O maior património
Tinha 26 anos quando comecei esta viagem. Curiosamente, passaram agora exatamente 26 anos e, olhando para trás, percebo que a palavra que melhor descreve tudo o que aconteceu não é liderança, nem gestão, nem sequer empreendedorismo.
É co-construção.
Quando somos jovens, é fácil acreditar que um empresário deve ser capaz de fazer tudo: pensar a estratégia, identificar oportunidades, negociar, gerir pessoas, compreender finanças, tomar decisões rápidas, resolver problemas e antecipar crises. A vida, porém, encarrega-se de nos ensinar que as coisas raramente funcionam assim.
Ao longo destes anos aprendi muitas lições, mas talvez uma das mais importantes tenha sido esta: ninguém constrói nada de relevante sozinho.
É curioso como, quando observamos uma empresa bem-sucedida, tendemos a procurar um rosto. Um fundador, um líder, alguém a quem possamos atribuir o mérito daquilo que foi alcançado. Gostamos da história do herói. É simples, inspiradora e fácil de contar. O problema é que raramente corresponde à realidade.
Por trás de cada empresa existe uma rede invisível de pessoas que pensam de forma diferente, possuem talentos distintos e veem aquilo que os outros não veem. Porque o que um vê, outro ainda não viu. O que um imagina, outro concretiza. O que um receia, outro enfrenta. O que um começa, outro ajuda a terminar. E aquilo que parece o mérito de uma pessoa é, muitas vezes, o resultado da competência coletiva de muitas.
Confesso que esta não foi uma aprendizagem imediata. Passei anos a acreditar que precisava de ter resposta para tudo, decidir tudo e compreender tudo. Até perceber que a verdadeira liderança não está em saber nem em controlar tudo; está, essencialmente, em saber ouvir e confiar.
Também não está em ser a pessoa mais inteligente da sala. Está em rodearmo-nos de pessoas que sabem aquilo que nós não sabemos.
Com o tempo, percebi que algumas das pessoas mais importantes do meu percurso não foram aquelas que pensavam como eu. Foram precisamente as que pensavam de forma diferente; as que me desafiaram, identificaram riscos que eu não via, encontraram soluções que eu nunca teria encontrado sozinha e completaram limitações que eu própria desconhecia ter.
Talvez por isso tenha começado a olhar para a palavra "sociedade" de forma diferente. Já não vejo apenas contratos, quotas ou participações. Vejo pessoas que decidiram caminhar juntas, confiança, complementaridade e a coragem de reconhecer que ninguém é suficientemente bom em tudo, mas que várias pessoas, juntas, podem ser extraordinárias.
Num tempo em que tantas vezes se glorifica o sucesso individual, vale a pena recordar uma verdade simples: as maiores realizações da humanidade nunca foram obra de uma única pessoa. Foram resultado da colaboração entre talentos complementares, da confiança mútua e de pessoas imperfeitas que decidiram construir algo em conjunto.
Talvez seja por isso que o futebol nos oferece tantas vezes lições de vida. Num campeonato do mundo, nem sempre vence a equipa que reúne os melhores jogadores. Muitas vezes vence a equipa que melhor joga em conjunto, que confia, que se complementa e que coloca o objetivo coletivo acima do brilho individual.
Durante muitos anos pensei que o maior património de uma empresa estava nos seus ativos, nos seus clientes ou nos seus resultados. Agora apercebo-me de que o maior património de qualquer projeto são as pessoas que o constroem connosco. Talvez seja por isso que, quando olho para estes 26 anos, não penso apenas no que foi construído. Penso sobretudo em quem ajudou a construir.
E sinto uma profunda gratidão por essa co-construção.





