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Opinião

Cravos e Sombras: As vozes que não são nossas

Junho 3, 2026 . 07:00
“Não dês muito nas vistas.”
“Quem ama aguenta.”
“Não és ninguém para isso.”
“Já tens idade para…”
“É assim que a nossa família é”.

O mais inquietante nestas frases não é tê-las ouvido. É descobrir que, às vezes, passámos uma vida inteira a viver dentro delas.

Há pessoas que passam décadas inteiras convencidas de que nasceram para ocupar pouco espaço. Pessoas que entram numa sala já a pedir desculpa por existir. Que calam ideias antes de falar, que recusam oportunidades antes sequer de tentar. Não porque lhes falte capacidade.

Mas porque, algures no passado, aprenderam que aquilo não era para elas. E o mais perigoso nas crenças limitantes talvez seja isto: depois de instaladas, deixam de parecer crenças. Passam a parecer personalidade. Destino. Realidade. Começamos a acreditar que somos mesmo assim.

Que tivemos azar na vida, que os outros nasceram com qualquer coisa que nós não temos, que pedir mais é excesso, que sonhar alto é ridículo, que desejar muito acaba sempre em desilusão. E, sem darmos conta, vamos encolhendo. Há decisões que tomamos por medo e não por vontade. Há oportunidades que recusamos antes mesmo de existir a possibilidade de falhar.

Há pessoas que passam anos inteiros em relações, trabalhos, rotinas e vidas que as diminuem… porque já não conseguem imaginar outra realidade para si próprias. Talvez seja isso que mais me impressiona - a facilidade com que aprendemos a viver abaixo daquilo que merecemos.

Houve momentos na minha vida em que percebi algo desconfortável: talvez algumas escolhas minhas não fossem tão livres quanto eu imaginava. Talvez algumas fossem apenas formas antigas de me proteger. Talvez certas dúvidas nem fossem minhas.Tal como na alegoria de Platão, o mais difícil não é ver a sombra.

É perceber que aquilo que sempre tomámos por verdade… pode nunca ter passado de uma ideia repetida vezes suficientes para parecer real.

Porque questionar o mundo já é difícil. Mas questionar aquilo que vive dentro de nós é um desafio colossal. No fundo, talvez a pergunta mais difícil seja esta: quantas decisões da nossa vida nasceram realmente daquilo que somos… e quantas nasceram apenas do medo daquilo que aprendemos a acreditar sobre nós próprios?

Porque algumas sombras não nos prendem pelas correntes. Prendem-nos porque nos convencem de que não merecemos mais. E talvez uma das formas mais profundas de liberdade seja esta: perceber que muitas das vozes que nos limitaram… nunca foram verdadeiramente nossas.

Junho 3, 2026 . 07:00

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