. O Super Bock Super Rock também não vai acontecer. Os festivais que estão a sobreviver são os urbanos. E nós já temos o nosso investimento em termos de infraestrutura, só nos faltava a programação e decidimos programar nesse sentido diferenciando-nos dentro do que já tínhamos, ou seja, a Feira de São Mateus.

É preciso perceber as dinâmicas. No passado, o modelo de acampamento em festival funcionava muito bem. Hoje, os jovens não gostam muito de pó e são muito mais comedidos na forma de estar, e bem. Foi-lhes oferecido uma outra qualidade de vida e eles optaram. Portanto, nós não fazemos concorrência, tudo que vier é bem-vindo para o território, não condiciona a programação da feira, nem a feira deve condicionar a programação dos outros.

Não fazem concorrência mas também não sentem a concorrência?
Sem dúvida que não. Surgiu um festival recente aqui ao lado, ninguém nos perguntou nada e já havia a Feira de São Mateus e nós já tínhamos programado para aquele fim de semana também. Nós tivemos mais do dobro das pessoas, no mesmo dia, a assistir a um espetáculo na Feira de São Mateus do que estavam no outro festival, porque temos um público fidelizado. Para aquele tipo de espetáculo que aconteceu no mesmo dia, não há problemas como não haverá nenhum problema em o Mateus Fest e o outro festival acontecerem no mesmo dia. Os públicos são completamente diferentes.

A polémica que surgiu é de quem não sabe, é de quem quer fazer uma instrumentalização política de uma programação cultural. Cada um programa como quer e o público vai onde quer. O público é que escolhe. Nós é que depois temos de ter a capacidade de aguentar o problema, se a coisa não correr bem. É óbvio que eu, se tiver um problema, tenho um prejuízo de bilheteira. O outro lado não tem prejuízo nenhum, quem paga é o Orçamento de Estado. Isso mesmo é mais fácil e não há custo nenhum. Mas há um risco que de certeza que foi calculado e que houve boas intenções na criação. Nunca fomos contactados tal como nunca vamos perguntar a ninguém o que fazem nos seus municípios.

Esta polémica à volta da AIRV que ameaça abandonar a Viseu Marca, pode beliscar, de alguma forma, a Feira de São Mateus?
Eu tenho dito que não é só com esta questão, é também com a questão de alguns operadores, que se tiverem algum problema relativamente à Viseu Marca e à sua gestão, devem tratá-lo com a direção da Viseu Marca, porque a Feira de São Mateus não pode ser prejudicada por isso.

Qualquer polémica que envolva a Viseu Marca naturalmente que traz algum impacto à imagem da Feira de São Mateus. E todos têm que ter esse sentido de responsabilidade, de saber tratar nos lugares próprios os assuntos para que sejam esclarecidos. E não há qualquer dúvida quanto a isso, há muita transparência em todo o processo da Viseu Marca, nomeadamente ao nível da gestão. Se calhar nunca houve tanta transparência, o que leva a que nós tenhamos que resolver situações para que quem vier a seguir saiba bem o que é que encontra, como é que se faz e como é que se fez. Eu não posso dizer o mesmo.

Como ser feliz na Feira de São Mateus?
Este ano, a feira vai ser de longa duração e estamos preparados para receber em segurança os nossos visitantes esperando bater todos os recordes. A segurança é para nós a prioridade maior, do ponto de vista daquilo que é o nosso compromisso social. Mantemos igualmente uma forte programação desportiva com a integração de um conjunto de eventos que têm sido importantes também para a afirmação da feira. E vamos continuar a insistir naquilo que para nós é importante, na componente pedagógica da sustentabilidade. Fomos o primeiro evento desta natureza certificado em termos dos objetivos das ODS, da ONU.

E mais uma vez, vão senti-lo de forma mais visível, vamos estar comprometidos para que haja uma consciencialização de que queremos ter um planeta melhor no futuro e que a Feira de São Mateus, seja ao nível de quem nos visita, pela consciencialização que fazemos, seja em relação aos operadores, que têm que ter cada vez mais um compromisso com a Feira de São Mateus ao nível da sustentabilidade, isto vai ser uma realidade. Depois, ao nível da programação, julgo que temos um cartaz apelativo e diversificado. Por isso, convidamos todos a virem ser felizes na melhor feira do país. É isto que a gente quer e para o qual trabalhamos.

 

Agosto 7, 2025 . 10:00

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