Última Hora
Inova26 Bannertopo Ate 3105
Pub

“É fundamental continuar a trabalhar e investir na internacionalização”

Presidente da Adega de Silgueiros, Fernando Figueiredo, fala dos principais desafios e preocupações de quem conhece bem o setor

Quais os principais desafios que se colocam ao setor vinícola, muito em especial na Região Demarcada do Dão?
Ao nível da região do Dão, dada a competitividade interna que sentimos no mercado doméstico e a nossa dificuldade em acompanhar preços tão baixos neste mercado, o desafio e a necessidade urgente é continuar a trabalhar e in­vestir na internacionalização procurando mercados externos que nos permitam vender a preços médios superiores e escoar as nossas produções.

A UE anunciou medidas para o setor. São suficientes para se enfrentarem os desafios?
Consideramos que neste momento há uma intenção de minimizar os impactos graves que a conjuntura atual acarreta, principalmente pelos excedentes por toda a Europa e os problemas criados pelo meio ambiente gerado à volta do vinho, para além das questões climáticas que nos preocupam por não sabermos para onde vamos.

Vejamos duas dessas ideias: Prevenção dos excedentes.
Os Estados-Membros terão poderes para tomar medidas, como o arranque de vinhas indesejadas ou excedentárias e a colheita em verde ou remoção de uvas não maduras antes da colheita; ajudar a estabilizar o mercado e proteger os produtores da pressão financeira. Mas o modelo não está ainda explicado. Por exemplo, o subsídio realmente compensa as perdas?; a medida abrange que tipo de uvas?; quem fiscaliza este processo?; o valor pago será o mesmo para vinhas com diferentes níveis de vigor, idades e sistemas de condução?
Redução do teor alcoólico dos vinhos. A tendência mundial de ‘desalcoolização’ ou reduzir drasticamente o teor alcoólico do vinho pode desvirtuar o próprio conceito de “vinho” enquanto produto endógeno e autóctone, especialmente quando falamos em produtos com Denominação de Origem Controlada (DOC). Em vez de continuarmos a produzir vinho, poderíamos estar apenas a criar uma solução "hidroalcoólica" ligeiramente alcoólica, adaptada às novas tendências de saúde e bem-estar. Será que, ao procurar esse tipo de produto, não corremos o risco de descaracterizar o vinho de tal forma que este poderia ser produzido em qualquer lugar — de Silgueiros a Trás-os-Montes, ou até na Tunísia?. No limite, estaríamos a comercializar algo equivalente a uma “coca-cola zero” em versão vínica.

...que deixaria de ser vinho?
Numa ótica de consumidor, entendo que o vinho com teor alcoólico drasticamente reduzido perde a sua essência, porém parece imperativo uma redução gradual e moderada dos graus alcoólicos dos vinhos, uma vez que diversos mercados externos começam inclusive a taxar o vinho em escalões diferentes consoante o seu grau alcoólico. É um facto que a nova geração de consumidores valoriza menos o grau alcoólico no vinho do que os consumidores mais tradicionais e antigos, e assim teremos de encontrar forma de manter o equilíbrio nos vinhos baixando um pouco o seu teor alcoólico. Também as medidas apontadas para uma rotulagem mais clara com indicação da origem e controlo das movimentações de vinhos, dinamização do enoturismo, por exemplo, vão no sentido de minimização dos impactos negativos que conhecemos.

Mas as preocupações não se ficam por aqui. A má imagem do vinho usada pela OMS e na prevenção rodoviária também não ajudam.
Sem dúvida. Se por um lado a concorrência desleal de outros países e as alterações climáticas prejudicam o setor, por outro lado temos os representantes da saúde ou da segurança rodoviária a apontarem o dedo ao consumo do vinho como sendo prejudicial com publicidades agressivas e desencorajadoras. E é verdade que essa perceção negativa não facilita o nosso trabalho e só pode ser combatida com ações de marketing bem estruturadas e conjuntas. Estas devem abranger os meios de comunicação e redes sociais, fundamentando-se em estudos científicos que promovam o consumo moderado de vinho e demonstrem os seus benefícios para a saúde e o bem-estar.

E para ‘completar’ chegam agora as ameaças dos EUA.
Sem súvida, só nos faltavam agora as medidas impostas pela administração Trump quanto às taxas a aplicar aos países e ao seu impacto. Ainda não se sabe o que nos vai ‘tocar’ concretamente em relação ao vinho, no entanto se forem taxas diretas, as consequências serão enormes pelo facto de os grandes produtores mundiais de vinho, caso fiquem impossibilitados de exportar, gerarem ainda mais excedentes a somar aos atuais. No caso da Adega de Silgueiros não será afetada diretamente mas indiretamente sê-lo-à. Na Região Demarcada do Dão há alguns operadores que exportam para os EUA e poderão vir a ter mais problemas a adicionar aos que já têm.|

Abril 21, 2025 . 08:55

Partilhe este artigo:

Junte-se à conversa
0

Espere! Antes de ir, junte-se à nossa newsletter.

Comentários

Fundador: Adriano Lucas (1883-1950)
Diretor "In Memoriam": Adriano Lucas (1925-2011)
Diretor: Adriano Callé Lucas
94 anos de história
bubblecrossmenuarrow-right