
Livro quer resgatar do esquecimento fadistas e músicos da cidade de Viseu
Gabriel Carlos tem 64 anos e é fadista em Viseu há 52. Há dois anos, assinalou os 50 anos de carreira com o lançamento de um cd e um espetáculo na Feira de São Mateus. Vai lançar, no dia 17, um livro sobre cantores e músicos da cidade que se dedicaram ao fado entre os anos de 1967 e 2011.
“A História do Fado em Viseu - 1967-2011” procura, segundo o seu autor, que não se define como escritor, “resgatar do esquecimentos muitos nomes que fizeram o fado em Viseu”. Rotula o livro de “documento para a posteridade”, porque nele consta um espólio de 66 fotografias obtidas ao longo dos anos, porque “comecei muito novo no fado, no Orfeão de Viseu, e conheci nas décadas seguintes todos os fadistas da cidade”.
O livro, com prefácio de José Rodrigues, vai ser lançado na Biblioteca Municipal D. Miguel da Silva, em Viseu, pelas 16h30, apresentado por Glória Paiva.
“É um livro documental, polvilhado com algumas histórias e comentários. Vou acompanhando com textos a sequência de fotografias. Há uma pequena parte autobiográfica, mas não me alonguei muito, porque acabo por estar em todas as páginas, a história do livro é a minha história, dado que acompanhei, eu e o Sousa, quase todos os fadistas que estão nas fotos. Às vezes trocava-se o guitarrista e a viola, mas éramos basicamente nós os dois”, adiantou.
O autor recorda que havia um grande número de pessoas que cantavam o fado em Viseu na segunda metade da década de 60, “muitas delas, infelizmente, já falecidas”. No espólio fotográfico extenso que citou figuram dezenas delas, “a maior parte delas comigo a acompanhá-las no palco, porque no início dos anos 70 e 80 era eu que tocava viola e cantava, com o Sousa (o filho) na guitarra”.
Gabriel Carlos entende que todas essas pessoas “são um património da memória coletiva da cidade, são fadistas que ficaram completamente esquecidos porque o fado não tinha a projeção nem havia os meios de divulgação que há hoje. Agora, há uma noite de fados em qualquer lado e aparecem logo dezenas de fotografias nas redes sociais, colocadas pelos organizadores nas suas páginas”.
A generalização do fado a partir de 2011
O livro vai até 2011 porque, segundo o autor, foi o ano em que o fado se generalizou, após a classificação como património imaterial da humanidade pela UNESCO. “Com a internet e as redes sociais, todos os fadistas começaram a fazer a sua própria promoção e apareceram muitos fadistas”, referiu.
Numa viagem ao passado, o autor, que teve duas casas de fado em Viseu, a primeira na década de 90, listou os locais onde se cantava o fado na cidade.
“Tenho fotografias dos espaços onde era cantado o fado, os restaurantes, as casas de fado. Em 1967, não havia muitas casa de fado, havia espaços onde se começou a cantar, na rua Serpa Pinto, por exemplo, numa casa de pasto que era do pai do Sousa, que era guitarrista, e depois o filho também se tornou guitarrista, e essa geração continuou. Foi havendo fado em Silgueiros, no café Borges, no café Infante, ao lado da Escola Secundária Alves Martins, em Viseu, onde se cantava fado numa cave muito bonita. Na altura, a gerência era do Mário Agostinho e ele organizava muitas noites de fado”, referiu.
O nascimento da primeira casa de fado em Viseu
A fadista aponta 1990 como o ano em que foi criada a primeira casa de fados de Viseu, que pertencia ao citado Sousa, “cuja família tinha um espaço no Campo de Viriato”.
“Era um espaço muito pequeno, mas ele esteve lá três anos. Entretanto, em 1991, abro eu o Retiro do Hilário, que foi uma casa que esteve aberta dez anos, já com um cariz mais ao nível das casas de Lisboa, pelos elencos que vinham cantar a Viseu. Eram contratadas fadistas que estavam cá durante 15 dias, depois vinha outra 15 dias, e o fado era diariamente com elencos contratados. Na casa de fados do Sousa era mais tipo fado vadio, a malta aparecia e cantava”, sustentou.
A casa de fados Retiro do Hilário nasceu na rua do Gonçalinho, transitando depois para a rua que lhe deu nome.
“Foram lá cantar nomes como Vasco Rafael, Lenita Gentil, Cidália Moreira, mas muitas fadistas também de segundo plano, mas que cantavam muito bem. Gente de uma idade mais velha, não é como hoje, em que aparecem muitas meninas a cantar com 13, 14 anos, era gente com mais experiência e maturidade, com outra história de vida, e o fado era diferente na altura, era cantado com sentimento”, acrescentou.
A homenagem a Augusto Hilário
Para Gabriel Carlos, a sua casa de fados teve um papel preponderante na divulgação da figura de Augusto Hilário. “Tivemos na inauguração uma sobrinha neta do Augusto Hilário, a Dona Maria Alice, que ofereceu uma dedicatória que tinha sido feita à família pelo próprio Augusto Hilário em 1892. E uma cópia desse autógrafo, que não me recordo de a ver em qualquer livro sobre o Hilário, nem de a ver publicada, com a assinatura dele na dedicatória, é um dos documentos que está no livro e penso até que será único e será talvez o mais importante do livro”, destacou o autor.
No livro, constam também “várias histórias engraçadas” passadas no Orfeão de Viseu, citando as anedotas hilariantes e sentido de humor ímpar de Agostinho Meira, pai do cantor Dino Meira, que era guitarrista. Na altura, o autor era ainda um adolescente e o músico tinha à volta dos 60 anos, mas lembra-se bem que o pai Meira, “que morava em Viseu e fazia gravatas com elástico para a polícia”, contava umas anedotas hilariantes, além de ser “um exímio guitarrista”.
Entre os nomes que o livro “resgata do esquecimento” estão “o António Teles, já falecido, pessoas como o Aurélio Bernardo, do Caçador, do restaurante Beirão, o Fernando Carpinteiro, o conhecido Fernando Amália, o António Andrade, que era vendedor da Mercedes, o João dos Seguros, que trabalhava na Mundial Confiança, era gente que tinha as suas profissões, não vivia do fado, mas que à noite cantavam. No livro estão mais de 50 fadistas, guitarristas e violas que estão completamente no esquecimento”.
A concluir, Gabriel Carlos revelou que tem perfeita noção da sua finitude e que o seu tempo “está a acabar”, mas não quer que se “passe uma esponja sobre toda esta gente em 45 anos de fado em Viseu”.








