Entre a Incerteza e a Ação
Os desafios de natureza económica, social e humana cruzam-se de forma intensa, evidenciando a redução de recursos disponíveis, o agravamento das dificuldades e o desgaste progressivo das equipas.
A estes fatores acresce, em muitos casos, uma autonomia efetiva ainda condicionada por enquadramentos legais, institucionais e de financiamento, que influenciam de forma significativa a atuação da governação das organizações, condicionando a sua capacidade de decisão e resposta.
A compreensão deste contexto pode ser apoiada por uma leitura estruturada do ambiente envolvente, através de uma análise PESTEL, ferramenta que permite identificar o impacto de fatores externos de natureza política, económica, social, tecnológica, ecológica e legal.
Do ponto de vista político, as organizações dependem fortemente das orientações e prioridades das políticas públicas, que orientam e enquadram a sua atuação e financiamento.
No plano económico, enfrentam pressões crescentes decorrentes da instabilidade financeira, do aumento dos custos e da limitação dos apoios públicos, fatores que podem colocar em causa a sustentabilidade das organizações de natureza social e solidária. Ao nível social, destacam-se fenómenos como o envelhecimento da população, o isolamento social, o agravamento das situações de vulnerabilidade e a crescente complexidade das problemáticas sociais.
No domínio tecnológico, emergem exigências de digitalização e modernização, muitas vezes sem os recursos necessários para lhes dar sequência. Na dimensão ecológica, frequentemente associada ao contexto geopolítico, surgem novas incertezas, nomeadamente ao nível dos custos energéticos e da sustentabilidade.
Por fim, no plano legal, destacam-se os enquadramentos normativos do setor, com impactos transversais na gestão e na capacidade de resposta das organizações. Mas o desafio não é apenas externo. Importa também questionar a forma como as organizações se percecionam.
A ideia de que “fazemos bem” pode, de forma quase silenciosa, transformar-se em acomodação e aversão ao risco. Ignorar vozes críticas, penalizar o erro ou perder talento fragiliza a inovação e limita a capacidade de evolução, permitindo a manutenção de ciclos de inércia organizacional que dificultam a resposta a um contexto cada vez mais exigente.
Temos de reconhecer que a mudança não se esgota no plano das ideias. Pensar de forma diferente é necessário, mas não suficiente. As pessoas podem compreender os problemas e, ainda assim, não alterar práticas, uma vez que a mudança envolve dimensões emocionais profundas, como o medo, a insegurança e a resistência.
Num tempo de instabilidade, exige-se liderança consciente e comprometida. Uma liderança capaz de mobilizar pessoas, assumir decisões difíceis e recentrar a ação no propósito. Mas este não é um desafio individual. É uma responsabilidade coletiva que convoca todas as partes interessadas a agir de forma concertada e alinhada.
Só assim nos tornamos parte ativa da solução, reforçando a sustentabilidade e a autonomia das organizações, pilares fundamentais para garantir, todos os dias, a autonomia das pessoas que acompanham. Por último, importa referir que, em março de 2026, foi criado o Provedor da Autonomia das Instituições de Solidariedade, uma figura orientada para a defesa da liberdade de atuação das Instituições Particulares de Solidariedade Social, reforçando um princípio essencial que deve nortear toda a nossa intervenção, a autonomia.
Nesse contexto, aceitei o convite que me foi endereçado para Embaixador da Autonomia, juntando-me assim a outras pessoas reconhecidas pelo seu percurso e ligação ao setor solidário. Compromisso que abraço com sentido de missão e convicção de que, em rede, podemos fazer mais e melhor.
Para acompanhar as posições e recomendações ativas aceda ao Portal do Provedor da Autonomia: https://www.provedorautonomia.pt/. #TodasAsPessoasContam.





