Quem vai à frente
Semanas antes, na China, uma adolescente tinha avisado que o equipamento não estava bem apertado. Ninguém a ouviu? E há poucos dias, no Rio de Janeiro, foi um guia que caiu num trilho que percorria pela primeira vez. Alguém a quem um grupo inteiro confiava a vida.
Três vidas. Três lugares diferentes do mundo. E um mesmo silêncio depois da queda.
Há um dado que não me sai da cabeça desde que li sobre estes casos. Nos acidentes em atividades de natureza, estima-se que o fator humano seja responsável por cerca de 80% do que corre mal. O ambiente, 15%. O equipamento, apenas 5%. Não é a montanha que mata. Não é a corda. É a decisão de quem vai à frente.
E é aqui que estes casos deixam de ser notícias distantes e passam a falar de nós.
Levei anos a perceber uma coisa que hoje me parece óbvia: o entusiasmo não substitui a preparação. Já o escrevi aqui: durante muito tempo acreditei que bastava querer muito, trabalhar muito, gostar muito. E confesso que, no meu percurso, também já fui à frente sem conhecer verdadeiramente o caminho. Hoje sei que, nessas alturas, só não paguei caro por sorte. E a sorte é um péssimo guia. Quando lideramos uma empresa, uma equipa, uma família ou um grupo num trilho, há pessoas que nos entregam algo que não se devolve: a confiança. E a confiança dos outros não se honra com boas intenções. Honra-se com competência.
Foi por isso que me tocou tanto um estudo que me chegou às mãos, feito por João Soares no Instituto Politécnico de Viana do Castelo, sobre o desporto de natureza em Portugal. O nosso país está cheio de empresas que levam pessoas a fazer caminhadas, escalada, atividades no rio e na montanha. O setor cresceu muito. As regras, nem tanto. E o que o estudo revela é surpreendente: inquiridos os gestores destas empresas, 93% defendem que deviam existir requisitos mínimos para se poder operar. Três em cada quatro dizem sentir-se mais descansados quando contratam alguém com formação específica.
Repare-se no que isto significa. Não é ninguém de fora a impor. São os próprios empresários a pedir mais exigência sobre si mesmos. E eu, que vivo o mundo empresarial há 26 anos, sei como isto é raro. E é, talvez, a definição mais bonita de maturidade que conheço. Porque qualquer um pede facilidades. Pedir que nos exijam mais é outra coisa. É reconhecer que aquilo que fazemos tem peso na vida de alguém.
E quando um setor inteiro levanta a mão e diz "exijam mais de nós", talvez o mínimo que merece é que alguém olhe. Portugal está cheio desta natureza que o mundo nos inveja - rios, serras, mar - e cheio de gente boa a mostrá-la. Ainda vamos a tempo de cuidar disto enquanto é uma oportunidade, e não depois, quando for uma notícia. As quedas de que falei aconteceram longe. Mas a distância nunca foi um plano de segurança.
O que este tema me deixou, no fim, foi uma certeza que serve para todos nós, para quem gere uma empresa, educa um filho, ensina, cuida, conduz: preparar-nos é a forma mais humilde de amar quem confia em nós. Ninguém aplaude o treino, a formação, as horas invisíveis. Aplaude-se o salto. Mas é nas horas invisíveis que se decide se quem salta volta para contar.
Por isso deixo a pergunta que não me larga desde que li aquelas notícias, e que faço, primeiro, a mim mesma:Quem confia em nós de olhos fechados? E o que estamos a fazer, todos os dias, para o merecer?





