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Opinião

Não é o peso. É o tempo

Abril 20, 2026 . 15:45
Há uma ideia que me ficou presa esta semana. Daquelas que aparecem sem avisar e, de repente, nos fazem ver algo que já sabíamos, mas ainda não tínhamos conseguido nomear.

Alguém pega num copo de água e pergunta: quanto pesa isto? As respostas surgem. Duzentos gramas. Trezentos. Talvez meio quilo. E então vem a parte inesperada: o peso não importa. O que importa é quanto tempo o seguramos. Um minuto, não sentimos nada. Uma hora, o braço começa a protestar.

Um dia inteiro, paralisa. Já não conseguimos mover. Já não conseguimos fazer mais nada. E o copo continua exatamente igual ao que sempre foi. Fiquei com isso. E logo identifiquei os meus copos.

Pensei numa conversa que continuo a adiar. Não por falta de palavras, mas pelo peso de as dizer. Porque todos temos os nossos copos. As decisões que adiamos, mesmo sabendo que não vão desaparecer sozinhas; as responsabilidades que aceitamos quando já sentimos que são demais; os erros que revisitamos à noite, em silêncio, quando ninguém nos vê; os silêncios que mantemos em reuniões, em jantares, em família, só para evitar o desconforto de sermos verdadeiros.

Há dias em que sentimos esse peso sem o conseguir nomear. E talvez seja isso que mais cansa.Nada disso pesa assim tanto no início.Mas fica. E é o ficar que transforma o leve em insuportável.

O problema é que vivemos numa cultura que celebra quem aguenta. Quem não se queixa. Quem aparece sempre impecável, sempre disponível, sempre capaz. E fomos aprendendo, de forma tão subtil que mal demos conta, que pousar o copo é sinal de fraqueza. Que pedir ajuda é exposição.

Que reconhecer os limites é falhar.Mas um braço paralisado não serve ninguém. Nem a nós, nem às pessoas com quem trabalhamos, às equipas que integramos, às famílias que construímos. Uma pessoa que vive no limite da sua resistência não está a dar o seu melhor. Está a gerir a dor.

E há uma diferença enorme entre as duas coisas. Talvez o mais difícil não seja aguentar. Talvez seja ter a lucidez de parar. De pousar o copo. E confiar que o podemos voltar a pegar depois — com outra consciência, com outro equilíbrio, com outra clareza.

Hoje fico com esta pergunta: O que é que continuo a segurar… não porque é pesado, mas porque ainda não tive coragem de pousar? Não preciso de responder já. Mas também sei que não vale a pena deixar a resposta para amanhã.

Abril 20, 2026 . 15:45

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