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Opinião

Eu sei o que é ter fome e não abrir a boca

Junho 16, 2026 . 15:15
A Seleção Nacional iniciou esta semana os trabalhos para mais uma importante competição internacional. Como sempre acontece quando Portugal se reúne, o país volta a vestir a camisola das Quinas.

Sei o que é estar diante daquilo que preciso - uma conversa, uma decisão, um passo tão pequeno que quase não conta - e ficar parada.

Não por falta de vontade, mas porque alguma coisa dentro de mim, antiga e silenciosa, me diz que não vale a pena. Que já tentei. Que já me magoei. E que da próxima vez vai ser igual.

Há uma experiência clássica sobre um peixe predador dentro de um aquário. Colocaram um vidro transparente a meio do tanque. De um lado, o predador, faminto.

Do outro, peixes pequenos a nadar sem noção do perigo. O lúcio lançou-se contra eles e bateu no vidro. Tentou outra vez. E outra. As escamas soltavam-se, o corpo doía, e a certa altura o peixe simplesmente parou. Desistiu sem saber que estava a desistir. Depois, os cientistas retiraram o vidro em silêncio. Os peixes pequenos nadavam-lhe junto à boca mas o predador ficava imóvel.

Não porque não pudesse. Porque já não acreditava que pudesse. Morreu de fome. Rodeado de alimento. Quando li isto pela primeira vez, senti um desconforto que não soube explicar.

Depois percebi: reconheci-me ali dentro daquele aquário.Todos carregamos um vidro qualquer. Um projeto que falhou quando já tínhamos dado tudo. Uma relação que nos ensinou que amar dói. Uma conversa que nunca tivemos coragem de ter.

Um sonho que abandonámos a meio - não porque fosse impossível, mas porque a dor de tentar se tornou maior do que o desejo de conseguir. E com o tempo, esse vidro deixa de ser uma barreira e passa a fazer parte de quem somos. Dizemos “eu não sou desse tipo” ou “isso não é para mim” com tanta naturalidade que até nós acreditamos.

Na psicologia chamam-lhe desamparo aprendido. O cérebro generaliza a derrota e convence-nos de que recuar é proteger-nos. Mas é uma ilusão.

Não estamos protegidos, estamos apenas presos. O que sentimos como segurança é, na verdade, a ausência de tudo: de risco, sim, mas também de crescimento, de entrega, de vida. Refugiamo-nos no mesmo canto do aquário e chamamos-lhe casa. Mas não é casa. É só o sítio onde o medo nos deixou.

Escrevo isto e sei que ainda estou a aprender. Sei que há vidros na minha vida que já percebi que não existem, mas continuo a nadar como se existissem. Já percebi a lição. Já a escrevi. Mas pô-la em prática é outra história. Essa é a parte honesta: a distância enorme entre saber uma coisa e vivê-la.

Mas também já sei isto: cada vez que ponho em palavras aquilo que me assusta, a distância encolhe um pouco. Talvez seja por isso que escrevo. Para me lembrar.

Para não deixar que o medo tenha a última palavra. E para inspirar outros no mesmo sentido. O vidro já não está lá. E da próxima vez que eu sentir a boca fechar, vou tentar lembrar-me disso.
Mesmo que me tremam os dentes.

Junho 16, 2026 . 15:15

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