Última Hora

O tempo que já não temos

Junho 15, 2026 . 12:15
O nosso País arrasta-se penosamente entre as nações europeias e onde tudo leva tanto tempo a estudar, depois a decidir e, principalmente, a fazer, que as decisões se perdem no passar do tempo.

Levámos meio século a decidir a localização do novo aeroporto de Lisboa e estou certo de que a esmagadora maioria dos portugueses à beira da reforma nunca terão a sorte de o ver terminar.

Mas não só, todas as obras ferroviárias previstas nos últimos trinta anos – modernização da linha do Norte, as linhas da Beira, do Oeste, do Poceirão ao Caia, de Cascais a Lisboa, as linhas do Algarve e do Porto a Lisboa – seguem, as que seguem, sem fim à vista. Nem o novo presidente da empresa IP, empresa responsável por todas estas desgraças, chega ao lugar para que foi nomeado em tempo útil.

Aqui em Coimbra, o chamado metro de superfície arrasta-se penosamente por entre as promessas e os problemas que se vão descobrindo. O chamado metro circular de Lisboa tem anos de atraso e o custo final tem tanto de desconhecido como de arrepiante, além de constituir um erro de planeamento, por relação com os outros projectos alternativos que ligariam as periferias ao centro de Lisboa.

O ministro Pinto Luz faz os anúncios mais variados, seja o novo aeroporto, seja a linha férrea Porto-Lisboa, sejam as várias pontes, obras que passarão para os novos ministros e desses para outros ministros que acabarão por chegar, por entre os mais variados interesses como, por exemplo, o caso original da construtora da primeira fase da linha do Porto-Lisboa, Mota Engil, ter a faculdade de alterar o projecto.

Mas nem só as obras públicas se arrastam sem fim à vista, por exemplo, quantas reformas da administração pública foram anunciadas desde o 25 de Abril sem nada acontecer.

Agora temos um ministro com o encargo, que já fez vários anúncios, mas não o único que poderia mudar alguma coisa: a profissionalização dos gestores públicos, a que chamo directores -gerais de carreira como havia no tempo de Salazar.

Claro que o ministro isso não diz nem faz, por que está ocupado com a presente aceleração do processo em curso de substituição da grande família socialista pela grande família social-democrata na administração pública. Na próxima fase outros virão, numa sequência de incompetência a caminho de maior incompetência.

Também as grandes reformas como, por exemplo, a grande reforma da educação de Veiga Simão, são coisas do passado. Agora fazem-se contrarreformas aos bochechos, como a recente transformação do politécnico de Leiria em universidade. Ou as leis do trabalho, desenhadas para entretinimento dos senhores deputados e das comissões mais variadas do Parlamento. Ou, quantos rios de tinta vão passar sob as pontes até que todas as prestações sociais sejam só uma. Nem a mudança de treinador do Benfica se fez sem que passassem várias semanas.

Na primeira página do jornal “Público de hoje, dia em que escrevo, um senhor responsável pela coisa avisa que “será difícil completar o cadastro digital até 2030”. A entrevista do senhor é de uma vacuidade que assusta, deixando, todavia, claro que “vai demorar anos” a limpar as árvores caídas na zona centro. Porque em todo o País nem pensar, é coisa para gerações. Mas o senhor avisa que precisa de mais imigrantes, não de mais saber, competência, máquinas ou tecnologia, mas apenas de mais imigrantes.

Uma das coisas mais faladas na comunicação social é a baixa produtividade do País. Todavia, ainda ninguém descobriu que com empresas comerciais de duas ou três pessoas, que são a maioria das empresas que temos, não há produtividade que nos valha, porque a produtividade cresce apenas quando ao factor trabalho alguém adiciona máquinas, automação, saber e tecnologia, além de mercados de exportação. Coisas que os nossos governantes e os seus ajudantes estão longe de ter aprendido.

Junho 15, 2026 . 12:15

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