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A APPACDM Viseu é uma grande casa de integração e humanismo

A APACDM Viseu está a assinalar os 50 anos de atividade com um programa que termina a 1 de dezembro com uma grande festa. Em entrevista ao Diário de Viseu, Pedro Baila Antunes fala de projetos, de sonhos e de novas respostas para o bem-estar dos clientes desta IPSS

O que significa para uma instituição como a APPACDM Viseu comemorar 50 anos?
Representa muito porque quer queiramos quer não, é uma data emblemática de uma instituição que é muito mais do que emblemática. É a maior IPSS do distrito em vários indicadores, quer nas pessoas apoiadas, mais de 1400 pessoas, quer no número de colaboradores, 250. Somos a nível nacional, na área da deficiência, uma das principais instituições que tem oito tipologias de respostas sociais de vária índole. Temos quatro estabelecimentos, três atualmente e daqui a um mês um quarto com a abertura em Resende. E desta forma, respondemos a todo o distrito, a norte com Resende, Viseu com dois estabelecimentos e Santa Comba Dão a Sul. Temos um orçamento que se equipara a muitas câmaras municipais, este ano próximo de oito milhões de euros. A sustentabilidade financeira tem sido uma das grandes preocupações ao longo dos anos e hoje já apostamos muito na modernização, através da digitalização, padronização de procedimentos, entre outros.

Refere-se à APPACDM como uma casa. Porquê?
Sim, porque esta é uma casa para muita gente. Para os clientes que aqui habitam ou que acompanhamos, mas também para os colaboradores. É uma casa de solidariedade, de inclusão, capacitação e de humanismo. Quem está aqui está num projeto verdadeiramente humanista. Para além dos excelentes técnicos e colaboradores que temos, é preciso sensibilidade e uma grande dimensão humana. E eles têm-na.

A APPACDM Viseu tem oito respostas para acompanhar, capacitar e integrar os nossos clientes

Mas há falta de colaboradores para esta área. Porquê?
Por um lado porque nem toda a gente tem a sensibilidade que é preciso para trabalhar com estas pessoas. Por outro lado, o setor social é mal pago. Obedecemos a tabelas da CNIS que está mais preocupada com os idosos, o que é fundamental, mas menos com a deficiência. Nós fazemos o que podemos e temos uma regra que é uma compensação emocional muito grande. Ou seja, os nossos colaboradores têm muito mais dias do que os 23 ou 25 a que têm direito, têm o dia do aniversário, têm muita facilidade com os filhos até aos 16 anos, quando fazem trabalho voluntário é-lhes atribuído os dias, têm dias para usar nas idas ao médico. Depois há uma grande preocupação na progressão. Não podemos esquecer que nós IPSS prestamos este serviço ao Estado que, caso contrário, teria de o fazer mas de uma maneira mais cara. E por isso entendemos que o Estado não pode abusar, o que as vezes se verifica como ainda agora tivemos um corte na formação profissional. Nós temos um discurso positivo ao contrário de muitas outras IPSS que assumem um discurso miserabilista. Mas reconheço que temos de fazer um enorme equilíbrio. Como costumo dizer, gerir uma IPSS é um trabalho de milhões porque há muitos investimentos, mas de tostões porque no dia a dia tudo é medido, mas, acima de tudo, temos Pessoas, Pessoas, Pessoas, sejam clientes ou colaboradores.

É por isso que defende que a gestão das IPSS devia ser mais profissional?
Sem dúvida. Por exemplo, nos hospitais antigamente os gestores eram médicos e hoje são médicos com formação em gestão ou gestores, o que às vezes ainda cria alguns anti-corpos. As IPSS lidam hoje com milhões por causa de obras, de empréstimos, etc, e têm que avançar para um modelo que equilibre esta preocupação de gestão empresarial e a sua vocação humanista e social. A APPACDM está a fazer o seu caminho mas acabam por ser as direções, que não são remuneradas e nem o querem, a promover esse equilíbrio diariamente.

Hoje precisamos cada vez mais de respostas para as pessoas com mais de 65 anos

Como nasce a APPACDM?
A APPACDM nasceu no dia 1 de dezembro de 1976. No pós 25 de Abril, aumentou a preocupação para com os cidadãos deficientes, tendo o Estado decidido que os maiores de 18 anos deixavam de poder estar nas instituições deixando, por isso de ter acesso a qualquer apoio. Na altura esta decisão deixou os pais muito preocupados sem saberem o que fazer com os filhos com deficiência maiores de 18 anos. É então que um grupo de seis fundadores, entre os quais estava a minha mãe e daí a minha ligação genética à instituição, decidiram avançar com uma APPACDM em 1976. Em 1979 inicia-se em Moure de Madalena o primeiro centro educativo e social e a partir daí foi em crescendo sempre nesta ótica de apoiar a pessoa na sua diversidade humana. Hoje temos muita interação com pessoas com outras vulnerabilidades sociais e em risco de exclusão que também apoiamos. Porque para além dos lares residenciais, dos CACI’s que são os centros de atividades e capacitação para a inclusão, temos a formação profissional onde somos, porventura a maior da região Centro. Temos também um centro de recursos para a qualificação e emprego que insere, integra e acompanha no emprego estas pessoas com deficiência e incapacidade. Desde 1995 é também do estabelecimento Dr. Victor Fontes, onde disponibiliza as respostas de lar residencial e CACI.

Quando se fala em integração os empresários já estão sensíveis a abertura de portas?
O Estado obriga a que empresas com um determinado número de colaboradores tenham pessoas com deficiência. Os nossos empresários estão a adaptar-se a esta nova realidade. Mas também os colaboradores. Se por um lado, as empresas têm um apoio forte para abrirem as suas empresas a pessoas com estas incapacidades, por outro lado, veem que o lado humano se intensifica e a responsabilidade social é muito forte. Por outro lado, a própria integração com os colegas. E na verdade, as pessoas com deficiência quando se integram no mercado de trabalho são muito positivas, ficam muito objetivadas e são excelentes profissionais nas funções que desempenham e nos conteúdos funcionais a que são obrigados e portanto a integração só pode ser boa. O nosso Centro de Recursos para a Qualificação e Emprego, desde 1 de janeiro, é quem coordena esta área em toda a Comunidade Intermunicipal Viseu Dão Lafões.

Falou em oito respostas. Quais são as outras?
O Centro Incorpora, de incorporação e integração laboral em que somos os coordenadores para toda a região Centro. Aqui nós integramos pessoas não só no domínio da deficiência, mas também com vulnerabilidade social, inclusive ex-reclusos, migrantes. A Fundação La Caixa é quem financia a 100% este programa nacional e incorporamos no mercado de trabalho onde temos taxas de sucesso muito interessantes. Temos também o Centro de Recursos para a Inclusão que nos permite prestar em 11 agrupamentos de escolas da nossa região, apoios nas terapias ocupacionais, fisioterapia, na área da psicologia. E, ainda, as residências de autonomização e inclusão. Estas são apartamentos habitados por pessoas que conseguiram ter essa autonomia. E depois temos muito orgulho numa outra resposta que é única a nível nacional, a residência de emancipação.

Qual é a diferença entre estas duas respostas?
Na residência de autonomização os clientes ainda têm apoio, por exemplo, nas refeições enquanto que nestas segundas significam emancipação total. Temos para já um casal que se formou na APPACDM, que paga uma renda abaixo do mercado e que está completamente autonomizado. Viveram sempre institucionalizados e hoje, trabalham os dois em duas juntas de freguesia, e são pessoas muito felizes. E temos ainda o nosso Centro de Recursos a responder a uma questão muito específica, que é o ensino superior onde há pessoas com deficiência e o Politécnico de Viseu é um bom exemplo. Mas havendo algum acompanhamento durante o curso às vezes a saída para o mercado de trabalho é complicado. Então criámos a resposta Empodera-te++ estabelecendo protocolos com o Piaget, o Politécnico, a Católica para inserir e orientar pessoas com formação superior.

Baila Antunes 3
Pedro Baila Antunes reconhece a importância dos parceiros e da família

Qual é a relação com a comunidade?
É excelente. Uma das questões fundamentais destes 50 anos é a interação com a comunidade. Estamos de braços abertos à comunidade pois para lá da inclusão, de dentro para fora, das pessoas que apoiamos seja no mercado de trabalho, seja na sociedade em termos gerais, temos cada vez mais uma presença de fora para dentro.

E como reage a comunidade a essa abertura?
Muito bem. Nós criámos no centro histórico de Viseu uma cafetaria e fizémo-lo com um espírito muito positivo que nos orienta em toda a instituição. Nós acreditamos e fazemos por acontecer. Os nossos sonhos são concretizáveis. E a cafetaria é um bom exemplo e tivemos um apoio inexcedível de alguns parceiros como a Visabeira e uma decoradora. Estamos agora a fazer algum serviço de catering. Tudo isto para podermos trazer as pessoas à nossa realidade porque vivemos numa sociedade onde há uma grande erosão do humanismo por várias razões e as pessoas tocam-se muito por esta nossa vivência, de forma muito positiva.

Mas ainda há problemas neste trabalho de autonomização
Sem dúvida. No que diz respeito às residências de autonomização que já temos em Viseu e em Santa Comba Dão, por vezes os vizinhos ao início ainda reagem com algum preconceito e alguns anticorpos. Mas depois com o tempo, faz-se-lhe luz porque reparam que os prédios ficam mais humanos e com outra vida porque as pessoas com deficiência são muito boas pessoas, carinhosas, com um cumprimentar verdadeiro. Por isso a sociedade vai estando cada vez mais desperta, inclusive os empresários como referi.

Nos tempos que vivemos, estas casas são cada vez mais necessárias. Mas ainda há muito a fazer.
Sem dúvida que sim. Neste momento, nós temos menos pessoas com deficiência porque há mais cuidados peri-natais e um acompanhamento diferente em termos de saúde, o que é excelente. Mas temos uma nova realidade para a qual o Estado ainda não está desperto. Atualmente, as pessoas com deficiência viverem mais tempo e ainda não há respostas para essa longevidade. Mas nós queremos criar uma. Domingo, vamos abrir um novo CACI que creio será exemplar a nível nacional. Tivemos a sorte de ter um PRR para o edificado e depois um outro para equipamento. E de 50 mil euros em equipamento passamos para cerca de 200 mil. E o próprio edificado que ultrapassa os dois milhões de euros vai ser exemplar. E estamos a criar forma de lidar com os maiores de 65 anos até no sentido de contrariar o Estado que os quer meter em respostas convencionais como as ERPI’s e lares de idosos ou nas atividades dos CACI.

Porque as famílias também não são solução?
Nesta altura, não são mesmo. Por que os pais, que também vivem mais tempo, estão a ficar mais velhos. Daí, uma ideia que tivemos mas que não teve pés para andar porque não há legislação, era no Vítor Fontes, que pertence à Segurança Social,mas de que somos entidade gestora e que finalmente vai entrar em obras a partir de outubro se tudo correr bem, e que foi a de criarmos lares residenciais para pais e filhos. No entanto, apesar de haver muita procura de lares residenciais, a União Europeia não financia estes projetos e só há incentivos nacionais. Houve o PARES III que nos permitiu fazer Resende para cobrir o norte do distrito e esperamos que saia um PARES IV. Acreditamos que possa haver novidades para que o CACI que vamos abrir no domingo possa crescer para ter um lar.

A APPACDM tem muitos pais, mas também tem amigos?
Tem muitos amigos. Uma grande sorte da APPACDM são os parceiros e verdadeiramente amigos, muitas empresas, as pessoas que passam por aqui e que continuam ligados à instituição, os pais e os irmãos que são inexcedíveis.

Como se financia a instituição?
Nós temos a comparticipação do Estado mas é muito insuficiente e não tem acompanhado os aumentos, nomeadamente ao nível das remunerações dos nossos colaboradores. O Estado financia-nos em cerca de 70%, os utentes à medida das suas posses e depois os beneméritos que nos ajudam nas nossas atividades. E depois, as candidaturas que fazemos para ir buscar os financiamentos para uma melhoria constante da saúde e da alimentação, mas também do conforto dos nossos clientes. Assim como a concursos e prémios. O nosso foco é na alegria de todos que vamos alcançando também com as atividades nas oficinas que temos nos nossos CACI.

Ainda há sonhos para concretizar?
Há sempre sonhos. Por exemplo gostávamos de criar uma quinta pedagógica e espaço não nos falta.

Maio 8, 2026 . 08:00

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